'Não reclamar abre uma janela para o universo', diz cantor Eduardo Dussek sobre convivência com Parkinson

'Não reclamar abre uma janela para o universo', diz cantor Eduardo Dussek sobre convivência com Parkinson - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Pintar um quadro para cada música que compôs. É assim, afrontoso e com este projeto em mente, que Eduardo Dussek reage ao Parkinson. O cantor, compositor, pianista e showman, que surgiu na cena nos anos 1980 cantando o fim do mundo na música “Nostradamus”, sempre soube que viver é urgente. Mas após o diagnóstico, 12 anos atrás, o desejo se tornou ainda mais evidente. E veio junto com novas decisões.

Eduardo Dussek na redação do GLOBO Ana Branco O bom humor e o deboche que lhe são característicos seguem on. Mas não reclamar, deixar mágoas no passado e exercer o amor no cotidiano viraram lemas na nova vida, em que buscou reinventar a carreira. Há seis anos, dedica-se à pintura, atividade que ajuda no tratamento da doença. E cujo resultado o público conferiu na exposição “Do sol ao som”, que encerra temporada hoje na galeria MB Artes, em Ipanema.

Leticia Colin. Atriz fala das personagens intensas e da 'separação fracassada' Maria Rita. 'Não ouço minha mãe porque dói' Mas Dussek não largou a música, como mostra ao apresentar, em primeira mão, canção inédita que fez para Caetano Veloso (“Minha praia é você”) durante entrevista ao videocast “Conversa vai, conversa vem”, que vai ao ar nesta quarta-feira (30), às 18h, nos canais do GLOBO no YouTube e no Spotify. Leia trecho a seguir: São 15 pinturas a óleo, com cores vibrantes. Assim como a sua música, banhada em referências teatrais, suas pinturas passam longe do minimalismo, não é? Não consigo ser minimalista, tenho sempre que acrescentar mais coisas. Primeiro faço um traço. Sou arquiteto, coloco a perspectiva. Dali, surgem coisas. O quadro tem que dar algo em troca, oferecer uma viagem lá dentro. Por isso, só considero que está pronto quando não acho mais que fui eu quem fiz. É transcendência. E tem uma galera invisível trabalhando comigo. Meu apelido é Van Gole (risos).

Sua relação com pintura começou com seu pai, Milan Dussek, pintor, gravurista. Mas sua dedicação só veio após a morte dele, 2016, a partir de um autorretrato dele... Sim. Ele era meu professor, me dava aulas de perspectiva, tintas, texturas. Sempre foi muito legal ter aquela figura ao meu lado. Mas brigávamos muito. Saí de casa e fui tentar a música, entrei para um grupo de teatro e a pintura ficou esquecida. Quando meu pai morreu, entrei no ateliê e tinha muitas tintas e telas em branco. Parecia que ele tinha deixado para mim. E me lembrei do que ele me disse aos sete anos: "Não tenha medo do pincel. Não queira domá-lo. Busque a cumplicidade absoluta". Dentro desse "não te medo", fui na coisa de ser mais e menos abstrato, mais e menos figurativo.

E encontrou na pintura tratamento alternativo para o Parkinson...

Aconteceram coisas anteriores ao Parkinson. Vi que algo estava errado e resolvi procurar coisas que me deixassem fora da música, que estava me enchendo o saco. Estava seco. Compunha mas não dava certo. Natural, cinquenta anos de carreira... Veio a pandemia, o Parkinson e falei: "Vou pegar esse Parkinson e fazer dele uma coisa engraçada". 'Perguntei: 'Quais são os sintomas?'. O médico falou: 'Rigidez e tremor nas mãos'. E eu: 'Pelo menos facilita a masturbação' Como foi receber o diagnóstico? O que sentiu? Que perguntas fez? Foi um choque. Já sabia, estava tremendo muito as mãos. Perguntei: "Quais são os sintomas?". O médico falou: "Rigidez e tremor nas mãos". E eu: "Bom, pelo menos facilita a masturbação" (risos).

'Doença, para mim, é fator de evolução. Você não pode dizer: 'Por que eu? Coitado de mim?' Quer chorar? Chora cinco minutos, falo para mim' Encarou com seu humor e deboche habituais e com o exercício da pintura...

