‘Não existe macho que levante a mão pra mim’, sambas de 2027 são lançados amanhã com o poder feminino nas letras

‘Não existe macho que levante a mão pra mim’, sambas de 2027 são lançados amanhã com o poder feminino nas letras - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Da pajé de Marajó à Xica da Silva, as trajetórias de importantes mulheres para a história do Brasil vão desfilar na Marquês de Sapucaí no carnaval de 2027. Os sambas-enredo de pelo menos quatro escolas vão ecoar na Avenida versos que combatem a violência de gênero, defendem os direitos femininos e exaltam o legado de figuras que marcaram a história do país e do samba.

A começar pelo samba da Mangueira. O enredo “Oyá por nós”, desenvolvido pelo carnavalesco Sidnei França, homenageia a orixá Oyá (Iansã) guerreira associada aos ventos, às tempestades, à força da transformação e à coragem.

Menina morta por PM: Vaquinha para mãe de Ana Clara arrecada R$ 1,5 milhão em menos de cinco horas Entenda: Derrota de Flávio Bolsonaro para Lula mexe com o xadrez político na Assembleia Legislativa do Rio

Em setembro, a internet foi à polvorosa quando a escola anunciou o samba oficial nas vozes de Alcione, Daniela Mercury, Leci Brandão e Maria Bethânia, em uma  gravação com o cantor oficial da escola, Dowglas Diniz. Quase como num manifesto de enfrentamento ao machismo, um trecho exclama que “Não existe macho que levante a mão pra mim”.

Em outro verso, o posicionamento firme e insubmisso: “Tá pra nascer quem manda nela”. Intérprete da gravação original que a escola divulgou em seus canais, Daniela Mercury define a letra como uma canção de fortalecimento das mulheres, de acolhimento.

— É uma letra muito pertinente, forte e vibrante. Traz frases que as pessoas repetem e se sentem donas de um poder maior.

É como a Mangueira dando poder às mulheres da periferia, da comunidade, fazendo as mulheres se sentirem representadas nesse desfile. É também muito alinhada ao momento de um ano eleitoral em que o povo brasileiro precisa entender o seu poder para manter sua soberania e sua democracia.

E oferecer esse espaço para a Oyá, Iansã, as religiões de matriz africana e para as mulheres todas que precisam ser elevadas, fortalecidas em todos os aspectos é muito importante — afirma a cantora. R$ 250 milhões em movimentações: PM e ex-PMs acusados de vender armas e vazar informações para o chefe do TCP no Complexo de Israel são presos

Já a Beija-flor homenageia a última guardiã marajoara: a pajé Zeneida Lima, de 91 anos, com o samba-enredo ‘Zeneida: O Sopro do Pó de Louro'. Nascida em Soure, na ilha de Marajó, no Pará, ela é compositora, escritora, poeta e ativista social.

Em 1999, fundou a Instituição Caruanas do Marajó Cultura e Ecologia (ICMCE), que atende quase 200 crianças e adolescentes com educação, música, dança e preservação ambiental. Numa ode à soberania nacional e às raízes ancestrais do Brasil, a homenagem revisita a história de vida da pajé.

Antes, em 1998, a escola já havia feito um desfile inspirado no livro de Zeneida "O Mundo Místico dos Caruanas da Ilha do Marajó" (1992), e foi campeã naquele ano com o enredo "O mundo místico dos caruanas nas águas do Patu-Anu". Daí os trechos do samba de agora: “Pajé Zeneida, soberana, campeã” / “Raiz do Norte, sem jamais se curvar” / “Quem desvelou a missão dos ancestrais (...) E construiu, enraizou o fundamento que liberta o Brasil”.

Ao GLOBO, a pajé disse estar animada para contar a história no desfile do ano que vem. — Eu tenho muito a agradecer por esse momento.

Antes o enredo foram os caruanas, agora vão contar minha caminhada. É um presente pro Marajó e uma homenagem a tantas mulheres guerreiras do país que passam por dificuldades como eu passei.

Tenho certeza que a natureza está muito feliz. Ela é a grande mãe, a origem e o fim de todas as coisas — conta a pajé Zeneida.

Operação da PF: Deputado Marcelo Queiroz volta a ser alvo da PF em investigação sobre castração de animais O movimento é acompanhado por outras escolas de samba, como o Salgueiro, com a homenagem à Xica da Silva.

A atriz Zezé Motta participa da interpretação ao lado de Igor Sorriso, no samba “Laroyê Xica da Silva: A História Por Trás da História”. Antes de cantar o refrão, no vídeo oficial divulgado pela escola, a atriz declara: “Tentaram escrever nossa história com a tinta do silêncio.

Eu, assim como tantas mulheres, luto pelo direito à nossa própria história. Hoje Francisca retorna inteira.

Laroyê!” “Toda mulher tem direito à própria história”.

“Evoco as divas, as marias, as baianas, depravadas, puritanas, pra clamar nossa insolência”. — Trechos do samba-enredo do Salgueiro.

Para a filósofa e professora da UFRJ Helena Theodoro, ex-jurada do Estandarte de Ouro, ter sambas mais feministas na Avenida reflete um processo de transformação impulsionado pelas mulheres negras de todo o Brasil. — Há muito tempo que as mulheres negras, das mais jovens às idosas, vêm trabalhando para que as coisas mudem, pensando como é importante que os nossos corpos não sejam vistos como perigo, mas com participação e construção efetiva deste país.

Nós temos nomes importantes em todas as escolas de samba, Tia Zica, Tia Neuma, Selminha Sorriso, que cuidam para que nós tenhamos possibilidade de viver com dignidade e aceitação num país que ainda olha a comunidade negra como um problema — analisa a professora. O Paraíso do Tuiuti, de São Cristóvão, na Zona Norte do Rio, resgata a história de Tia Ciata, como ficou eternizada a grande matriarca do samba Hilária Batista de Almeida, com o enredo "Ciata: a mãe preta do samba".

Sabedoria popular, mistura de Rio com Bahia e a herança dos quilombos como fundamento da cultura brasileira foram exaltados nos versos. “Saberes que não vão pra academia (...) Meu filho, sobram no meu tabuleiro”, diz um deles.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
Acessar no site oficial
Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X
Curadoria e Apuração Editorial QTU Conteúdo jornalístico publicado em conformidade com os nossos Princípios Editoriais e política de transparência.
Conhecer a Redação →