Preconceito com brechó existe, mas é menor que antes, diz Bruna Vasconi Divulgação O estilista Marcelo Sommer apresentou um desfile feito inteiramente com peças recicladas na última edição da São Paulo Fashion Week. A coleção, criada a partir de peças fornecidas pelo Brechó Capricho à Toa, ganhou nova modelagem com tecidos sustentáveis e rastreáveis. Defensor da economia circular há mais de uma década, Sommer revela que 40% das criações foram vendidas antes mesmo de os modelos chegarem à passarela. O resultado aponta para uma mudança de comportamento de consumo que tem alavancado em ritmo acelerado o mercado de segunda mão. Estudo feito pelo Boston Consulting Group em parceria com a Vestiare Collective sinaliza que o mercado global de revenda de moda e artigos de luxo deverá movimentar entre US$ 320 e US$ 360 bilhões até 2030. O setor registra crescimento anual de 10%, com expansão três vezes superior ao varejo tradicional de produtos novos. Ainda de acordo com o levantamento, 50% dos consumidores de luxo já consultam o mercado de segunda mão antes de adquirir um item novo. “A mudança de comportamento é real. Quem não se desapegava, aprendeu a fazê-lo e quem vende, não mais oculta, é considerado cool”, afirma Carolina Serrano, sócia do New4Another, brechó de produtos de luxo de segunda mão nacionais e importados. “Há dois anos, o ticket médio era de R$ 2.800,00. Hoje, varia de R$ 5.800,00 a R$ 6.200,00.” Com uma média de 3.500 peças em acervo, entre roupas, bolsas, acessórios e sapatos, de grifes como Chanel, Gucci, Hermès, Fendi e Prada, o New4Another tem o showroom na capital paulista como diferencial. “O site é uma vitrine importante, mas a preferência é pelo físico, onde se concentram 70% das vendas”, afirma Serrano. “Isso não significa que não tenhamos de investir no digital. Não funcionamos sozinhos. São em média seis conteúdos novos por dia, além do Grupo VIP, canal exclusivo onde as clientes recebem peças, ofertas e catálogos com acesso antecipado antes de serem divulgados.” A estratégia não poderia ser diferente. Relatório divulgado pela empresa de pesquisa Global Data revela que cerca de 50% dos consumidores descobrem itens de segunda mão por meio de plataformas de redes sociais, referências e conteúdos de criadores, em vez de buscar em marketplaces. A estimativa é que a Geração Z e os Millennials, que nasceram digitais, respondam por cerca de 71% do crescimento total do mercado até 2030. “Trata-se de um público diferenciado, que cada vez mais chega com o objetivo não só de fazer renda, mas, também pelo consumo consciente”, afirma Bruna Vasconi, sócia-fundadora do Peça Rara Brechó. “Ainda existe a barreira do preconceito, mas já é muito menor do que no passado”. Maior rede multicategoria do país, com 130 lojas, o Peça Rara recebe em média 400 mil peças por mês. Dessas, 85% são vendidas, e o que sobra é retirado ou encaminhado ao Instituto Eu Sou Peça Rara. Em 2025, a rede faturou R$ 250 milhões. Ciente de que a tecnologia desponta como um fator-chave de escala, a Hunt Unique Treasures, plataforma de busca especializada em second-hand de luxo, tem usado cada vez mais a inteligência artificial (IA) no processo de autenticação das peças. “Apenas 2% dos itens não são identificados, o que prova que atingimos um público bem maduro”, afirma Maria Eduarda Moura, sócia-fundadora. “Desde que lançamos a plataforma, em 2023, a preocupação com a originalidade foi um drive importante”. Posicionada como uma plataforma B2B e B2C, a Hunt nasceu com foco na intermediação entre brechós parceiros - hoje são 180 - e quem quer comprar, oferecendo curadoria e serviço de personal shopper. No ano passado, passou a contar com estoque próprio, na casa de 120 itens, que já respondem por 35% do negócio. Em 2025 o faturamento cresceu 287%, alcançando GMV (Volume Bruto de Mercadoria) de R$ 5,8 milhões. “Nosso próximo desafio é alavancar a operação nos EUA, aberta há pouco mais de um mês”, revela Moura. “Trata-se de um mercado consolidado, dez vezes maior que o brasileiro.” A expansão das vendas de segunda mão não se restringe ao universo da moda, artigos de luxo, livros e mobiliário. Na OLX, plataforma global de comércio eletrônico e classificados online, são registradas 12 vendas por minuto nas categorias de bens de consumo. Entre as categorias que mais cresceram entre janeiro e agosto de 2026 em relação ao mesmo período de 2025, estão games (24%), console de videogame (15%), informática (23%) e notebooks (13%). “A transação pela plataforma representa 25% das operações e movimentou mais de R$ 1 bilhão em GMV no primeiro semestre”, afirma Lilian Ferraz, CPO do Grupo OLX. “Um produto usado costuma sair de 30% a 60% mais barato que o novo.”
Na moda, mercado de segunda mão cresce três vezes mais que varejo tradicional
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