Um médico disse: "Está tendo prazer imenso em fazer uma linha reta com pincel. Vai ter reconstrução de neurônios, dopamina, neurotransmissor que traz o movimento e alegria". Dopamina é um regulador de atitudes chiques, boas, abençoadas e de suavidade. Pensei: "Vou aproveitar e criar minha própria dopamina". Doença, para mim, é fator de evolução. Você não pode dizer: "Por que eu? Coitado de mim?" Quer chorar? Chora cinco minutos, falo para mim. Me debulho em lágrimas. Depois, olho a hora, passaram cinco minutos, chega, vamos trabalhar. Tive que dar uma ordem para movimentar um novo tipo de artista. Larguei um pouco o piano, o que foi bom, porque não estava tocando bem. E a coisa que foi melhorando, Maria...

Thiago Lacerda. Ator fala da volta à TV, sobre o conceito de galã e conta como encara a paternidade Silvia Buarque. 'Sou mulher, mãe, atriz e mastectomizada "Faz anos que não me olho no espelho. Vejo rápido e digo: 'Não sou aquilo exatamente'. Vou ser eu mesmo, com a minha cara de velho, mas jovem" Decidiu não deprimir e não se entregar. Mas como é a questão estética, do ego? Faz anos que não me olho no espelho. Vejo uma coisa rápida e digo: "Não sou aquilo exatamente". Vou ser eu mesmo, com a minha cara de velho, mas jovem. A posição que tomei a vida toda foi a do humor para fazer crítica social, pessoal. Era muito metido, metido em tudo, tocava piano... Era uma metidez. Não podia ficar assim. Tinha que usar essa metidez para a arte. Ego é uma coisa muito chata, tem que dar direção para ele e calar a boca.

Segue com a cabeça fervilhando e realizando projetos. O tremor nas mãos não atrapalha a pintura? Pintar é uma coisa maravilhosa, porque você faz um novo corpo seu. Falei pra mim: "Está com Parkinson: vai fazer um tremendo show ou um show tremendo" (risos). São duas coisas diferentes. O tempo inteiro estou nessa escolha: faço uma tremenda obra de arte ou uma obra de arte tremendo. Vou juntando essas pequenas filosofias baratas para me manter. O remédio ajuda com o tremor.

'Nada é fácil. Tenho que ser implacável comigo mesmo. Não perdoo certas coisas que faço, me arrependo e peço desculpas às pessoas, ao universo' O quanto do seu bem-estar depende da sua atitude diante da doença? Nada é fácil. Tenho que ser implacável comigo mesmo. Não perdoo certas coisas que faço, me arrependo e peço desculpas às pessoas, ao universo. Não sou preconceituoso nem esotérico demais. Sou pela disciplina da criação. E não me coloco no lugar de vítima, tipo "por que eu?". Quem tem pena é galinha. Eu nado, pinto, ajudo pessoas. Sou empurrado na cadeira de rodas, depois empurro. Só tem dois caminhos na vida: ou sobe ou desce. Sei quando estou descendo, deixo descer um pouco para poder subir. Tem que ter humildade.

"Não reclamar deixa uma janela aberta para o universo. Reclamando, essa janelinha vai fechando. O universo só gosta de "sim", não gosta de "não".

O tratamento é caro. Tem plano de saúde, recorre ao SUS? Cortei um dobrado, vendi dois imóveis porque tem que ter dinheiro em caixa. Os remédios são caros, o governo dá o mais simples. É uma doença de rico porque você fica impedido de fazer as coisas. É importante zerar certa emoção, não achar que é melhor que muita gente que está aí com problema. Imagina a Faixa de Gaza? Tenho plano, que cobre muitas coisas, mas não certas cirurgias. Tenho carinho, cuidado, assistência técnica de médicos que se encantam por mim, me chamam para congressos. Aprendi muito. Nenhuma nenhuma doença pode ser um fator que não seja de iluminação. Não reclamar é muito importante. Não reclamar deixa uma janela aberta para o universo. Reclamando, essa janelinha vai fechando. O universo só gosta de "sim", não gosta de "não".

Em nenhum momento sente raiva? Não chega a ser raiva, mas dá uma tristeza. Você tem dois trabalhos: ou fica triste ou não. Vou fazer o que tenho que fazer, não vou ficar chorando pelos cantos.

'Trabalhei com muito afinco. Tremendo mas feliz, porque me deram a oportunidade, não me deixaram encostado no caminho. O problema é ficar no caminho... Passa o bloco e vai atrás! A gente tem que procurar disso' Olhar dessa forma também é uma escolha...

