Os eleitores russos começam a ir às urnas, nesta sexta-feira, nas primeiras eleições legislativas desde o início da invasão da Ucrânia, há quatro anos e meio, marcadas pelo impacto da guerra e pela pouca tolerância do governo de Vladimir Putin com surpresas de última hora. Em paralelo às insatisfações públicas com a inflação, as sanções e o isolamento do país, o Kremlin apertou o cerco contra potenciais ameaças internas.
Na Índia: Putin diz que o envio de tropas europeias à Ucrânia significaria guerra com a Rússia, que não descarta retomar negociações em outubro Quer morar fora? Veja guia interativo que reúne informações sobre 36 países Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp A principal disputa é para a Duma, a Câmara baixa do Parlamento. Estarão em jogo os 450 assentos da Casa, com metade das vagas definida através de uma lista partidária nacional e a outra metade por votações locais. O Conselho da Federação, a Câmara alta, tem seus membros eleitos de forma indireta. Haverá ainda disputas pelo comando de governos e Parlamentos estaduais, e para administrações municipais. A votação também acontece nas regiões ocupadas na Ucrânia, onde as urnas estão abertas desde o início da semana, sob proteção das tropas russas. Dentro do modelo de “democracia gerenciada” da Rússia, no qual Putin atua como gerente, a dúvida não é se a maior sigla governista, o Rússia Unida, será a mais votada, mas sim qual será o tamanho da vitória. Para manter a supermaioria no Parlamento, o partido precisa eleger, no mínimo, 300 deputados — pesquisas apontam que a marca será superada com folga, com uma votação mais robusta do que na última disputa, em 2021. Apesar de todos os pesares.
Nos últimos meses, a guerra passou a integrar a rotina de moradores de Moscou, São Petersburgo e de áreas distantes na Sibéria. Os ataques a instalações energéticas reduziram a capacidade de refino de petróleo e, por consequência, a disponibilidade de combustível nos postos. Filas, racionamentos e as placas alertando para bombas vazias se tornaram lugar comum. Bombardeios atingindo bases a mais de mil quilômetros da fronteira causaram fissuras no compromisso do governo em proteger o território. As imagens dos armazéns da gigante do comércio digital Wildberries em chamas retrataram os prejuízos bilionários sofridos por grandes marcas e pequenos vendedores.
“Se as previsões atuais se confirmarem, será mais uma demonstração clara do controle total das eleições na Rússia”, escreveu, em sua newsletter, a analista política Farida Rustamova. “O partido governista está obtendo um resultado melhor apesar da crescente ansiedade na sociedade, da intensificação da repressão e das restrições dentro do país, das filas nos postos de gasolina e dos problemas econômicos em geral.” Reação europeia: Rússia critica iniciativa francesa de dissuasão nuclear e denuncia que ela cria 'riscos' para Moscou Uma das apostas do Rússia Unida é presença de pesos pesados, com destaque para as candidaturas do prefeito de Moscou, Sergei Sobyanin, que comanda a cidade desde 2010, e do chanceler Sergei Lavrov, em meio a rumores sobre sua saída do posto após 22 anos. Em vídeo, Lavrov, que encabeça a lista nacional, apareceu à frente de um grupo de apoiadores de Putin, que incluía de políticos a celebridades. Entre eles, o astro da liga americana de hóquei Alex Ovechkin, um conhecido putinista.
— Sou russo. Assim que eu parar de jogar hóquei, provavelmente vou ficar lá — disse a jornalistas o atleta do Washington Capitals, respondendo ainda às críticas sobre sua decisão de participar do anúncio político. — Sou russo. Apoio meu país. Vídeo de campanha do partido Rússia Unida, com o chanceler russo, Sergei Lavrov, em primeiro plano Reprodução Nas palavras do portal independente Meduza, baseado no exterior, a campanha do Rússia Unida foi “caótica”. Manuais com as diretrizes e slogans que deveriam ser repetidos pelos candidatos só foram enviados aos diretórios regionais dois meses antes da votação. Não foram poucos os casos em que candidatos criaram as próprias palavras de ordem para não perder os prazos de gráficas. Nos bastidores, o medo de que a votação fosse adiada por causa da guerra era real. Brasileiros no front: Com muitos ex-guerrilheiros, Colômbia tem estimados 5 mil cidadãos lutando na Ucrânia e Rússia A corrida eleitoral também confirmou que o presidente sabe que o apoio a seu governo foi abalado pela guerra, e que ninguém na cúpula do Estado russo está disposto a tolerar surpresas. Cerca de 40 candidatos associados à oposição foram afastados por razões como problemas nos documentos e, especialmente, publicações classificadas como “extremistas” em redes sociais. Em um caso, Nikolai Bondarenko, do Partido Comunista, foi preso e afastado da disputa depois que um canal de apoiadores publicou uma foto do líder oposicionista Alexei Navalny, morto em 2024. O também comunista Nikita Kovunyov foi desqualificado por, segundo as autoridades, não ter renunciado à cidadania ucraniana. Ele alega não ter documentos do país vizinho, e apoia a guerra de Vladimir Putin.
"Foi uma vingança política contra um homem e contra o Partido Comunista da Federação Russa que estão dispostos a dizer a verdade", escreveu em seu canal no Telegram. 'Presente generoso': Empresário russo vinculado ao Kremlin pagou por festa do filho mais velho de Trump nas Bahamas No mês passado, a Suprema Corte barrou a participação do único partido majoritário contra a guerra, o Yabloko, alegando violações de direitos autorais, uso de plataformas bloqueadas e “incitação ao extremismo”, em referência aos slogans pacifistas. Inicialmente, o Yabloko, fundado nos anos 1990, tinha recebido aval para disputar as eleições. Em comunicado, Grigory Yavlinsky, um dos fundadores, disse que a decisão “significa recusar o diálogo com aqueles que fazem perguntas que deixam as autoridades desconfortáveis”. Um dos líderes do Yabloko, Lev Shlosberg, foi condenado a 11 anos de prisão em agosto por seu ativismo pelo fim do conflito.
Grigory Yavlinsky, um dos líderes do partido Yabloko DMITRY SEREBRYAKOV/AFP Com os vetos, o governo tenta conter ainda uma estratégia criada por Navalny no passado: o “voto inteligente”. Ao invés de apresentar nomes próprios, que naturalmente seriam barrados, a oposição escolhe um nome dentre os candidatos aprovados que não sejam do Rússia Unida.
Não que o Partido Comunista, o Partido Liberal Democrata ou o Novo Povo possam se levantar contra Putin (pelo contrário), mas resultados positivos dessas siglas enviariam sinais de alerta sobre o controle da narrativa. Em paralelo, as autoridades mantiveram o esquema de três dias de votação em uma tentativa de garantir um alto comparecimento, além de incentivar a pressão sobre funcionários dos setores privado e estatal para que não deixem de ir às urnas.
— As eleições no Ocidente e as eleições na Rússia são coisas completamente diferentes — disse Grishin, em entrevista à rede BBC. — As eleições na Rússia nunca trazem uma mudança de governo. Na melhor das hipóteses, são uma maneira de influenciá-lo, de enviar um sinal. Mas o poder na Rússia nunca mudou por causa de uma eleição.
O Globo