O cantor Netinho, um dos nomes conhecidos da axé music, morreu nesta terça-feira, aos 60 anos, durante tratamento contra um linfoma não Hodgkin, diagnosticado em março de 2025. Intérprete de sucessos como “Milla”, “Beijo na boca”, “Menina” e “Fim de semana”, Ernesto de Souza Andrade Júnior também ganhou repercussão por declarações sobre sua sexualidade e por controvérsias envolvendo a comunidade LGBTQIAPN+ e a política.
Em 2008, o artista revelou ser bissexual em entrevista à revista Quem. Na ocasião, afirmou gostar de “meninos e meninas” e voltou a abordar o assunto publicamente em outras ocasiões.
Em 2020, durante uma transmissão ao vivo com o então deputado Eduardo Bolsonaro, Netinho afirmou que havia optado por se abster de relações sexuais quatro anos antes, depois de decidir controlar o que chamou de vício. Críticas à comunidade LGBT e polêmicas políticas
No mesmo ano, Netinho criticou a comunidade LGBTQIAPN+, dizendo que seus integrantes “só enxergam a vida pela lente do fiofó”. Também atacou o Carnaval de Salvador, ao afirmar que a festa “só é Sodoma e Gomorra”.
Em 2021, foi criticado pelo compositor Manno Góes, autor de “Milla”, por ter usado a música em uma manifestação de apoio ao então presidente Jair Bolsonaro. O cantor respondeu às críticas com um processo contra o músico, no qual alegou “condutas abusivas” e “declarações ofensivas”.
Filiado ao Partido Liberal (PL), Netinho disputou uma vaga de deputado federal nas eleições de 2022, mas não obteve votos suficientes para se eleger. Da Banda Beijo ao sucesso nacional: relembre a trajetória
Ernesto de Souza Andrade Júnior nasceu em 12 de julho de 1966, em Santo Antônio de Jesus, no interior da Bahia. Aos 14 anos, ganhou seu primeiro violão.
Depois de ingressar no curso de Engenharia Civil da Universidade Católica do Salvador, começou a tocar profissionalmente em bares da cidade. O interesse pelo Carnaval de Salvador surgiu em 1984, quando Netinho desfilou como folião no Bloco Beijo, que estava sob o comando de Luiz Caldas, pioneiro do axé, com a banda Acordes Verdes.
A carreira musical ganhou impulso em 1988, quando assumiu os vocais da Banda Beijo, um dos grupos que despontavam no Carnaval de Salvador. O primeiro disco da banda emplacou “Beijo na boca” nas rádios de todo o país e levou o cantor a se tornar o primeiro artista de axé a se apresentar no programa Domingão do Faustão.
Em 1990, durante a Copa do Mundo na Itália, Netinho protagonizou a primeira ida de um trio elétrico para o exterior. A estrutura viajou de navio e levou dois meses para chegar ao destino.
Além de dirigir os próprios shows, o cantor passou a empresariar blocos e trios no Carnaval baiano. Em 1992, tornou-se o primeiro artista a desfilar com um trio elétrico no Rio de Janeiro, na Avenida Atlântica, em Copacabana.
'Milla' virou seu maior sucesso Em 1993, Netinho lançou seu primeiro CD solo, “Um beijo pra você”, que trouxe “Menina”, regravação de uma música do violonista Paulinho Nogueira.
O maior sucesso veio em 1996, com o álbum “Netinho ao Vivo!”, gravado em Aracaju. A versão de “Milla”, originalmente lançada pela banda baiana Jheremmias Não Bate Córner, que deu origem ao Jammil e Uma Noites, alcançou grande repercussão e foi regravada em mais de oito idiomas, incluindo o russo.
No ano seguinte, o disco “Me leva” emplacou outro sucesso nacional, “Fim de semana”. Netinho continuou presente nos carnavais da Bahia e, em 2009, comemorou 20 anos de carreira com a gravação do DVD “Netinho e a Caixa Mágica”, em Aracaju, diante de cerca de 6 mil pessoas.
O trabalho teve participações de Saulo Fernandes, da Banda Eva, Alinne Rosa, do Cheiro de Amor, Tomate e D'Black, além de uma participação virtual de Jorge Vercillo. Problemas de saúde e tratamento contra o câncer
Os primeiros problemas graves de saúde do cantor vieram a público em 2013, quando médicos identificaram uma hemorragia no fígado. Netinho recebeu diagnóstico de adenomas hepáticos associados ao uso indiscriminado de esteroides anabolizantes, condição que foi seguida por uma série de derrames cerebrais e outras complicações clínicas.
O cantor afirmou que não sabia que as substâncias que tomava eram anabolizantes proibidos e disse acreditar que se tratava de suplementos para treino. Ele processou o médico que havia receitado os produtos, Mohamad Barakat.
O médico, por sua vez, acionou Netinho por falsa acusação, mas perdeu a ação. Depois da recuperação, o artista passou a usar as redes sociais e aparições na televisão para alertar o público, especialmente os jovens, sobre os riscos do uso de anabolizantes.
Em março de 2025, Netinho foi diagnosticado com linfoma não Hodgkin e ficou internado por 25 dias após sentir fortes dores nas pernas e nas costas. Depois de receber alta, chegou a retomar os shows, mas a doença voltou.
Em 2026, anunciou a recidiva do linfoma e reiniciou as sessões de quimioterapia.
O Globo