De repente, faz-se silêncio. Sucedem-se, então, aplausos, berros, choros, gargalhadas. Quase todo dia há um pedido de casamento aos pés do Cristo Redentor. E aí, não tem jeito: momentaneamente, o monumento perde o protagonismo. Foi assim numa tarde de junho deste ano. Em viagem de férias, o paulista Thales Mendes armou uma surpresa para a namorada Katherine Cardoso. Enquanto ela era fotografada por um guia turístico — numa pose em que aparecia de costas, olhando o cartão-postal —, o rapaz ajoelhou, num canto, e ergueu a caixinha com as alianças. Ao que o fotógrafo gritou para a moça: “Agora vira para a câmera”. E, frente a frente com o homem abaixado,ela demorou, e muito, a perceber a situação. Lá no alto, todo mundo assistia à cena, que viralizou na web. Cinco anos após morte: Marília Mendonça é tema de série que recupera material inédito de seu acervo Há meio século: 'Escrava Isaura', 'Anjo mau', 'Saramandaia' e mais — por que 1976 mudou as telenovelas no Brasil? —Agora, todo ano a gente quer retornar ao Cristo para relembrar este momento único — comove-se Katherine.
Cenário de promessas e demonstrações de fé — e flashes, muitos flashes — , o Cristo Redentor também se consolida como palco de celebrações. Fora do horário de visitação, é possível reservar o espaço para cerimônias particulares. As solicitações, aliás, são cada vez mais e mais frequentes.
Há cerca de duas décadas os batizados se restringiam aos fins de semana. Hoje, acontecem diariamente, numa média de 80 por mês. A frequência dos matrimônios, que exigem estrutura mais robusta, é um pouco menor: todo mês, cerca de 15 casais dizem “sim” no alto do morro. E mais. O moderninho “chá de revelação” — para pais que desejam saber o sexo do bebê — também ganha preparo por ali. Mas nada de fumaça azul ou rosa ou estouro de balões coloridos. Na ocasião, um padre anuncia, em missa especial, o nome da criança (algo previamente informado por familiares) e, tcharan, eis a revelação se virá ao mundo um menino ou uma menina. A demanda por eventos assim ganhou fôlego após a pandemia. Só neste ano, até o mês de setembro, foram 71 casamentos. — As pessoas criam todo um laço afetivo com este lugar. Há famílias que se casaram aqui, tiveram o primeiro filho e voltaram para batizá-lo. Depois, tiveram o segundo, o terceiro, e também os batizaram aqui — conta Carlos Alberto Ferreira da Silva, da secretaria pastoral do santuário, responsável pela organização das cerimônias, que devem ser requeridas em santuariocristoredentor.com.br. Batizado a céu aberto Uma das comemorações pioneiras no local foi vivenciada pela jornalista e colunista do GLOBO Ana Paula Araújo. Em janeiro de 2007, sua filha Melissa, então com 1 ano, se tornou a primeira criança batizada no Cristo Redentor, elevado à condição de santuário poucos meses antes. A ideia surgiu quase por acaso. O padrinho da menina, que morava em Londres, estava de passagem pelo Rio justamente na época do aniversário dela. Ana Paula procurou o padre Omar Raposo para organizar a cerimônia, inicialmente prevista para uma igreja da Zona Sul. Foi ele, então, quem sugeriu o novo endereço. Só havia um porém: a capela — que fica abaixo dos pés do monumento — estava em obras, e o batizado precisaria acontecer ao ar livre. A jornalista gostou.
Galerias Relacionadas Duas vans levaram familiares e amigos ao Corcovado, onde uma mesa improvisada recebeu os objetos da cerimônia, que atraiu a curiosidade de turistas. A certa altura, o padre perguntou se alguém gostaria de pedir a bênção de algum santo. E eis que surgiram manifestações em diferentes línguas e sotaques, com direito a invocações a São Patrício e outros santos estrangeiros. — É uma das lembranças mais felizes que tenho. Inesquecível mesmo. Melissa sempre recorda disso e tem o maior orgulho — diz Ana Paula, que fez uma promessa a Santa Clara para afastar a chuva.
A atriz Regina Casé também coleciona lembranças no local. Ela até perde as contas ao enumerar os momentos marcantes diante do Cristo. Ali, participou de uma cerimônia pela recuperação do marido, o diretor e roteirista Estêvão Ciavatta (vítima de um acidente que o deixou temporariamente tetraplégico); da primeira eucaristia do filho Roque; do batismo da afilhada Estrela, filha de Xande de Pilares; e da missa de sétimo dia em homenagem a Paulo Gustavo. — São muitas e muitas lembranças, todas lindas e abençoadas. Aquele lugar é mágico — resume a artista. Jaqueline Logrado e Bruno Garcia se casaram no Cristo Redentor Arquivo pessoal Para Jacqueline Logrado, o Cristo é quase uma extensão do álbum de família. Maranhense apaixonada pelo Rio, onde já morava havia uma década, ela escolheu o alto do Corcovado para se casar com o carioca Bruno Garcia, em 2021. A cerimônia aconteceu durante o nascer do sol, diante de um grupo restrito de convidados. Enquanto os noivos trocavam alianças, a cidade despertava lá embaixo. — Casar às cinco da manhã, naquele silêncio ensurdecedor, com as pessoas que a gente mais ama no mundo, foi muito emocionante. Lembro-me do Rio acordando aos nossos pés — rememora ela.
O casamento inaugurou uma tradição particular. Nos anos seguintes, o casal voltou ao Cristo para batizar cada um dos quatro filhos. Hoje, da janela de casa, eles avistam o monumento, que certamente os observa lá do alto. Afinal, há quem veja tudo, sempre.
O Globo