Tudo na vida é uma boa escolha. Dá um prazer enorme vencer. Gosto muito do Parkinson, Park Avenue ou Mr. Parkinson... me deu uma dignidade, todo mundo tem que me empurrar, me segurar, me dar atenção. O que eu quero mais? (risos). Tá ótimo! Dizem que o Parkinson não tem cura, eu acho que tem. Pode não descobrir como colocar a dopamina de novo, tem a cirurgia em que botam um chip que estimula.. Mas pode ser a combinação do remédio com o seu renascer. Estou fazendo 70 anos, tem que renascer, senão fica muito chato.

Tudo está dando inspiração. Resolvi botar uma pintura na Marlene Blois, essa galeria em Ipanema. Foi um sucesso. Depois de um ano, ela disse: "Vai fazer uma individual". Eu: "Mas só tenho seis anos de carreira". Sabe, uma vez resolvi acabar com a minha carreira na música. Pensava: "Se não der certo, vou acabo com isso". Aí uma voz aqui dentro, falou: "Que carreira, meu filho? Não seja pretencioso" (risos).

É a mesma coisa: senti que tinha que pintar, estava com seis telas. Fiz mais dez. Trabalhei com muito afinco. Tremendo mas feliz, porque me deram a oportunidade, não me deixaram encostado no caminho. O problema é ficar no caminho... Passa o bloco e vai atrás! A gente tem que procurar disso. 'Vou fazer um quadro para cada música minha' E quando a obra encontra o público tudo faz sentido... Valeu tudo o que eu fiz. E vou fazer muito porque tem uma linguagem. Ano que vem, vou fazer um quadro para cada música minha. Foi ideia do meu produtor, o José Aguiar. Ele é pintor também, tem a arte do sangue. Vamos fazer outra exposição.

'O Parkinson me diz o seguinte: "Não pense que só existe você no mundo' Se acredita que o Parkinson é um passaporte para o crescimento, um conselheiro e um fato de evolução, o que aprendeu com ele? O Parkinson me diz o seguinte: "Não pense que só existe você no mundo".Tire esse ego do centro e assuma a sua religiosidade através do universo. Não vem com velinha, macumbinha... Adoro uma batida de macumba, baixo até o santo. Mas o que deve ser é a sua ligação com o universo. Ele que te manda inspiração e saúde. Deus não é uma pessoa lá sentada numa caderinha, julgando. Deus é tudo, porque tudo tem átomo e célula.

Então, sua atitude diante da doença, passa pela fé. A fé na arte te salva? Passa por um mistério. Não sei o que acontece: passo quatro horas pintando. Boto o quadro para secar. No dia seguinte, quando está seco, ele virou outra coisa. Penso: "Eu que fiz isso?". Não tem explicação. É um novo eu, um novo Zeus. Há milhões de personagens que vem.

'Bibi Ferreira me disse: 'Se está com uma doença, o espectador não pode sentir o seu problema. Se aparecer como um coitado, estraga tudo, está fazendo caridade e não arte' Mas é um golpe duro para um pianista, que tem as mãos como instrumento.

Você é inteligente, sacou tudo! É um golpe. Mas toco. Se botar um piano aqui, toco lindamente. Mas sem remédio, dá uma bobeira, falo errado. Bibi Ferreira me disse: "Tem que tomar cuidado no palco, dar o melhor. Se está com uma doença, o espectador não pode sentir o seu problema. Se aparecer como um coitado, estraga tudo, está fazendo caridade e não arte".

'Não dê o espaço para o Parkinson virar o centro da sua vida. Dá o sol, ele pode iluminar, ser um abajur astral na sua vida' Você já falou coisas muito importantes, mas qual é a mensagem principal que daria a alguém que acabou de receber o diagnóstico? Não dê o espaço para o Parkinson virar o centro da sua vida. Dá o sol, ele pode iluminar, ser um abajur astral na sua vida. Eu igualo o Parkinson à pintura e estou vencendo. Se quiserem te entrevistar sobre o Parkinson, dê entrevista, fale dele, dê dicas de saúde. Dizem que não tem cura, cada um dá a sua interpretação. Paulo Niemeyer foi maravilhoso, disse: "Tem mais dez anos para fazer o que quiser, não vai acontecer nada".

