O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, anunciou nesta segunda-feira que ordenou aos militares israelenses que atacassem o sul de Beirute, a capital do Líbano, como parte da ampliação da campanha contra o Hezbollah. A declaração sinalizou uma nova escalada na guerra, que tem complicado os esforços de mediação para resolver o conflito entre Estados Unidos e Irã. Desde que a trégua entre os dois entrou em vigor, em abril, o Estado judeu vinha evitando, em grande medida, atacar a cidade, embora tenha continuado a atacar o sul libanês.
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Ainda em abril, Israel estabeleceu uma “linha amarela” cerca de 12 km ao norte de sua fronteira, já dentro do território libanês. Na semana passada, porém, militares israelenses declararam todas as áreas ao sul do rio Zahrani — cerca de 40 km da fronteira e incluindo as cidades de Tiro e Nabatieh — como “zonas de combate”, ordenando a evacuação dos moradores. Nesta segunda, ao menos três alertas de retirada foram emitidos por Israel, e o governo israelense anunciou que estabelecerá zona controlada militarmente também na área do rio Litani.
— Perdi a conta de quantas vezes fui evacuada — disse Zahra Khomasi, de 43 anos, relatando que deixou sua casa durante a última escalada entre Hezbollah e Israel, em 2024; quando a guerra começou, em março, e novamente nesta segunda-feira. — De alguma forma, acabamos nos acostumando com isso.
Segundo autoridades libanesas, a guerra no Líbano tornou-se o desdobramento mais letal do conflito dos EUA e de Israel contra o Irã, forçando mais de 1 milhão de pessoas a deixarem suas casas. Pelo menos 3,3 mil pessoas foram mortas no país desde 2 de março, quando o Hezbollah abriu fogo contra Israel em apoio à República Islâmica. Do lado israelense, o Estado judeu afirma que 24 soldados e quatro civis morreram no mesmo período.
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No domingo, Netanyahu ordenou que militares ampliassem suas “manobras terrestres no Líbano” com objetivo de “aprofundar e expandir” o controle de Israel sobre “os locais que estavam sob domínio do Hezbollah”. Em resposta, o grupo xiita, que acusou o Estado judeu de violar o cessar-fogo e disse ter o direito de “resistir à ocupação israelense”, realizou 21 operações no mesmo dia, incluindo o lançamento de uma salva de foguetes.
Já nesta segunda, o ministro da Defesa israelense, Israel Katz, afirmou em nota que “não haverá calma em Beirute” caso os ataques do Hezbollah continuem: “Dahiyeh, em Beirute, não é diferente das comunidades no norte de Israel. Se não houver calma no norte, não haverá calma em Beirute”, escreveu, referindo-se ao subúrbio ao sul da capital libanesa, reduto do Hezbollah, onde ele havia ordenado ataques mais cedo no mesmo dia.
A ordem de Netanyahu foi emitida após uma escalada dos confrontos no sul do Líbano durante o fim de semana, quando tropas israelenses capturaram o Castelo de Beaufort, com cerca de 900 anos de existência. O local possui importância estratégica e simbólica, já que serviu como base das forças de Israel durante as duas décadas de ocupação do sul do Líbano, encerradas em 2000. Segundo o premier, a tomada da fortaleza medieval representa uma “mudança dramática” na campanha militar:
— A captura de Beaufort é uma etapa dramática e uma mudança dramática na política que estamos conduzindo. Quebramos a barreira do medo. Estamos tomando a iniciativa e atuando em todas as frentes: na Síria, em Gaza e no Líbano — afirmou.
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‘Agressão brutal’
O presidente do Líbano, Joseph Aoun, disse que o país enfrenta uma “agressão israelense brutal” e renovou seu apelo pelo fortalecimento das instituições estatais. Em uma publicação no X marcando o aniversário do assassinato do ex-primeiro-ministro Rashid Karami, ele acrescentou que seu país continuará trabalhando para “acabar com o sofrimento” da população, especialmente dos moradores do sul libanês.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, afirmou nesta segunda-feira que os ataques israelenses no Líbano estão entre os fatores que provocaram atrasos no processo diplomático para encerrar a guerra entre EUA e Irã, reiterando que um cessar-fogo no Líbano é parte integrante de qualquer acordo, enquanto o ministro da pasta, Abbas Araghchi, declarou que a trégua entre Teerã e Washington se aplica “inequivocamente” a todas as frentes, incluindo o Líbano.
— A violação do cessar-fogo em uma frente é uma violação em todas as frentes — disse Araghchi, acrescentando que Estados Unidos e Israel seriam responsáveis pelas consequências de quaisquer violações, mas sem oferecer mais detalhes.
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A União Europeia (UE) também instou Israel nesta segunda-feira a interromper sua operação militar no Líbano e “respeitar a soberania e integridade territorial do país”. No mesmo dia, citando a escalada da violência no país, a França solicitou uma reunião de emergência do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Deterioração diplomática
Os Estados Unidos têm promovido uma série de encontros raros entre representantes dos governos de Israel e do Líbano desde o início das hostilidades, e Beirute participou das conversas apesar das fortes objeções do Hezbollah. Uma fonte libanesa familiarizada com as discussões entre Washington e Beirute, porém, disse à Reuters que o anúncio de Netanyahu nesta segunda reflete a deterioração da iniciativa diplomática liderada pelos EUA.
Um dia antes, um funcionário americano afirmou à agência que o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, conversou com o presidente libanês e com o premier israelense sobre as negociações diplomáticas e propôs um plano para permitir uma “desescalada gradual”. Segundo a fonte, a proposta americana prevê, como primeiro passo, que o Hezbollah interrompa todos os ataques contra Israel e, em troca, que Israel se abstenha de ampliar os ataques em Beirute.
— Isso criaria espaço para uma desescalada gradual e uma cessação efetiva das hostilidades — afirmou o representante.
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Ele acrescentou que Aoun tentou avançar com a proposta e garantir um acordo. No entanto, o presidente do Parlamento libanês, Nabih Berri, colocou sobre Israel a responsabilidade de parar de “atirar primeiro”. Aliado próximo do Hezbollah, Berri declarou, em comentário divulgado pela imprensa libanesa no domingo, que garantiria o “compromisso pleno e imediato da resistência [Hezbollah] com um cessar-fogo”, referindo-se ao grupo.
— Mas a questão é: quem obrigará Israel a parar sua agressão? — questionou.
(Com AFP e New York Times)
