“Ninguém quer parar a guerra” na Colômbia, afirma a defensora do povo à AFP. Dez anos após o acordo de paz com as Farc, grupos que permaneceram armados e forças do Estado alimentam o último conflito interno do continente.
O país, marcado por mais de seis décadas de conflito, registra constantes atentados com drones e carros-bomba, sequestros e assassinatos cometidos por organizações criminosas dedicadas principalmente ao narcotráfico. O conflito armado, impulsionado pelo narcotráfico, deixa quase 10 milhões de vítimas, a maioria delas deslocadas.
Essas organizações, que antes desafiaram o Estado colombiano como guerrilhas ou grupos paramilitares de extrema direita, ampliaram seu poder após o histórico acordo de 2016, que levou ao desarmamento das Farc. @@NOTICIAS_RELACIONADAS@@
A violência não dá sinais de esfriar desde a chegada à Presidência, há quase três meses, do direitista Abelardo de la Espriella, que se comprometeu a subjugar os insurgentes com o lema “túmulo ou cadeia” e encerrou todas as iniciativas de paz. “A guerra está crescendo dia após dia.
Ninguém quer parar a guerra”, disse, na noite de quarta-feira (4), a defensora Iris Marín em seu gabinete, em Bogotá. “Os grupos armados não querem parar a guerra e já demonstraram isso.
São cruéis, não aproveitaram as oportunidades de paz. E o governo nacional, pela mesma razão, também não vai parar a guerra”, explicou.
Segundo Marín, as políticas de mão de ferro do atual governo podem provocar uma reação mais intensa dos grupos ilegais contra as forças de segurança, além de aumentar a violência contra a população civil em territórios e corredores estratégicos para o tráfico de cocaína. “Certamente vão responder mostrando também seu poder militar, sua capacidade armada e de intimidação”, afirmou.
Por outro lado, “os grupos armados estão mais nervosos do que antes, especialmente aqueles que estavam em processos de negociação” de paz com Gustavo Petro (2022-2026), o primeiro presidente de esquerda da história da Colômbia. Governo "militarista"
Enquanto as notícias sobre operações militares voltaram a ocupar as manchetes e as autoridades destacam prisões, apreensões de drogas e mortes de combatentes, Marín lamenta a repetição dos erros de tentar enfrentar o conflito sem uma “visão integral”. Na avaliação da defensora, é necessário criar uma política voltada ao combate à fragilidade institucional e à impunidade, além de incentivar o desenvolvimento dos territórios onde o conflito criou raízes.
“Este é um governo muito mais militarista, um governo que prefere transformar (...) a perseguição militar em uma espécie de cenografia, como um espetáculo”, afirmou. De la Espriella costuma divulgar operações militares ao som de músicas de guerra,com uma pistola na cintura e, por vezes, cercado de cadáveres em sacos brancos.
A defensora questiona a divulgação dessas imagens nas redes sociais do presidente. “Exalta unicamente o uso de armas, o uso da força, mas também, e essa é a parte mais preocupante, o aspecto simbólico: o desprezo pela vida de uma pessoa pelo fato de ser membro de um grupo armado ilegal”, disse.
“Inclusive aqueles que cometeram os crimes mais graves têm garantias previstas no direito internacional humanitário”, explicou. Marín também se mostra cética em relação a medidas como a militarização temporária de cidades afetadas por ondas de violência.
Desde que assumiu o cargo, em 7 de agosto, De la Espriella já ordenou a militarização do turístico porto de Santa Marta e de Cúcuta, cidade próxima à fronteira com a Venezuela. Marín considera que a estratégia oferece resultados limitados.
A militarização "pode gerar presença do Estado, mas não necessariamente será sustentável nem resolverá os problemas de fundo", explicou. Crianças presas na guerra
A defensora alerta ainda para o impacto da guerra sobre os menores recrutados por grupos armados. A campanha de bombardeios do novo governo contra acampamentos guerrilheiros deixou pelo menos oito adolescentes mortos.
Marín menciona regiões como Catatumbo, Cauca e Guaviare, redutos de guerrilheiros onde o recrutamento de menores é uma prática comum. “Ainda assim, as operações têm continuado” nessas áreas, lamenta.
A morte de menores em bombardeios também marcou os governos anteriores do direitista Iván Duque (2018-2022) e de Gustavo Petro. “Estamos nos acostumando a considerar isso um dano colateral da guerra”, disse.
Somente no ano passado, foram registrados 428 casos de recrutamento infantil, segundo a Defensoria. Para Marín, esse fenômeno é “a imagem mais triste” do fracasso do Estado em proteger a população civil e, especialmente, as crianças, as mais vulneráveis no conflito colombiano.
Folha de Pernambuco