Israel vai às urnas hoje para renovar as 120 cadeiras do Knesset (Parlamento) em quadro de profunda incerteza sobre o futuro político imediato e com a sombra da guerra com o Irã pairando sobre o país há oito meses. Diante da ameaça real de perder o cargo, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu aposta suas fichas na retomada das ações militares em larga escala, em parceria com o aliado Donald Trump — ele próprio, às voltas com o risco elevado de ver o Partido Republicano (governista) perder a maioria em ambas as casas do Congresso, na próxima terça-feira.
Ontem, a oposição acusou o premiê de "brincar com fogo", em meio a versões de bastidores sobre uma queda de braço entre ele e o comandante das Forças Armadas, que teria resistido a instruções para uma ação militar pré-eleitoral contra a República Islâmica.As últimas pesquisas de opinião mostraram empate técnico entre o bloco de direita liderado por Netanyahu e a coligação opositora aglutinada em torno do centrista Gadi Eisenkot.
Nenhuma das duas formações, porém, estaria sequer próxima de sair das urnas com a maioria (61 cadeiras) necessária para formar o próximo governo. Na arrancada final para garantir ao menos a maior bancada parlamentar, Netanyahu publicou no X, no domingo, a imagem de uma nuvem atômica que parecia pairar sobre Tel Aviv, acompanhada de um texto, atribuído a um comentarista político, que apresenta o Irã como "ameaça existencial" e menciona o risco de um "segundo Holocausto" se ele for derrotado.Os adversários, na mão oposta, colocaram no centro do debate eleitoral o teor de uma reportagem do Canal 12 da TV israelense, que expôs uma "confrontação sem precedentes" entre o premiê e o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Eyal Zamir.
Citando fontes governamentais e militares, a emissora afirma que Zamir teria resistido a uma instrução de Netanyahu para que fosse lançado, antes da votação, algum tipo de operação militar contra o Irã que, na avaliação do comandante, poderia conduzir a uma retomada do conflito "em um momento dramático e sensível" — nas palavras de um dos oficiais ouvidos pela reportagem.O general teria resistido a levar adiante os planos do premiê, a quem teria reclamado "uma discussão mais aprofundada" e a entrega de "documentos assinados" pela liderança política do país antes de executar qualquer operação.
De acordo com o Canal 12, altos oficiais do Exército manifestaram o receio de que o chefe do governo utilizasse "a questão iraniana para conseguir impulso político"."Sobrevivência"Eisenkot, ele próprio ex-chefe do Estado-Maior, manifestou no X sua oposição à utilização do Exército pelo premiê numa "campanha pela própria sobrevivência política".
E advertiu: "Não tente colocar seus interesses políticos acima da segurança do Estado". O atual líder da oposição no Knesset, o ex-premiê Yair Lapid, reagiu à reportagem do Canal 12 afirmando que Netanyahu "perdeu a cabeça".
"Devemos, imperativamente, mandá-lo para casa", emendou. Mesmo no campo da extrema-direita, o ex-ministro da Defesa Avigdor Lieberman, que já foi aliado do premiê, exigiu que ele seja investigado por "traição", pois estaria "disposto a sacrificar a vida dos soldados porque teme uma derrota eleitoral".O atual titular da Defesa, Israel Katz, falou em favor de Netanyahu e classificou como "totalmente infundadas e falsas" as versões sobre divergências entre governo e Exército.
Afirmou, "categoricamente", que não existiria qualquer intenção de atacar o Irã antes das eleições. Na semana passada, porém, circulou na imprensa israelense e internacional o rumor de que Donald Trump teria recusado um plano de ataque conjunto à República Islâmica, proposto pelo premiê.
A informação coincidiu com a visita reservada feita a Israel pelo secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, em meio a versões de que aviões dos dois países teriam feito exercícios nos limites do espaço aéreo iraniano."Tanto faz"Colocado no centro da disputa eleitoral israelense, o governo de Teerã manifestou completa indiferença pelo desfecho da votação de hoje no arquirrival.
"Pouco nos importa quem possa vir a assumir a liderança de um regime que só trouxe violência e massacres para a nossa região", declarou um porta-voz da diplomacia iraniana. Ele respondia a declarações recentes do presidente dos EUA, que renovou a ameaça de derrubar o regime islâmico e reiterou o apoio à reeleição de Netanyahu, com quem contaria para "completar logo o serviço" no Irã. Saiba Mais Mundo Trump diz que eleição no Brasil 'pareceu ter fraude', mas afirma gostar de Lula Mundo Quase mil pessoas são presas após confrontos em mais um dia de protestos em massa na França Mundo Investigação da BBC revela que anúncios pagos no Facebook espalham desinformação em eleição na Sérvia
Correio Braziliense