Lula e Trump conversaram por telefone durante uma hora e vinte minutos, segundo o governo brasileiro, nesta sexta-feira (21/8)
BBC News fonte
Pablo PORCIUNCULA e Andrew CABALLERO-REYNOLDS / AFP via Getty ImagesLula e Trump conversaram por telefone durante uma hora e vinte minutos, segundo o governo brasileiro, nesta sexta-feira (21/8)
Os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e dos Estados Unidos, Donald Trump, conversaram nesta sexta-feira (21/8) por telefone após meses de estremecimento nas relações entre os dois governos.
Nas últimas semanas, o governo brasileiro chegou a acusar os EUA de ter interesse em "interferir" nas eleições presidenciais deste ano.
A BBC News Brasil entrou em contato com a Casa Branca, mas não obteve esclarecimentos do governo norte-americano sobre a conversa com Trump.
O presidente dos EUA também não comentou o diálogo em suas redes sociais.
A reportagem da BBC apurou que a realização do telefonema vinha sendo negociada há algumas semanas.
Ainda segundo as informações obtidas pela BBC junto a fontes da diplomacia, o fato de a conversa ter ocorrido reflete uma estratégia do governo brasileiro de poupar os canais de comunicação com Trump e centrar seus ataques em Marco Rubio, secretário de Estado.
Segundo nota divulgada pelo governo brasileiro, a conversa entre Lula e Trump aconteceu em tom "cordial e amistoso", durou uma hora e vinte minutos e foi feita por iniciativa do brasileiro.
Nela, o presidente teria dito que os argumentos usados pelo governo dos EUA para a nova imposição de tarifas a produtos brasileiros eram infundados e que Trump teria proposto que os dois países voltassem a negociar.
Ainda de acordo com a nota, os dois também conversaram sobre a recente designação pelos EUA de facções criminosas como organizações terroristas.
A conversa desta sexta-feira é o primeiro diálogo oficial entre Lula e Trump desde que os dois se encontraram pessoalmente na Casa Branca, em Washington, capital dos EUA, em junho.
Na ocasião, o governo brasileiro ainda tentava convencer Trump a não impor novas tarifas sobre produtos brasileiros e a não designar facções brasileiras como organizações terroristas.
Semanas depois, no entanto, Trump se encontrou com o senador e candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-SP) e, dias depois, o governo norte-americano passou a tomar medidas que contrariaram a administração petista.
A primeira foi a designação das facções Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas.
A medida foi comemorada por Flávio e por aliados de direita, mas criticada por Lula e seu governo sob o argumento de que o Brasil já teria mecanismos para lidar com o crime organizado e que essa designação poderia ser usada como justificativa para ações militares norte-americanas em território nacional.
A segunda medida aconteceu em julho, quando o governo Trump confirmou uma nova leva de tarifas contra a importação de produtos brasileiros.
Tarifaço, crime organizado e guerras
Segundo a nota divulgada pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, o novo tarifaço foi um dos principais temas discutidos pelos dois presidentes.
Durante a conversa, Lula teria criticado a fundamentação do tarifaço mais recente contra o Brasil.
"O Presidente Lula enfatizou que as alegações que basearam a medida (desmatamento, acordos preferenciais, propriedade intelectual, combate à corrupção, Pix, etanol e importações de produtos com trabalho forçado) são infundadas", diz a nota.
O documento afirma ainda que Lula defendeu que os dois países retomem as negociações e que Trump teria manifestado interesse no assunto.
"[Lula] Reiterou a importância de trabalhar juntos para que os Estados Unidos continuem sendo um dos principais parceiros comerciais do Brasil.
O Presidente Trump concordou com a necessidade de preservar vínculos comerciais fortes e propôs que equipes dos dois países voltassem a se reunir o mais brevemente possível", diz a carta.
A nota também apontou que segurança pública foi outro dos assuntos principais da conversa.
Segundo o governo brasileiro, Lula teria dito que o Brasil teria mecanismos para combater o crime organizado sem classificar as facções como organizações terroristas.
A nota não aponta, em detalhes, a resposta dada por Trump ao longo do diálogo, mas diz que o presidente norte-americano teria dito que reforçaria a cooperação bilateral em segurança pública e que mobilizaria "funcionários de alto escalão para dar seguimento aos entendimentos nessa área".
O outro tema mencionado na nota do governo brasileiro sobre a conversa foram as tensões internacionais, especialmente as guerras na Ucrânia e os conflitos armados no Oriente Médio.
"Os dois Presidentes trocaram impressões sobre os principais conflitos globais, em especial as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio.
Ambos concordaram sobre a urgência de encontrar uma solução negociada para o conflito entre Rússia e Ucrânia, que já se estende por quase cinco anos", diz um trecho da nota.
Ainda de acordo com o governo brasileiro, Lula teria lamentado a suposta inoperância do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas e propôs "a convocação de uma reunião extraordinária do órgão para encontrar saídas diplomáticas para as crises atuais".
