O chefe de gabinete da Presidência da Indonésia, Listyo Sigit, foi demitido de seu cargo após ser preso sob a acusação de realizar interceptações ilegais das comunicações do presidente Prabowo Subianto — um ato que, segundo autoridades, pode ser classificado como "traição".
Sigit, ex-chefe da Polícia Nacional, havia assumido o cargo de chefe de gabinete em 1º de outubro. Ele foi apontado como suspeito, juntamente com outros dois generais da polícia, no mesmo caso, que envolve supostos “grampos” de comunicações móveis de Prabowo, de ministros do gabinete, políticos e outras figuras públicas, informou a polícia na noite de terça-feira.
"Acreditamos que o que fizeram pode ser classificado como algo que se aproxima de traição", afirmou o secretário de Estado, Prasetyo Hadi, em uma entrevista coletiva na quarta-feira, acrescentando que a ação poderia colocar em risco a segurança do presidente e da nação.
Ele acrescentou que Prabowo ficou "profundamente preocupado" com as descobertas. As motivações para as supostas escutas clandestinas ainda não estão claras.
O ministro coordenador de Assuntos Jurídicos e Direitos Humanos, Yusril Ihza Mahendra, declarou separadamente que os suspeitos estão sendo interrogados por supostas violações da Lei de Informações e Transações Eletrônicas. A interceptação de comunicações é legal na Indonésia, mas apenas sob condições rigorosas, incluindo autorização judicial.
Mahendra acrescentou que as investigações policiais revelaram fortes indícios de uma possível tentativa de traição, ressaltando que a pena máxima prevista é a pena de morte. O inspetor-geral Asep Safrudin, chefe do departamento de investigação criminal da Polícia Nacional, afirmou que as interceptações teriam ocorrido em 2025 e 2026, utilizando o Sistema de Gerenciamento de Interceptações Legais (Lawful Interception Management System).
Ele acrescentou que, no mês passado, os suspeitos teriam ordenado a exclusão dos arquivos das interceptações para apagar vestígios da atividade ilegal. "Os números de telefone foram interceptados sem qualquer vínculo com procedimentos legais ou investigações policiais", disse ele.
O caso tem gerado preocupações no cenário político. O ex-presidente Susilo Bambang Yudhoyono fez uma declaração rara, lamentando abertamente a situação.
"Por que nosso país chegou a esse ponto? Parece que para conquistar o poder vale tudo", publicou o ex-presidente na quarta-feira na rede social X, embora não tenha ficado claro a quem ele se referia. "Preocupa-me que, no fim das contas, as pessoas sintam medo e inquietação ao viver em seu próprio país", acrescentou.
"Apelo ao presidente Prabowo para que resgate uma política civilizada." O filho de Yudhoyono, Agus Harimurti Yudhoyono, atua como ministro coordenador de Infraestrutura e Desenvolvimento Regional no governo de Prabowo.
Sugiono, secretário-geral do partido Gerindra — ao qual pertence Prabowo —, classificou a escuta clandestina como "uma questão extremamente grave. Se forem constatados elementos que atendam aos critérios legais, deve-se investigar, inclusive, a possibilidade de que o ato tenha configurado uma tentativa de derrubar o presidente".
Especialistas manifestaram preocupação com problemas mais amplos na gestão de inteligência, na aplicação da lei e nos direitos à privacidade na Indonésia. O caso "expõe fragilidades nos controles de acesso, nos processos de autorização e na supervisão interna", afirmou Pratama Persadha, do Centro de Pesquisa em Segurança de Sistemas de Comunicação e Informação, sediado em Jacarta.
Ele defendeu uma auditoria imediata em todos os equipamentos de escuta sob posse de órgãos governamentais. Rahma Gafmi, professora de economia na Universidade Airlangga, declarou ao “Nikkei Asia” que as preocupações com a fragilidade da cibersegurança e as vulnerabilidades na infraestrutura de comunicação "nos mais altos escalões do governo" levantam questionamentos sobre a proteção de dados na Indonésia.
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