Numa quinta-feira chuvosa, às 9h, uma audiência pública no Jardim Catarina, em São Gonçalo, amanheceu lotada de moradores. Dias antes, o jornal O Catarinão tinha publicado que a Ipuca, sub-região do bairro, podia perder R$ 152 milhões em obras do novo Programa de Aceleração do Crescimento (PA)C por falta de participação popular. Direitos: pesquisa revela que 51,7% dos moradores de favelas do Rio apontam obras de urbanização inacabadas Acesso ao mercado de trabalho: iniciativa que nasceu na Cidade de Deus lança aplicativo que simula entrevista de emprego com IA Impresso, gratuito e mensal, O Catarinão nasceu em outubro de 2024, depois de uma formação do Uniperiferias, instituição da Maré que apoiou coletivos a criar veículos de informação nas próprias favelas. A fundadora do periódico é a jornalista Samara Oliveira. Ela chamou para tocar o projeto ela chamou a cientista ambiental Marcyllene Maria e a designer Jéssica Ottone. São quatro mil exemplares por edição distribuídos nas ruas por dois dias. Outras oito pessoas colaboram. — A informação é a nossa ferramenta para que a política pública chegue. Um lugar que não produz informação sobre si está fadado a não ser visto — afirma. Aula de comunicação comunitária do jornal O Catarinão Divulgação/O Catarinão Uma das missões é resgatar a memória de um território que, apesar de ser o bairro mais populoso de São Gonçalo, sabia pouco sobre si. O jornal foi o primeiro a cravar a data de nascimento do Jardim Catarina — 23 de abril de 1953 —, a partir da planta de compra e venda encontrada pelo pesquisador Pitter Mendes, que estuda a região há quase 20 anos. — Uma pessoa que não sabe o próprio nome, a data de nascimento e de onde veio: ela não existe aos olhos do Estado. Acontece o mesmo com um território — compara a jornalista. Samara diz que recusa a lógica das páginas que viralizam expondo moradores em situação de vulnerabilidade. O Catarinão se mantém com o edital Periferia Viva, ganho no ano passado, e com apenas um anunciante. — Tem um imaginário de que jornalismo comunitário é amador. Ele é também um jornalismo profissional. E se, para isso, precisam enxergar um diploma, aqui estou — diz. Vídeos sobre a região bombam na web Nas redes sociais, O Catarinão testa novos formatos toda semana. O primeiro vídeo, feito para apresentar o Jardim Catarina a quem só conhece o bairro pela página policial, passou de 30 mil visualizações. Depois veio a primeira videorreportagem, um minuto e meio sobre as mudanças no trânsito na entrada do bairro. Dessa vez, o conteúdo foi visto por mais de cem mil pessoas. — A viralização não é o nosso indicador. Mas percebi qual é o formato que o público do Jardim Catarina consome — diz ela. Parte do conteúdo nasce direto para a rede, como um vídeo em tom de humor gravado para explicar por que o jornal tem uma página com os nomes das ruas. O Instagram (@o_catarinao) virou também canal de denúncia: o jornal tem usado o perfil para expor lixões e descarte irregular de resíduos no bairro. — Como é um trabalho voluntário, depende da disponibilidade de tempo. A gente faz o que é possível — explica Samara.
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Moradora de São Gonçalo cria jornal para cobrar do poder público os direitos de favelas da região
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