Netanyahu e Eisenkot alegam triunfo em eleição em Israel, mas resultado ainda é incerto; oposição defende aliança com partidos árabes

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e seu principal adversário nas eleições legislativas de terça-feira, o ex-chefe militar Gadi Eisenkot, adotaram discursos de vitória após uma votação marcada pela maior participação popular em mais de um quarto de século, mas que ainda não apontou um vencedor claro.

Com 85% dos votos apurados, o bloco governista somava 53 cadeiras no Parlamento, abaixo das 61 necessárias para formar uma maioria, enquanto os partidos de oposição e as legendas lideradas por árabes reuniam, juntos, 67 assentos. Ponto a ponto: Por que a formação do novo governo de Israel pode levar meses?

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Mais de três quartos dos eleitores israelenses haviam depositado seus votos antes do fechamento das urnas, um dos maiores índices de participação já registrados em uma eleição no país, segundo a Comissão Eleitoral Central de Israel. A expectativa é de que a apuração seja concluída nos próximos dias, incluindo centenas de milhares de votos ainda não contabilizados, depositados por militares e diplomatas em seções eleitorais especiais.

Enquanto isso, muitas questões permanecem indefinidas. Pesquisas de boca de urna israelenses têm histórico irregular de precisão, especialmente em disputas acirradas.

Os primeiros números indicavam que o Likud, partido de Netanyahu, permaneceria como a maior legenda do Knesset, o Parlamento israelense, composto por 120 cadeiras. A força da coalizão governista, que hoje controla 68 assentos, porém, deverá ter uma redução significativa.

Em discurso na madrugada desta quarta, Netanyahu minimizou os resultados preliminares, classificados por ele como “um prelúdio”. O premier disse que o Likud havia emergido como o maior partido de Israel e ironizou pesquisas eleitorais que, durante meses, mostraram sua legenda atrás da de Eisenkot.

Também evocou sua relação com o presidente americano, Donald Trump, e voltou a defender a eliminação da ameaça representada pelo Irã. — O Irã está mais fraco do que nunca, e Israel está mais forte do que nunca.

Ainda assim, isso não acabou. Enquanto esse regime existir, continuará tentando nos destruir.

Juntos, com nosso maravilhoso amigo, o presidente Trump, precisamos eliminar essa ameaça de uma vez por todas — disse ele, defendendo a formação de um novo governo de direita. Eisenkot, por sua vez, afirmou que os resultados demonstravam o desejo de mudança da população, embora tenha reconhecido que a votação não afastaria imediatamente Netanyahu do poder.

O ex-chefe militar, cujo filho e dois sobrinhos foram mortos durante a guerra em Gaza, prometeu formar um governo e inaugurar “uma nova era de esperança”. Com o avanço das contagens, pesquisas sugeriam que o bloco de Eisenkot reunia 49 cadeiras.

— Esta noite, tivemos a resposta: a população quer mudança — declarou Eisenkot. — Um líder digno reconheceria essa falta de confiança da população e anunciaria hoje sua retirada da vida política.

Diante da participação eleitoral excepcionalmente alta, seria um erro caminhar para mais uma eleição. É meu dever cumprir a vontade do povo.

O país realizou cinco pleitos entre abril de 2019 e novembro de 2022 em razão de impasses semelhantes. O presidente Isaac Herzog também instou nesta quarta os partidos de Israel a fazerem tudo o que estiver ao alcance para evitar uma nova rodada de eleições.

Ele afirmou que iniciaria as consultas na próxima semana sobre a concessão do mandato para formar um governo, acrescentando que esperava que os líderes “viessem com a mente aberta”. Partidos árabes

A declaração foi feita após projeções indicarem que as duas principais legendas árabes tinham projeção de conquistar, juntas, 17 cadeiras no Parlamento. Somado com os assentos conquistados por Eisenkot, a oposição poderia somar 66 cadeiras, cinco acima da maioria parlamentar necessária.

Yussef Jabareen, líder da Lista Unificada, que reúne três partidos de maioria árabe, defendeu a formação de uma “aliança judaico-árabe”. — Quem quiser oferecer uma alternativa real e autêntica ao governo de Netanyahu, cujas mãos estão manchadas de sangue, deve nos procurar e abrir caminho para a mudança — disse Jabareen à imprensa israelense nesta quarta, acrescentando que as legendas de oposição precisam reconhecer o papel dos árabes na construção de uma alternativa.