Humor e inteligência no Brasil de hoje Acha que o Brasil atual teria humor para músicas como "Rock da cachorra", "Cantando no banheiro", etc? Acho que não teria inteligência, que é que rege o humor. Naquela época, as pessoas tinham uma vontade de salvar o mundo, achavam que se repartisse o bolo bem, ia dar certo. Não deu. Veio outra geração que não tem a informação que nós tínhamos. Usa menos a inteligência. Tem muito adolescente que é muito mais inteligente que a maioria das pessoas, mas esse não estudar, a internet essa sacanagem profunda... Todo mundo só pensa sexta-feira para ficar na sacanagem. Não sou contra, porque faço tudo isso. Mas tem que ser dosado. Fazia tudo isso, mas lia muito né? Lia muito. E continuo lendo, perguntando. Quero saber o que o adolescente acha. Ser artista é uma responsabilidade grande. Como um sacerdote: se não souber rezar, o que está fazendo lá? Já disse: "Sou seríssimo, o mundo que é uma piada". De onde vem essa sua capacidade de rir de si mesmo? Vem da profunda infelicidade que tinha quando era criança. Era muito problemático, tinha uma carência, era uma merda... 'Chique é a alma, falei isso para a Narcisa Tamborindeguy. Ela amou' Seus pais não eram presentes? Eram, mas tinham quatro filhos, eu era o do meio. Não sei se tem reencarnação... eu já vim com essa carência... Não sei se é burrice mesmo. Quando cheguei aos 20 anos, vi que estava dando problema, não tinha relacionamentos bons, usava a arte para me vangloriar. Aí, me percebi ridículo. Imitava pessoas, queria ser igual a elas Pensava: "Está sentindo coisas diferentes? Assume isso, mas sem fazer escândalo, deixe amar quem você quiser, para com a bobagem de achar que é o centro do mundo, que tudo tem que ser perfeito". Tem que mandar no seu corpo e na sua alma. Chique é a alma, falei isso para a Narcisa Tamborindeguy. Ela amou (risos). Sua obra sempre foi marcada pela vanguarda, irreverência e pelo acolhimento à diversidade. Como enxerga a relação da sua música com o movimento LGBTQIA+ ao longo das décadas? Propunha uma liberdade estética não só nas letras como no visual... Nos anos 1970, veio uma onda de androginia: David Bowie, Ney Matogrosso, meus ídolos da época eram doubles de atitude. Caetano, Gil, que é um feiticeiro e uma feiticeira também. Pessoas com poder de fazer o que querem. Eu andava de batom preto, de saia. Usei muito antes de dizerem que saia para homem é bom. Sempre gostei de irreverência para quebrar tabus.

E hoje, acha que fim do mundo está mais perto do que quando você cantou "Nostradamus" no festival MPB 80? Está seguindo a sequência. Agora está uma catástrofe. Morre muita gente, há muita desgraça, acidentes de avião, terremotos, tufões, ventanias. Está melhor porque tenho menos medo. Mas a Humanidade...

Diante desse clima de fim do mundo, das catástrofes, das mudanças climáticas, as declarações de amor são urgentes? São urgentes! Tenho amor por todas as pessoas do meu dia a dia, exercito o amor, estou amando você aqui, Maria. Mesmo os que me avacalharam, os que me sacanearam, eu tenho amor. E demorei muito para conseguir ser isso. Tinho ódio, revolta, bobeira, muita caretice. Me achava injustiçado.

'Acabei com o mau humor, porque gastei todo o meu dinheiro para comprar tratamentos quando percebi que era maluco, aos 20 anos' Por achar que não tinha o reconhecimento que merecia? Sim. Coisa de adolescente que tem o ego enorme. Não dava certo a carreira. Mas falei para mim: "Deixa de ser besta". Acabei com o mau humor, porque gastei todo o meu dinheiro para comprar tratamentos quando percebi que era maluco, aos 20 anos: "Você é louco, você não tem jeito, vai se tratar", disse a mim mesmo. Fiz todas as terapias, muitos tratamentos violentíssimos, radicais. Processo Fischer-Hoffman, que batia na sua mãe, representada por um pneu, até matar. Depois, batia no pai. Ele ressuscitava... Tirava todos os problemas que vêm de outras gerações. Era muito bom, me deu uma sabedoria. Comecei a ver que era metido, me considerava o centro do universo. Nunca ia ter o que eu queria porque eu queria coisas demais. E sentia um vazio eterno...

Um vazio eterno, porque não vai ter aquilo. Realize dentro de você que a coisa vai acontecer. Fazer o sonho dentro de você. Não dependendo dos outros, há muito mais chance de abrir um canal direto. A gente tem que escolher as melhores coisas. Ninguém é de ninguém, na vida tudo passa. Nada é eterno. A única coisa eterna é a própria eternidade. Viver é urgente, tem que acordar cedo para aproveitar o dia todo. A esperança é a penúltima que morre? É a penúltima que morre, o último serei eu (risos).

Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X

Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?

Acessar matéria no site O Globo