A relação com a escrita soa, em alguma medida, “como uma maldição” para Natalia Timerman, uma das mais celebradas autoras contemporâneas brasileiras. “Não consigo deixar de exercê-la, mas me afasta das pessoas que amo e conturba a minha rotina como psiquiatra”, afirma a paulistana, de 45 anos, com seis livros publicados e um consultório, onde atende em São Paulo. “Nado, tenho filhos, um companheiro... Está ótima a vida, sabe? Mas aí vem a literatura para estremecer tudo. Porém, é onde me sinto mais ‘eu’.” Não bastassem os desafios do ofício em si, as histórias escritas por ela mergulham em temas densos, por vezes conectados a experiências pessoais. Depois de publicar “As pequenas chances” (Todavia, 2023), a partir do luto pelo pai, “Antes que apague”, sua obra mais recente, pela Companhia das Letras, traz uma narradora que precisa lidar com o desafio de conviver com o apagamento da memória da própria mãe, Alice, acometida pelo Alzheimer. “É um livro feito com muita angústia”, reconhece Natalia, cuja mãe, de 72 anos, foi diagnosticada com a doença há cerca de uma década. “Eu me sentia culpada em usar isso para escrever e cheguei a pensar em desistir da literatura. Minha vida seria mais simples assim.” Apesar da experiência pessoal, a autora frisa, a todo momento, o quanto o romance não deve ser lido como autobiografia. “A minha vida não é necessária para entendê-lo. Não importa o que é verdade ou não”, salienta. Na história, a narradora, cujo nome não sabemos, descobre um segredo guardado pela mãe desde a juventude e começa a investigá-lo, tomada por dilemas sobre o que fazer com a informação. “Alice, por sua vez, já não fala. Só tem a oferecer o silêncio e os rastros”, comenta Natalia. “Sofreu justamente pelos silêncios passados entre as gerações. Por isso, o livro vai no sentido oposto e recusa tudo o que as famílias jogam para debaixo dos tapetes. E toda família tem a sua tragédia.” Conforme a narrativa avança, a dimensão humana da personagem é descortinada para além da maternidade, outro ponto de interesse da autora. “Meus filhos se incomodam quando danço, por exemplo”, ilustra. “É difícil ver uma mãe se divertindo, ficando bêbada e errando. Então, o livro também tenta fazer isso. Aceitar essa mãe complexa é um jeito de a narradora se aceitar na própria complexidade.” Ainda cercada por romantizações e tabus, a maternidade foi, no caso de Natalia, um tanto libertária. Criada numa casa onde a aquisição de livros era prioridade, ela nutria, desde criança, o sonho de se tornar escritora, mas optou pela Medicina quando jovem. Foi só depois do nascimento do primeiro filho (ela é mãe de Benjamín, de 16 anos, e Jorge, de 9) que uma segunda carreira se concretizou como possibilidade. “Grande parte das mulheres, quando se tornam mães, deixam de correr atrás dos sonhos. Comigo foi o contrário. A literatura saiu do pedestal e consegui escolher uma coisa de cada vez para escrever.” Autora já foi finalista do Prêmio Jabuti LUIZA SIGULEM Faz isso com êxito desde então. O volume de contos “Rachaduras” (Quelônio, 2019) foi finalista do Prêmio Jabuti e “Copo vazio” (Todavia, 2021), cuja trama se desenrola em torno de um episódio de ghosting, virou best-seller, sendo recorrente em listas de recomendações de personalidades, como fez Mel Lisboa no Instagram. “Fui arrebatada”, diz a atriz. “Vai a fundo na desordem psíquica e emocional que uma relação na qual uma parte simplesmente desaparece pode causar. É uma obra curta, profunda e dolorosa. Dialoga diretamente com os nossos tempos.” O mesmo reconhecimento aparece entre pares, como Andréa del Fuego, outro nome incensado da literatura contemporânea. “A Natalia não tem medo do mergulho no processo de escrita”, ela observa. “Tampouco teme perfurar e arranhar os próprios temas. Pesquisa o próprio caminho e a si mesma.” Atenta a tudo e a todos à sua volta, a paulistana segue inspirada. Por ora, pretende não voltar ao assunto “família” (“Estou cansada, preciso partir para outros ares”) e anda pesquisando sobre aranhas desde que foi picada por uma. Quer transformar essa obsessão em texto. O mesmo deve acontecer com a natação, uma paixão descoberta na vida adulta, enquanto as ideias do próximo livro começam a se organizar na mente. “Talvez fale sobre estados alterados de consciência e como lidamos com os erros do passado em tempos de internet”, adianta, ao mesmo tempo em que reconhece a necessidade de desacelerar. “Ainda estou no corre-corre. Mas para que correr, não é? Precisamos fruir o que fazemos.”
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Natalia Timerman mergulha nas relações familiares em livro sobre mãe com Alzheimer
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O Globo
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