Ahmad Tibi, líder de um dos partidos árabes que integram a Lista Conjunta, também afirmou que o bloco de oposição poderia tirar Netanyahu do poder e formar um governo “se quiser e tiver coragem suficiente para isso”. Na sede da Lista Árabe Unida, único partido árabe que já integrou uma coalizão de governo em Israel, o clima era de comemoração durante a madrugada, com o líder da legenda, Mansour Abbas, celebrando o desempenho.

— Estamos aqui, não estamos à margem — declarou Abbas. Por sua vez, o líder do partido Democratas, Yair Golan, pediu que os integrantes da oposição superem a resistência a uma aliança com os partidos árabes para substituir o premier.

Golan foi o primeiro líder de uma legenda do bloco de Eisenkot a se manifestar sobre os resultados eleitorais, defendendo que “qualquer pessoa que tente apagar os votos dos cidadãos árabes está se rendendo a Netanyahu e desistindo de Israel”: “Não temos futuro aqui se não deixarmos de ter medo.

E se não acabarmos com o racismo. Não podemos mais aceitar a distinção racista que Netanyahu faz entre votos de judeus e árabes”, escreveu Golan no X.

“Temos maioria. Temos uma responsabilidade.

E temos a oportunidade de formar um governo de mudança em parceria com os cidadãos árabes de Israel. Agora precisamos de coragem.

Precisamos deixar de ter medo e agir”. Descendentes dos palestinos que permaneceram em Israel após a criação do Estado, em 1948, os cidadãos árabes são cerca de 20% da população.

Frequentemente, porém, eles enfrentam discriminação e desconfiança em razão da solidariedade à causa palestina, sentimentos que se intensificaram depois do ataque liderado pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, embora cidadãos árabes também tenham figurado entre os mortos e sequestrados.

Divisões profundas Netanyahu rejeitou categoricamente uma aliança com as legendas árabes, classificando a possibilidade como uma “traição”.

Durante a campanha, o premier fez alertas inflados sobre a elevada participação desse eleitorado e insinuou, sem provas, a ocorrência de irregularidades em seções eleitorais de regiões árabes. O chefe do Shin Bet, a agência de segurança interna de Israel, David Zini, afirmou, porém, que a votação estava segura.

— Não podemos colocar Israel em risco e estabelecer um governo que dependa de partidos árabes antissionistas — disse Netanyahu. Eisenkot, por sua vez, deixou aberta a possibilidade de uma aliança com partidos árabes, mas estabeleceu condições, incluindo o reconhecimento de Israel como um Estado judeu e do Hamas como um grupo terrorista.

Alguns de seus possíveis aliados, contudo, já descartaram essa composição. Entre as alternativas consideradas está a formação de um governo de minoria, que dependeria do apoio de parlamentares árabes em votações específicas.

Outra possibilidade discutida por analistas é a formação de um governo de unidade nacional entre Netanyahu e Eisenkot, embora a alternativa enfrente obstáculos significativos. Além da rejeição dos eleitores de Eisenkot ao atual premier, os dois teriam de chegar a um acordo sobre quem ocuparia o cargo de primeiro-ministro.

Netanyahu dificilmente abriria mão do comando do governo, enquanto Eisenkot já afirmou que o rival não tem condições de continuar liderando Israel. O resultado da eleição também reflete as profundas divisões da sociedade israelense após três anos de guerra desencadeados pelo ataque do Hamas.

A condução do conflito em Gaza, que deixou o território palestino em ruínas e provocou ampla condenação internacional, ampliou as críticas a Netanyahu, assim como a violência de colonos na Cisjordânia ocupada e as tensões com aliados históricos de Israel nos Estados Unidos e na Europa.

Após a divulgação dos resultados oficiais e a distribuição das cadeiras entre os partidos, caberá ao presidente convidar o líder político que considerar mais capaz de formar uma coalizão majoritária. Embora o Likud apareça como a maior legenda, Herzog não é obrigado a conceder a Netanyahu a primeira oportunidade de formar governo.

Caso nenhum dos blocos consiga reunir os 61 parlamentares necessários, Israel poderá enfrentar semanas de negociações e até uma nova eleição no início do próximo ano. (Com AFP e New York Times)

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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