Neymar: um peso extra na bagagem

 

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Agora podemos passar ao próximo debate: Neymar deve ser titular? Caso não seja, quantos minutos deve jogar em cada partida? Por que não usá-lo mais? Sua presença na Copa vai despertar todo tipo de sentimentos, menos a indiferença. Ancelotti carrega uma bagagem extra aos Estados Unidos, mas também suportaria um peso caso decidisse preterir o atacante.

É difícil cravar por que o italiano convocou o astro do Santos. Ele poderá dizer que o aviso dado em sua primeira entrevista coletiva foi cumprido à risca: bastava ter certeza da recuperação física de Neymar. A questão é a interpretação dada por ele ao termo “recuperação física”. Bastou estar em campo em partidas seguidas, mas não foi preciso que o corpo permitisse a Neymar executar ações técnicas que um dia foram habituais, tampouco atingir um nível de elite internacional.

É possível que tenha pesado a escassez de nomes de impacto no ataque, exceções feitas a Vinícius Júnior e Raphinha. Rayan e Igor Thiago, por exemplo, têm um histórico muito recente na seleção, oferecem poucas certezas nas grandes ocasiões.

Talvez Ancelotti, embora um italiano que vive o Brasil há um ano, tenha entendido o peso que iria carregar numa Copa sem Neymar. Se mesmo no interior de um ambiente controlado como o auditório da convocação houve festa, assim como na porta do Museu do Amanhã, não é difícil imaginar a carga posta sobre o treinador. E vale lembrar que Ancelotti não está passagem pelo Brasil, terá mais quatro anos à frente da seleção.

Cravar qual não foi o motivo da convocação de Neymar parece uma tentativa com mais chance de acerto: ele não foi chamado por ter jogado mais bola do que seus concorrentes nos últimos meses. O histórico, o peso, tudo isso fez a comissão técnica acreditar no exercício de fé: que a Copa do Mundo pode despertar o talento adormecido. E, neste ponto, o jovem João Pedro, certamente o grande derrotado da convocação, tem motivos para se sentir injustiçado. Nos últimos anos, viu sua carreira crescer, suas atuações no Brighton o levarem ao Chelsea, até conseguir causar impacto imediato no Mundial de Clubes e na equipe inglesa. Mas perdeu lugar para alguém que atuou muito pouco em alto nível neste ciclo, mas que carrega um histórico de presenças, embora não tão recentes, entre os principais jogadores do mundo. Listas costumam combinar celebração e alguma crueldade.

No mais, a convocação retrata alguns traços do futebol brasileiro atual. Primeiro, um aspecto positivo. Os sete jogadores domésticos presentes na lista, alguns deles discutíveis, mostram que o poderio econômico dos clubes locais cresceu.

Ao mesmo tempo, está longe de ser a maior reunião de talento já produzida pelo país. Nas laterais, onde o Brasil já experimentou a fartura, há nomes veteranos como os remanescentes Danilo e Alex Sandro, este último já fora de seu auge físico, sem falar em Douglas Santos, que chega a uma Copa aos 32 anos. No meio-campo, a presença de Fabinho ilustra a dificuldade de encontrar um reserva para Casemiro, e a menor concentração de jogadores retrata um país que produz poucos controladores de jogo. No ataque, convive o talento de Raphinha e Vini Jr. com as perdas de Estevão e Rodrygo, o que abriu espaços para jovens menos testados.

Há talento para ganhar jogos, mas o ciclo confuso ainda não deu ao Brasil um time. A seleção não viaja como favorita, mas será sempre candidata.