A cidade de São Paulo registrou 190 mortes em ações envolvendo agentes da Polícia Militar (PM), da Polícia Civil (PC) e da Guarda Civil Metropolitana (GCM) até setembro de 2026, segundo dados do painel do Grupo de Atuação Especial da Segurança Pública e Controle Externo da Atividade Policial (Gaesp), do Ministério Público de São Paulo (MP-SP). É o quarto ano seguido de aumento nas mortes por forças de segurança, se comparado o período entre janeiro e setembro de cada ano. Os números mostram o patamar elevado da letalidade policial na capital paulista durante as gestões do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e do prefeito Ricardo Nunes (MDB). Em 2023, primeiro ano do governador e terceiro do prefeito, foram 139 mortes, considerado o mesmo período de janeiro a setembro. O indicador subiu para 176, em 2024, e para 186, em 2025.
A série histórica do Ministério Público mostra que o número de mortes estava em queda nos anos anteriores. Considerados os nove primeiros meses de cada ano, passou de 292, em 2017, para 119, em 2022. A partir de 2023, porém, eles voltaram a crescer. Mortes pela PM, Polícia Civil e GCM de janeiro a setembro de cada ano: 2017 Geraldo Alckmin (PSDB): 292 mortes 2018 Geraldo Alckmin* / Márcio França (PSB): 271 mortes 2019 João Doria (PSDB): 243 mortes 2020 João Doria (PSDB): 262 mortes 2021 João Doria (PSDB): 175 mortes 2022 João Doria (PSDB)/ Rodrigo Garcia (MDB): 119 mortes 2023 Tarcísio de Freitas (Republicanos): 139 mortes 2024 Tarcísio de Freitas (Republicanos): 176 2025 Tarcísio de Freitas (Republicanos): 186 2026 Tarcísio de Freitas (Republicanos): 190 Neste ano, o mês de março foi um dos mais letais, segundo o levantamento, com 28 mortes registradas. Em um intervalo de dois dias, por exemplo, foram registradas três vítimas. Na manhã de 14 de março, uma ação policial nas proximidades de um baile funk no Jardim Macedônia, na Zona Sul, deixou dois mortos e cinco feridos. Entre as vítimas estavam Kauã Gabriel Cavalcante Lima, de 22 anos, e o pedreiro Francisco das Chagas Fontenele, de 56, atingido por um disparo quando saía para trabalhar.
Segundo a versão da PM, os policiais foram recebidos a tiros e reagiram. O caso passou a ser investigado pela Polícia Civil e pela própria corporação. Na madrugada do dia 15, um suspeito morreu durante uma troca de tiros com policiais militares que flagraram uma tentativa de roubo a uma farmácia na Estrada do Campo Limpo, na Zona Sul. Um jovem de 19 anos foi preso, e armas foram apreendidas. A tendência de alta ocorre em meio à divulgação de imagens que colocaram as abordagens polícias sob o holofote. Um dos casos é o de Camila Pereira da Silva, que estaria em suposto surto psicótico e foi morta à queima-roupa com um tiro na tarde de quinta-feira (15) no Parque São Domingos, na região de Pirituba, Zona Norte de São Paulo. O caso ocorreu na Rua Desembargador Cândido da Cunha Cintra, por volta das 14h30. O agente foi preso após o episódio. Imagens de câmeras de segurança e de populares que acompanhavam o caso mostram um grupo de três policiais militares que aparentam atender a uma ocorrência no endereço, quando a mulher aparece no vídeo, segurando uma faca. Assim que ela avança na direção dos policiais, toma um tiro.
Outro é de Gustavo Munis de Santana, de 20 anos, morto por policiais militares na madrugada de 10 de outubro, na região de Moema, na Zona Sul. Segundo o boletim de ocorrência, o corpo apresentava ao menos 27 lesões. Os registros do caso indicam que quatro policiais dispararam, ao todo, 45 tiros. Imagens de uma câmera de segurança mostram dois PMs se aproximando de um homem junto a um portão. Segundos depois, ele cai no chão. Na gravação, o jovem saca o celular e avança em direção dos policias. em um intervalo de três segundos, foram 45 disparos de três oficiais diferentes. A Polícia Militar considera a hipótese de que o jovem tenha provocado deliberadamente uma reação policial para ser morto, fenômeno conhecido como "suicide by cop" (suicídio por polícia, em tradução livre). A possibilidade ainda não foi comprovada, e a defesa da família nega histórico de tentativas de suicídio e uso de medicamentos.
"Gustavo era um jovem feliz, alegre e amoroso. Sua vida foi interrompida aos 20 anos, levando consigo sonhos, projetos, ambições e possibilidades que jamais poderão ser recuperadas. A brutalidade da ação policial que resultou em sua morte exige esclarecimento rigoroso e responsabilização", escreveu a defesa em nota. O caso é investigado pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) e pela própria PM. Os policiais foram afastados do serviço operacional. Um terceiro episódio ocorreu na Vila Dionísia, na Zona Norte, no início de outubro. Antonio Nunes Batista, de 40 anos, morreu durante uma abordagem policial. Um vídeo feito por uma testemunha mostra um homem sendo atingido por uma arma de choque, caindo no chão e, em seguida, recebendo ao menos 24 disparos de policiais militares. Segundo a versão policial, Antonio estaria em aparente crise e ameaçava pedestres com uma faca e uma barra de ferro. As imagens divulgadas não mostram o que aconteceu antes do início da gravação. Os três policiais que efetuaram os disparos não usavam câmeras corporais, segundo as informações do caso. A Secretaria da Segurança Pública informou que eles foram afastados do serviço operacional e que as armas foram apreendidas. O DHPP e a PM abriram investigações. Também em outubro, um vídeo registrou um policial militar apontando uma espingarda para o celular de uma pessoa que filmava uma ação policial em frente a um bar na Rua Pasquale Gallupi, em Paraisópolis, na Zona Sul. O agente mandou a pessoa continuar filmando e atingiu o aparelho com o cano da arma antes de deixar o local. A Secretaria da Segurança Pública informou ter aberto um procedimento para identificar o policial e apurar as circunstâncias. A Secretaria da Segurança Pública (SSP) informa, em nota, que "atua com foco na preservação da vida e trabalha para reduzir a letalidade policial com aperfeiçoamento de protocolos operacionais, ampliação do uso de tecnologias e de equipamentos de menor potencial ofensivo". A pasta diz que a letalidade envolvendo as policiais estaduais caiu 5,1% entre 2024 e 2026 (períodos de janeiro a agosto), "com reduções consecutivas, frutos de ações preventivas, que envolvem investimento em tecnologia, treinamento, inteligência policial, planejamento e revisão de procedimentos operacionais". A secretaria afirma ainda que todas as ocorrências de mortes por intervenção policial (MDIPs) são rigorosamente investigadas, com acompanhamento das corregedorias das polícias, do Ministério Público e do Poder Judiciário.
O Globo