Uma indiana de 47 anos decidiu participar de uma corrida de 3 quilômetros em Maharashtra, no oeste da Índia, para conseguir dinheiro e ajudar a pagar os estudos das duas filhas. Sem treinamento prévio e sem tênis adequados para correr, ela tirou as sandálias durante a prova, levantou o sári — vestimenta tradicional do país — e seguiu descalça até a linha de chegada. Ramabai terminou em primeiro lugar e recebeu um prêmio de 3 mil rúpias (cerca de R$ 160 na cotação atual). Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp Quer morar fora? Veja guia interativo que reúne informações sobre 36 países O dinheiro seria usado para comprar livros e materiais de estudo. Uma das filhas faz um curso preparatório para um exame de recrutamento para o serviço público. A outra, que mora em Nanded, enfrentava dificuldades para comprar livros. A ideia de participar da corrida partiu de Pooja, filha mais velha de Ramabai. Pela manhã, a jovem contou à mãe que queria disputar a prova, realizada perto de casa. — Minha filha mais velha veio falar comigo de manhã cedo e disse: "Mamãe, quero participar de uma corrida" — contou Ramabai à BBC News Marathi, de sua casa no distrito de Beed. Pooja explicou que o prêmio em dinheiro poderia ajudar a custear sua educação. Ramabai, porém, também estava preocupada com a situação da filha mais nova. Sem dinheiro para enviar a ela, Arati chegou a passar oito dias sem falar com a mãe por telefone. — Eu não podia mandar dinheiro para ela comprar livros e, por causa disso, ela não falou comigo ao telefone durante oito dias — disse Ramabai: — Então decidi que tinha de correr e vencer a corrida. Sandálias escorregaram durante a prova Durante a corrida, as sandálias de Ramabai começaram a escorregar. Ela decidiu então tirá-las e continuar descalça. A mudança ajudou a abrir vantagem sobre as concorrentes, e ela venceu a categoria feminina para participantes de 30 a 60 anos. Pooja também foi premiada ao terminar em segundo lugar em sua faixa etária. A repercussão, no entanto, se concentrou na participação da mãe e na decisão de correr para conseguir dinheiro para os estudos das filhas. Vídeos de Ramabai correndo descalça se espalharam pelas redes sociais e por jornais indianos. O episódio ganhou repercussão em meio às discussões sobre as dificuldades enfrentadas por famílias para garantir acesso à educação. Um usuário resumiu parte da reação ao caso com a pergunta: "Isso é motivo de glória ou de vergonha para nós como sociedade?" Viúva sustenta as filhas desde 2012 Ramabai é a única responsável pelo sustento da família desde a morte do marido, em 2012, segundo a BBC. Depois de ficar viúva, passou a aceitar os trabalhos que encontrava, incluindo a colheita de soja e grão-de-bico nas terras de outras pessoas e a coleta e o processamento de açafrão-da-terra, que depois vendia. Atualmente, ela trabalha como cozinheira em um centro de preparação, justamente o local onde uma das filhas se prepara para um exame de ingresso na polícia. Ramabai deixou os estudos quando tinha 13 anos. A própria trajetória contribuiu para sua decisão de tentar garantir às filhas oportunidades educacionais que ela não teve. — Acredito que, enquanto estiver viva, devo fazer tudo o que puder para dar uma boa educação às minhas filhas. Filhas buscam empregos públicos Uma das filhas de Ramabai se prepara para ingressar na polícia, enquanto a outra busca uma vaga no serviço público. Os dois caminhos são altamente competitivos na Índia e estão associados à busca por estabilidade e status social. Milhões de jovens passam anos se preparando para exames desse tipo, enquanto as famílias precisam arcar com cursos preparatórios, livros e outros materiais de estudo. A confiança no sistema de seleção também é afetada por denúncias recorrentes de vazamentos de provas e outras irregularidades. As controvérsias contribuíram para a frustração entre jovens indianos em relação à educação, ao acesso a empregos e às perspectivas de estabilidade econômica. A corrida representou para Ramabai uma forma de conseguir recursos imediatos para manter as filhas estudando. História chegou às autoridades A repercussão da participação na corrida também chegou às autoridades indianas. No começo de setembro, o presidente da Suprema Corte da Índia, Surya Kant, determinou que autoridades locais fornecessem a Ramabai uma assistência financeira de 50 mil rúpias (cerca de R$ 2,7 mil na cotação atual). Para Ramabai, a prioridade é garantir que as filhas tenham oportunidades diferentes das que ela teve. — Não quero que elas passem pelas dificuldades que enfrentei. Não quero que tenham de enfrentar lama ou viajar sob o sol escaldante e a chuva. Tudo o que sofri, não quero que minhas filhas sofram — explicou.
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Mulher corre 3 km descalça para conseguir prêmio de R$ 160 e ajudar nos estudos das filhas na Índia, e história viraliza
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O Globo
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