Motos viram 'prioridade' dos criminosos e passam a ser mais roubadas que carros em SP

 

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As motocicletas se tornaram o alvo principal de assaltos no trânsito da cidade de São Paulo, invertendo um cenário que, até dois anos atrás, era dominado pelos veículos de quatro rodas. A mudança chama a atenção diante da disparidade das frotas: há 1,3 milhão de motos circulando na capital paulista, apenas um sexto dos 7,8 milhões de carros, caminhonetes e utilitários. Ainda assim, se em 2023 as motos representavam 42% dos roubos, desde 2024 elas passaram a responder pela maioria dos casos e corresponderam a 53% dos veículos roubados no ano passado.

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Foram 4.945 roubos com motos subtraídas em 2025, superando a marca de 4.440 registros envolvendo os carros. O novo cenário foi impulsionado pela busca por um modelo específico, a Honda CG/160, a mais vendida no país, mostram dados inéditos do Mapa do Crime, ferramenta interativa de monitoramento de roubos do GLOBO lançada nesta semana.

Grafico 1 - Dia 4 - Mapa do Crime (v3)

Arte O GLOBO

Contrariando a queda de 19% nos roubos de moto em São Paulo, na Zona Sul, onde ficam os bairros campeões em número de casos, o crime avançou. Juntos, cinco distritos policiais da área — Capão Redondo, Campo Limpo, Jardim Herculano, Jardim das Imbuias e Parelheiros — registram uma alta de 24% nos casos entre 2023 e 2025, chegando a 1.140 ocorrências.

Na região, a criminalidade se concentra principalmente no entorno da Estrada do M’Boi Mirim. Após os roubos, os ladrões costumam fugir para ruas mais estreitas, onde efetuam o desmanche de peças ou adulteram placas dentro de casas. Os criminosos também atuam em pontos próximos às represas Billings e Guarapiranga, que contam com áreas de mata nas margens, onde as motos também são desmontadas.

Nos cinco bairros com mais roubos na cidade, os assaltos envolvendo a Honda CG/160 dispararam 69%, chegando a 414 casos no ano passado. Em todo o município, entre 2024 e 2025, as ocorrências com o modelo saltaram 23%, totalizando 1.161 roubos. Também somaram aumento os modelos PCX (232 ocorrências, 35% de crescimento), a ADV (131, 3% de alta), e a XTZ (65, 240% mais casos), todos da Honda. No segmento de luxo, a Triumph Scrambler aparece em 47 roubos, com 74% de aumento.

Mapa do Crime SP - Gráfico 2 - Dia 4 (v2)

Arte O GLOBO

Dias como quinta e sexta-feira concentram quase um terço dos roubos de CG/160 na Zona Sul. O horário crítico começa às 20h e se intensifica à medida que a noite avança — boa parte dos casos nesses bairros (43%) ocorre entre 20h e meia-noite.

Uma dessas vítimas foi o entregador de aplicativo e influencer Gabriel Nunes, de 22 anos. Em fevereiro, ele iniciava seu turno de trabalho, quando foi surpreendido por criminosos na Estrada de Itapecerica, no Capão Redondo. Duas motos o cercaram na entrada de um condomínio residencial, às 21h de um domingo.

— Um rapaz me abordou já apontando a arma na minha cara. Saí da moto, joguei ela no chão e deixei levarem. Não faço mal pra ninguém, só trabalho e sou assaltado? — diz Nunes.

No baú da moto, ele deixou um óculos que grava vídeos. Graças ao dispositivo, que tem geolocalização, o entregador voltou a encontrar a moto. Ao ser recuperada, a CG/160 de Nunes estava sem parte das carenagens, as peças de plástico que revestem a estrutura da moto. Os criminosos provavelmente abandonaram o veículo temporariamente, para verificar se seria empresas de seguro conseguiriam rastreá-lo — medida tomada para evitar que essas firmas denunciem pontos de desmanche à polícia. Como a CG é recordista de vendas no país, seus componentes têm alta demanda no mercado ilegal.

— Colocar as mãos em peças da CG é como dinheiro na mão, é liquidez pura. Nós dizemos que o grande concorrente da Honda não é a Yamaha, e sim as peças roubadas da própria Honda — diz o coordenador do centro de estudos em economia do crime da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), Erivaldo Vieira.

Mapa do Crime SP - Gráfico 3 - Dia 4

Arte O GLOBO

O modo de atuação das quadrilhas, no entanto, varia conforme o preço das motos. Criminosos focados nas marcas mais caras integram bandos especializados, ostentam os veículos em redes sociais e usam as motos de luxo para praticar roubos.

No ano passado, 768 motos do tipo, de marcas como Triumph, Kawasaki e BMW, foram roubadas. Nesse nicho, 43% das ocorrências se concentram aos finais de semana, quando as vítimas estão em momentos de lazer. Pirituba, na Zona Norte, é cortado por rodovias e fica no encontro das marginais Tietê e Pinheiros, vias propícias para a atuação de ladrões dessas motos. O bairro registrou 44 roubos de modelos de alto padrão em 2025, liderando as ocorrências nesse nicho.

