Não está claro que o próximo governo federal – seja sob mais um mandato para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato a reeleição, seja sob comando da oposição – será capaz de fazer um controle sério de despesas para equilibrar as contas públicas, afirmou nesta sexta-feira o ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do Banco Central (BC) Henrique Meirelles.
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O ministro da Fazenda, Dario Durigan, tem procurado interlocutores, entre economistas influentes e executivos do mercado financeiro, para sinalizar para medidas de ajuste num eventual quarto governo Lula.
Ao mesmo tempo, a oposição tem criticado a condução da política econômica na atual gestão e defendido um ajuste mais forte nas contas, ainda que sem citar medidas específicas – como fez nesta sexta-feira a ex-presidente da Caixa Daniella Marques, responsável pela área econômica do programa do candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL).
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– Não está muito claro, nem evidente, que o governo que tomará posse em 2027, seja ele qual for, vai de fato exercer um controle sério – afirmou Meirelles a jornalistas, antes de dar uma palestra em evento organizado, no Rio, pelo Lide, grupo empresarial criado pelo ex-governador de São Paulo João Dória.
Medidas mais duras
Para o ex-ministro, o momento requer medidas duras, como o “teto de gastos”, regra fiscal criada por sua equipe econômica, logo no início do governo Michel Temer, congelando a despesa agregada da União em termos reais, com reajustes anuais apenas pela inflação.
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Recentemente, Durigan sinalizou a possibilidade de baixar o limite de crescimento das despesas agregadas previstas no “arcabouço fiscal”, regra que substituiu o teto, ainda no início do atual governo Lula, dos atuais 2,5% para 1,5%.
Para Meirelles, é pouco.
– Acho que precisaríamos de algo mais forte, como o teto, que previa um crescimento apenas baseado na inflação.
Isso levaria, caso tivesse sido mantido, a uma queda da dívida substancial, ao contrário do que está acontecendo agora.
Precisaríamos resgatar algo mais próximo do teto, no sentido de controlar as despesas, para que o Brasil possa voltar a crescer – disse o ex-ministro.
'O problema é saber se as pessoas querem ouvir', diz Meirelles
Meirelles garantiu que “não tem planos de voltar ao governo”.
Disse que não fará parte de equipes de campanha nem pretende anunciar apoio a nenhum dos candidatos.
Confirmou, no entanto, que mantém contatos informais com representantes tanto do governo quanto da oposição para dar “contribuições”.
– Contribuições estamos sempre prontos para dar.
O problema é saber se as pessoas querem ouvir – disse o ex-ministro.
De acordo com Meirelles, a atual composição da política econômica, com a política de gastos “expansionista” e a política de juros do BC “contracionista” resulta em juros altos, e com a inflação fora da meta.
'Temos que arrumar a casa', diz economista da XP
Mais cedo, o economista-chefe da XP Investimentos, Caio Megale, reforçou o coro na cobrança por um ajuste nas contas do governo que atue de forma mais incisiva na moderação das despesas.
Do contrário, a economia brasileira seguirá convivendo com juros elevados, que atrapalham o crescimento.
Megale chamou a atenção para o fato de que, no cenário internacional, o quadro é de juros elevados, porque, desde a pandemia de Covid-19, os governos em geral, inclusive nos países desenvolvidos, ampliaram seus déficits e não há sinais de ajuste à frente.
Segundo ele, é mais uma frente de pressão nos juros brasileiros.
Apesar disso, Megale vê um cenário internacional liquidamente positivo para o Brasil, beneficiado pela elevação nas cotações de algumas matérias-primas que exporta, como o petróleo e por oportunidades de investimentos privados com foco em inteligência artificial (IA), especialmente em datacenters.
– O mundo vê o Brasil mais como solução do que como problema.
Agora, temos que arrumar a nossa casa – disse Megale, em sua palestra no evento do Lide, ressaltando que o equilíbrio nas contas públicas é importante para diminuir a diferença dos juros no país para as taxas internacionais, e assim destravar o crescimento econômico.
