247 – O Ministério Público do Trabalho (MPT) recebeu 530 denúncias de assédio eleitoral em menos de dois dias após a confirmação da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Os registros envolvem práticas de discriminação política no ambiente profissional, incluindo ameaças de demissão, desligamentos de trabalhadores e campanhas de retaliação econômica contra pessoas e estabelecimentos comerciais identificados como apoiadores do petista.
De acordo com informações publicadas pelo jornal O Globo nesta quarta-feira (28), as denúncias foram contabilizadas entre as 23h59 de domingo e as 17h45 de terça-feira (27). O volume representa 21,4% das 2.467 ocorrências registradas pelo MPT ao longo de 2026, indicando que as práticas de intimidação política continuaram mesmo depois do encerramento da disputa presidencial.
O levantamento aponta que o órgão havia recebido 991 denúncias até o encerramento do primeiro turno. Durante o segundo turno, foram contabilizadas outras 946 ocorrências.
Com os 530 novos registros após a votação, o total chegou a 2.467 denúncias relacionadas a possíveis práticas de assédio eleitoral. Entre os episódios que motivaram a atuação do Ministério Público estão publicações de empresários, políticos e influenciadores de direita que defendem a demissão de trabalhadores em razão de suas preferências políticas.
Também foram identificadas iniciativas para impedir contratações e estimular o isolamento econômico de eleitores de Lula. O procurador-geral do Trabalho, Gláucio Araújo de Oliveira, advertiu que a liberdade de manifestação política dos trabalhadores não pode ser utilizada como justificativa para punições profissionais.
Segundo ele, empresas que adotarem medidas discriminatórias poderão responder judicialmente. “O empresário é dono do negócio, e não do voto do seu empregado.
Demitir trabalhadores por sua convicção política é ilegal e será alvo de atuação do MPT perante a Justiça do Trabalho”, afirmou. O MPT ressalta que ameaças de dispensa, demissões efetivas, recusas de contratação e outras formas de represália relacionadas ao voto podem caracterizar assédio eleitoral.
Essas condutas estão sujeitas à investigação e à adoção de medidas perante a Justiça do Trabalho. Políticos e influenciadores incentivam retaliações contra eleitores de Lula
As manifestações de hostilidade política ganharam força nas redes sociais depois da divulgação do resultado eleitoral. Parte das publicações passou a defender que empresários utilizassem suas decisões de contratação e demissão como instrumentos de punição contra funcionários identificados com a esquerda.
Um dos casos citados envolve a vereadora Jessicão (PL), de Londrina, no Paraná. A parlamentar utilizou suas redes sociais para incentivar empresários a dispensarem funcionários de esquerda, associando a manutenção dos vínculos profissionais às posições políticas dos trabalhadores.
A influenciadora digital Josiflora, que reúne mais de 1 milhão de seguidores no Instagram, também promoveu manifestações de retaliação contra eleitores do presidente reeleito. Em suas publicações, recomendou que apoiadores de Lula fossem privados de oportunidades de emprego, ajuda pessoal e até mesmo de gestos cotidianos de solidariedade, como oferecer um copo de água.
As mensagens ampliaram o alcance das campanhas de discriminação política, ao estimular que a preferência eleitoral fosse considerada não apenas nas relações profissionais, mas também nas interações sociais. Outro episódio mencionado na reportagem envolve o empresário e criador de conteúdo Rapha Hanzol, que anunciou nas redes sociais a demissão de uma funcionária descrita por ele como a profissional de maior destaque de sua equipe.
Embora não tenha relacionado explicitamente a decisão ao resultado das eleições, Hanzol justificou o desligamento como uma “falta de alinhamento à cultura” da empresa. Ele também afirmou que a permanência da trabalhadora poderia “contaminasse” a equipe, utilizando uma justificativa corporativa para explicar a dispensa.
O episódio integra o conjunto de manifestações que passaram a chamar a atenção para o uso de argumentos empresariais em situações de possível discriminação política. A caracterização de assédio eleitoral, contudo, depende da apuração das circunstâncias de cada caso.
Listas de boicote atingem comerciantes em cinco estados A mobilização contra eleitores de Lula também alcançou pequenos empresários e prestadores de serviços.
Em diferentes regiões do país, começaram a circular listas que identificam estabelecimentos comerciais de acordo com o posicionamento político atribuído a seus proprietários. Segundo O Globo, foram identificados levantamentos desse tipo em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul.
Os documentos são compartilhados principalmente por aplicativos de mensagens e procuram orientar consumidores a deixar de frequentar determinados estabelecimentos. As campanhas têm como objetivo declarado prejudicar financeiramente comerciantes associados ao presidente reeleito.
A estratégia busca transformar a identificação política dos proprietários em motivo para a perda de clientes e de faturamento, atingindo especialmente negócios locais e prestadores de serviços. Um dos episódios ocorreu em Nova Petrópolis, no Rio Grande do Sul, onde circulou uma relação nominal de comerciantes classificados como “larápios”.
A divulgação provocou uma reação dos estabelecimentos mencionados e levou mais de 30 pessoas a procurar a Polícia Civil. O caso demonstra que as campanhas de retaliação ultrapassaram o ambiente das redes sociais e passaram a produzir consequências concretas para comerciantes identificados nas listas.
Assédio eleitoral permanece sob fiscalização após a votação O crescimento das denúncias depois do segundo turno reforçou a preocupação do Ministério Público do Trabalho com a continuidade de práticas discriminatórias, mesmo após a definição do resultado presidencial.
A atuação do órgão abrange situações em que empregadores utilizam sua posição hierárquica ou seu poder econômico para interferir na liberdade política dos trabalhadores. Isso inclui tanto tentativas de direcionar o voto durante a campanha quanto represálias posteriores motivadas pela escolha eleitoral.
No cenário identificado após a reeleição de Lula, a preocupação envolve especialmente a possibilidade de trabalhadores perderem seus empregos ou serem impedidos de conseguir novas oportunidades por suas convicções políticas. O MPT sustenta que o poder de gestão das empresas não autoriza a imposição de preferências eleitorais aos funcionários.
A instituição poderá levar à Justiça do Trabalho os episódios em que forem constatadas demissões ou outras medidas discriminatórias motivadas pelo posicionamento político dos empregados.
Brasil 247