Um dos casos aconteceu às 18h40 de uma sexta-feira, em janeiro, quando uma Kawasaki ER-6N foi encurralada e roubada na Rua da Despedida. A via dá acesso para a Marginal Tietê e integra um dos pontos críticos da cidade, nos arredores da Rua Capitão Mor Rodrigues de Almeida, epicentro criminal que concentrou 33 assaltos a motociclistas em um raio de 500 metros no ano passado.

Dois dias depois, no domingo, quase no mesmo horário, os ladrões voltaram a agir, também em Pirituba, a 3 quilômetros do primeiro roubo, em uma avenida próxima à rodovia Anhanguera. Armados e a bordo da Kawasaki roubada dias antes, pararam o piloto de uma BMW K1200 e levaram o veículo. As motos foram encontradas na segunda-feira. Policiais militares se depararam com homens negociando peças na frente de uma casa, em Perus, na Zona Norte. Dentro da residência encontraram a BMW e a Kawasaki, parcialmente desmontadas. No local, foram presos três suspeitos reconhecidos pelas vítimas como autores dos roubos.

Investigações da Polícia Civil já identificaram dezenas de perfis nas redes sociais que ostentam motos de alta cilindrada roubadas pela cidade. Os nomes de usuário podem conter o número 46, em referência ao italiano Valentino Rossi, multicampeão da MotoGP. São jovens de até 25 anos de idade, que primeiro se exibem com os veículos e, depois, realizam a desmontagem para a revenda das peças no mercado clandestino.

O delegado Daniel Borgues, da 1º Delegacia Seccional (Centro), designado pela Secretaria de Segurança Pública (SSP) para responder aos questionamentos da reportagem, afirma que a Polícia Civil tem atuado contra o mercado de receptação de motos populares e monitora locais como a “boca das motos”, na região central, que concentra comércios de peças de motocicletas.

— As estratégias incluem investigações direcionadas, operações integradas e atuação coordenada para desarticular o mercado ilegal que sustenta esse tipo de crime — diz Rocha.

O delegado também afirma que a polícia realiza investigações contra grupos especializados em motos de alto valor e cita a operação Cilindrada, que ocorreu em fevereiro, em que 22 suspeitos de participar de um bando envolvido nesse tipo de roubo foram presos.

A SSP, por meio de nota, afirma ainda que analisa os dados georreferenciados para identificar locais que concentram ocorrências e orientar o policiamento preventivo da Polícia Militar e as investigações da Polícia Civil.

A prefeitura de São Paulo informa que a Guarda Civil Metropolitana realiza patrulhamento orientado por análise de dados georreferenciados, o que tem contribuído “para que os indicadores criminais apresentem queda consistente nos últimos anos”. Procurado, o Detran afirma que fiscaliza locais que realizam desmontagem de veículos em parceria com as forças de segurança, e que entre 2023 e 2026 lacrou 403 endereços que registraram irregularidades.

O que é o Mapa do Crime de São Paulo?

O Mapa do Crime de São Paulo foi produzido a partir de microdados de 330 mil boletins de ocorrência disponibilizados pela Secretaria da Segurança Pública (SSP) do estado. Ao contrário do Rio, São Paulo torna públicas as coordenadas e os nomes das ruas das ocorrências. O levantamento cobre roubos ocorridos entre 2023 e 2025. Diferentemente do governo paulista, O GLOBO usou a data do fato — e não a do registro na polícia. Assim, um roubo ocorrido em 31 de dezembro e registrado no dia seguinte é contabilizado no ano correto. Erros de grafia e inconsistências nos dados foram corrigidos com auxílio de inteligência artificial.

Disponível no site do jornal, com acesso pelo computador, celular ou tablet, a ferramenta permite navegar por uma compilação inédita de dados de roubos na capital, com filtros sobre tipos, marcas e cores dos bens subtraídos.

Para usá-la, busque o endereço da sua casa, do trabalho ou de qualquer outro ponto da cidade e escolha um dos quatro tipos de crime disponíveis: roubo de celular, de carro, de moto e de rua — esse último inclui carteiras, colares, alianças e relógios levados de pedestres. Cada ponto no mapa corresponde a uma ocorrência e, ao ser clicado, mostra detalhes do crime e dados sobre a rua: total de casos em 2025, série histórica dos últimos três anos, bens mais roubados ali e um mapa de calor com horários e dias de maior incidência. Também é possível refinar as buscas por tipo, marca e cor do bem roubado — para descobrir, por exemplo, quantos HB20 brancos foram roubados em determinada via — ou navegar por um ranking de ruas.

*Estagiária sob a supervisão de Rafael Soares