'Não precisa de receita': comércio ilegal das canetas emagrecedoras no Rio funciona em grupos de mensagens com delivery
As mensagens aparecem entre fotos de antes e depois, vídeos de aplicação subcutânea e anúncios de “promoção de Dia das Mães” em grupos fechados de WhatsApp usados para vender ilegalmente canetas emagrecedoras e ampolas no Rio. Em muitos casos, os medicamentos são oferecidos sem receita médica, de marcas proibidas pela Anvisa, e com entrega em domicílio no mesmo dia, prática que transformou substâncias usadas para o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2 em um produto de comércio digital clandestino.
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Durante duas semanas, O GLOBO acompanhou grupos de venda, com vendedores e compradoras e teve acesso a áudios que mostram como funciona a engrenagem desse mercado paralelo: importação do Paraguai, divulgação nas redes sociais, pagamento via Pix e entrega por delivery em bairros da capital.
Os grupos funcionam quase como lojas virtuais. Há tabelas de preços, fotos das ampolas, “feedback” de clientes e até orientações sobre dosagem. Em um dos grupos monitorados pela reportagem, administradores anunciavam: “Presenteie com cuidado, autoestima e bem-estar", enquanto divulgavam promoções de Dia das Mães de tirzepatida, da marca Alpes.
Nele, vendedores anunciavam uma ampola Alpes de 60 mg por R$ 1.600, enquanto uma Lipoless de dose única custava R$ 120. A TG de 15 mg era vendida por R$ 350 e tinha duração de seis doses, que abasteceria o cliente por um mês e meio. Os anúncios prometiam “resultado garantido”, aceitavam Pix, cartão ou dinheiro e ensinavam como fazer a aplicação subcutânea. As três marcas citadas não têm autorização da Anvisa para uso no Brasil.
'Não precisa de receita'
Ampolas de emagrecimento, de marcas ilegais no Brasil, são comercializadas em grupos de WhatsApp no Rio
Reprodução
Em uma das conversas, uma vendedora informal da Zona Oeste contou que começou a revender os medicamentos depois de usar as próprias ampolas.
— Eu estava desempregada. Comecei a tomar e vi que trazia resultado. As pessoas não tinham acesso. Acho que todo mundo pode querer ser magra — disse a vendedora, que conta que a procura aumentou fortemente desde outubro.— A ampola da marca T.G. é o que mais sai pelo custo-benefício. É mais barato e dá para um mês e meio.
Outra mulher, de 47 anos, moradora da Zona Oeste, contou que ela e amigas passaram a comprar ampolas de tirzepatida de uma conhecida que recebe os produtos do pai, responsável por ir ao Paraguai buscar as mercadorias de carro.
— Só eu conheço mais dez mulheres que compram com ela. Não precisa de receita nem nada, só do dinheiro — relatou a cliente, que preferiu não ser identificada.
Segundo ela, a revendedora oferecia descontos progressivos para quem trouxesse novas clientes, criando uma espécie de sistema informal de revenda entre amigas.
— Ela dizia que o produto vinha de farmácia do Paraguai e era original. Eu já comprei três vezes. Está muito caro aqui e eu perdi sete quilos em dois meses.
As imagens em que o GLOBO teve acesso mostram ampolas armazenadas em pequenas caixas de isopor, semelhantes às usadas para entrega de hambúrgueres, cercadas por pedras de gelo improvisadas para tentar manter a refrigeração exigida.
Ampolas de emagrecimento, de marcas ilegais no Brasil, são comercializadas em grupos de WhatsApp no Rio
Reprodução
Proibidos pela Anvisa
Grande parte dos medicamentos vendidos clandestinamente sequer possui autorização para comercialização no país. A Anvisa informou ao GLOBO que atualmente os únicos medicamentos registrados no Brasil com semaglutida são Ozempic, Rybelsus, Wegovy, Poviztra e Extensior. Já para tirzepatida, apenas Mounjaro e Mounjaro Multidose possuem registro no país. Substâncias e marcas encontradas nos grupos clandestinos, como TG, Alpes e Lipoless, não possuem autorização da agência.
“Medicamentos sem registro no Brasil não podem ser comercializados em nenhuma hipótese. Isso porque não tiveram sua qualidade, eficácia e segurança avaliadas pelas autoridades brasileiras”, informou a Anvisa, em nota.
A agência afirma ainda que vendas realizadas fora de farmácias e drogarias regularizadas são consideradas clandestinas, sem garantia de origem, composição, qualidade ou conservação. O cenário preocupa especialmente porque algumas substâncias encontradas nesse mercado sequer foram oficialmente lançadas no mundo.
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