Moradores do Iêmen fogem para o sul por temor dos ataques houthis

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Fonte da notícia: Valor Valor

Depois que estilhaços de um ataque de drone atingiram o peito de sua mulher e a mataram, Muhammad Aiyash fugiu com os três filhos, sem levar nenhum pertence, para um novo acampamento improvisado para deslocados na cidade de Áden, no sul do Iêmen. Leia também: Houthis voltam a atacar Arábia Saudita, e negociações sobre Ormuz seguem travadas Em agosto, guerra tirou 1,6 milhão de barris/dia da produção de petróleo O pânico se espalhou depois que os houthis, apoiados pelo Irã, derrotaram as forças do governo apoiado pela Arábia Saudita em uma rápida ofensiva ao longo da costa do Mar Vermelho. O avanço permitiu que o grupo xiita tomasse mais uma parte do país e ampliasse seu controle sobre o Estreito de Bab el-Mandeb, uma das rotas marítimas mais importantes do mundo para o transporte de mercadorias e commodities, incluindo petróleo.

“Por Deus, não temos sequer um grão de farinha. Não temos colchões nem roupas”, disse Aiyash, que tem mais de 60 anos e deixou para trás sua casa na histórica cidade portuária de Mocha em uma busca desesperada por abrigo em meio à mais recente crise no Iêmen.

A agência da Organização das Nações Unidas (ONU) para refugiados, Acnur, afirmou nesta terça-feira que mais de 100 mil pessoas foram deslocadas internamente pelo novo conflito no Iêmen e que milhares de outras fugiram pelo mar para Djibuti.

Os houthis, combatentes oriundos das regiões montanhosas que muitas vezes usam sandálias e têm o hábito, comum no país, de mascar qat, uma folha verde estimulante, transformaram-se ao longo dos anos em uma força militar de dezenas de milhares de integrantes.

Nesta nova rodada de combates, eles ampliaram seu controle das regiões do norte do Iêmen, as mais populosas do país, para cidades, vilarejos e ilhas no oeste.

O grupo também abriu uma nova frente na guerra com o Irã, aumentando a pressão sobre os mercados globais de energia após o fechamento, na prática, do Estreito de Ormuz.

Os houthis atacaram alvos dentro da Arábia Saudita, que foi obrigada a fechar temporariamente o estratégico oleoduto Leste-Oeste, que servia como alternativa ao transporte marítimo pelo Estreito de Ormuz. Civis iemenitas comemoram na carroceria de uma caminhonete no distrito de Bani Matar, no Iêmen, em 12 de setembro de 2026, enquanto acompanham um comboio de prisioneiros houthis libertados em Mocha a caminho de Sanaa, após a tomada pelos houthis da cidade portuária no Mar Vermelho AP/STR ‘A guerra chegou de repente’ No acampamento de Áden, famílias permaneciam ao lado de barracas, cuidavam de ovelhas e tentavam montar abrigos improvisados. Crianças ficavam perto dos pais enquanto os adultos carregavam seus pertences.

Um dos deslocados, Tawfiq al-Kharij, mostrou um ferimento causado por estilhaços na perna enquanto estava sentado com parentes do lado de fora de uma barraca. Ele disse ter escapado apenas com a roupa do corpo.

“Estávamos vivendo em paz, sob os cuidados de Deus, e então a guerra chegou de repente”, disse Kharij. “Alguns morreram e outros sobreviveram.”

A Acnur afirmou nesta terça-feira que o acesso humanitário continuava sendo “um grande desafio”. “A insegurança, as estradas danificadas, as interrupções nas telecomunicações e as restrições à circulação estão afetando as operações”, afirmou a agência em comunicado.

Khadija Kudaf e seus filhos precisaram caminhar durante três dias para chegar a Áden, uma cidade portuária. “Nem sequer trouxemos as roupas das crianças”, disse.

Os iemenitas conhecem bem o sofrimento provocado pela guerra.

O país mais pobre do mundo árabe está mergulhado em conflitos desde que os houthis tomaram a capital, Sanaa, em 2014, levando a uma intervenção militar liderada pela Arábia Saudita no ano seguinte, em uma guerra civil que provocou uma das maiores crises humanitárias do mundo. Os houthis resistiram durante anos a intensos bombardeios da coalizão liderada pelos sauditas.

Uma trégua mediada pela ONU em 2022 interrompeu em grande medida os principais combates, apesar de ter expirado seis meses depois. Os esforços para transformá-la em um acordo político duradouro, porém, ficaram paralisados à medida que as tensões regionais se intensificaram.

Na província de Taiz, a noroeste de Áden, outro acampamento recém-montado começou a receber pessoas que fogem dos combates. Mulheres e crianças carregavam água em galões, enquanto outras pessoas lavavam roupas e se reuniam ao redor das barracas. Uma mulher lava roupas em um acampamento improvisado para pessoas deslocadas pelos confrontos entre combatentes houthis alinhados ao Irã e forças do governo iemenita apoiadas pela Arábia Saudita, na província de Taiz, no Iêmen, em 14 de setembro de 2026 REUTERS/Stringer

Uma mulher deslocada no local, Taghreed Salem, disse que as famílias enfrentavam dificuldades para conseguir suprimentos básicos.

“Chegamos fugindo da guerra, dos projéteis, dos mísseis, dos aviões que atacam”, disse Salem. “Chegamos como novos deslocados. Queremos água, queremos qualquer coisa que possam nos dar.”

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