A morte do secretário municipal de Desenvolvimento Econômico de Queimados, Jefferson Dias da Silva, durante uma abordagem na Avenida Brasil, na altura da Penha, na Zona Norte do Rio, na noite de segunda-feira, reflete, segundo especialistas ouvidos pelo GLOBO, uma pressão social e política por respostas rápidas diante de situações consideradas suspeitas, como forma de dar uma resposta à criminalidade. No entanto, afirmam, o protocolo policial deve priorizar a preservação da vida. Vídeo mostra PMs atirando contra carro em que estava secretário de Queimados morto na Avenida Brasil: 'Largou o aço' Ruas define equipe de transição de governo com nomes que devem assumir secretarias do primeiro escalão e outras áreas; entenda — Não aceito mais essa história de despreparo. Temos várias frentes de treinamento em andamento dentro da PM. A atividade policial exige doutrina, repetição, controle, porque o profissional tem pouco tempo para tomar decisões que estão diretamente ligadas à própria vida dele e à vida de outras pessoas. Hoje, se compararmos com 30 anos atrás, há muito mais informação disponível. A pressão do dia a dia da atividade policial existe e precisa ser administrada, mas não pode ser a única explicação — avalia o coronel Luiz Henrique Pires, ex-secretário de Estado da Polícia Militar do Rio. Cinco agentes envolvidos na ocorrência foram afastados de suas funções por determinação do governador em exercício, Ricardo Couto. A Polícia Civil também determinou a apreensão das armas utilizadas pelos militares. De acordo com os policiais, Jefferson passou por dois pontos de bloqueio (o primeiro na altura da passarela 14, em Bonsucesso) antes de ser interceptado por duas viaturas na altura da Penha. Segundo os militares, após ser fechado por um dos carros da PM, o secretário perdeu o controle da direção e colidiu contra uma mureta de proteção. Os policiais disseram ainda que o motorista tentou dar marcha à ré para escapar da abordagem e que foram ouvidos disparos de arma de fogo nas proximidades do acesso à comunidade Nova Holanda.
Jefferson Dias da Silva, conhecido como Jefferson da Linave, foi morto na Avenida Brasil @jefferson.1975/Instagram — Se o policial, que representa o Estado, determina uma parada, o motorista deve obedecer para ser abordado. Quando alguém não atende a essa ordem, isso configura uma fundada suspeita. Outra questão é que, no dia a dia da atividade policial, os agentes estão habituados a serem recebidos a tiros durante operações. Isso faz com que, ao ouvirem disparos em determinadas situações, já entrem psicologicamente nesse cenário. Quando um policial atira, os outros também disparam porque entendem que está havendo uma troca de tiros — afirma o coronel Ubiratan Ângelo, consultor em segurança e ex-comandante-geral da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Novo vídeo mostra momento que carro em que estava secretário é atingido e roda na pista O coronel reforça, ainda, que é dever do policial perseguir um veículo quando há suspeita, mas ressalta que o uso da força letal só deve ocorrer diante de perigo atual ou iminente: — O policial pode e deve perseguir. Mas isso deve acontecer de forma a não trazer risco para ele, para o perseguido e para os terceiros que estão no entorno. O uso da força letal e o disparo de arma de fogo se justifica quando houver perigo atual ou iminente contra os policiais ou contra terceiros que estão no entorno daquela abordagem. Então, se houver a possibilidade de colocar em risco terceiros, é melhor que o criminoso fuja, principalmente se houver somente a suspeita sobre o crime, e não um flagrante. Três são presos: falso curso de sargentos do Exército era usado para comprar armas no Rio Ex-capitão do Bope e antropólogo, Paulo Storani diz que "policial não tem carta branca para atirar em ninguém, para matar ninguém, a não ser que esteja defendendo a sua própria integridade física dos seus colegas ou principalmente das pessoas inocentes". Mas, segundo ele, não se pode fechar os olhos para o o nível de estresse ao qual são submetidos os agentes no dia a dia.
— Parece que há uma expectativa de que eles (os policiais) tenham um comportamento muito acima de qualquer pessoa, qualquer ser humano que vive num determinado do ambiente. Não conseguem minimamente ter a empatia necessária para entender o nível de tensão que policiais vivem ao longo da sua carreira em qualquer parte do mundo. Em especial no Rio de Janeiro, essa situação ela é hiperdimensionada em razão da série de conflitos — defende Storani. 40% da arrecadação: operação da PF mostra que a internet é um grande negócio para o tráfico Na manhã desta terça-feira, o prefeito de Queimados, Glauco Kaizer, revelou que conversou com o governador em exercício do Rio, Ricardo Couto, que garantiu que haverá uma apuração rigorosa do caso. À tarde, o corpo de Jefferson Dias foi enterrado no Cemitério Municipal de Nova Iguaçu. Mais de cem pessoas acompanharam a cerimônia.
O Globo