Bloco de tufo vulcânico achado em Morkůvky veio do norte da Hungria, fundiu lanças em série e hoje está no acervo do Museu da Morávia, em Brno Em 2007, o morador J.
Tomanec mexia na terra do quintal de casa em Morkůvky, vila do distrito de Břeclav, no sul da Morávia, na República Tcheca, quando viu um canto de pedra retangular saindo do chão. A peça tinha sido usada antes como parte da fundação de pedra de um velho celeiro no fundo do terreno.
Parecia só mais um bloco de obra. Anos depois, arqueólogos confirmaram que se tratava de um molde da Idade do Bronze, usado há mais de 3 mil anos para fundir pontas de lança.
O estudo completo saiu na revista científica Archeologické rozhledy, no volume de 2025, e foi divulgado pela Universidade Masaryk em fevereiro de 2026. Segundo o artigo científico, assinado por Milan Salaš, Antonín Přichystal, Jan Petřík e outros três pesquisadores, a peça foi entregue ao Museu da Morávia, em Brno, em 2019, para análise especializada.
Em novembro de 2024, entrou oficialmente no acervo arqueológico da instituição. Os autores avaliam que o bloco não estava no lugar original.
Ele teria sido retirado em época moderna de um sítio da chamada cultura dos Campos de Urnas, que existe nas redondezas da vila, e reaproveitado como pedra de construção. Ao Rádio Praga Internacional, Salaš resumiu o achado: “É um molde de fundição, tecnicamente chamado de matriz, para uma ponta de lança de bronze”.
A peça é uma das duas metades de um molde. As duas partes ficavam de pé, presas com fio de cobre, e os fundidores despejavam bronze de estanho derretido pela abertura.
Depois de esfriar, a ponta de lança saía pronta, e o molde podia ser usado de novo. Segundo o estudo, o negativo gravado na pedra mostra uma ponta de lança com lâmina em forma de pera e nervuras ao longo das abas e do encaixe da haste.
A análise química por fluorescência e difração de raios X encontrou resíduos de cobre e estanho, os dois metais do bronze. O bloco tem 22,7 centímetros de comprimento e pesa 1.093 gramas, de acordo com os pesquisadores.
Rachaduras de calor e trechos da rocha transformados em escória vítrea indicam uso repetido e intenso, o que aponta para produção em série. O tipo de lança é raro na Morávia e comum na bacia dos Cárpatos, onde costuma ser datado do fim da Idade do Bronze, entre cerca de 1300 e 1020 antes de Cristo, segundo o artigo.
Isso dá à peça algo entre 3 mil e 3,3 mil anos. A análise petrográfica, feita por Přichystal, identificou a rocha como tufo riolítico, material vulcânico que só aparece em quantidade suficiente no norte da Hungria.
“O objeto foi definitivamente trazido para cá”, disse o geólogo ao Rádio Praga Internacional. Ao jornal tcheco Novinky, Petřík estimou a distância da fonte da rocha em mais de 350 quilômetros e levantou duas hipóteses: o molde pode ter chegado à Morávia como espólio de guerra ou ter sido vendido como mercadoria.
Em texto publicado pela Universidade Masaryk, Petřík afirma que, apesar de pequenos danos, a peça é uma das metades de molde desse tipo mais bem preservadas da República Tcheca. A raridade tem explicação.
Moldes de barro eram usados uma vez só e se perdiam, enquanto os de pedra eram mais duráveis, mas costumam aparecer quebrados. Na Morávia, segundo o estudo, nem existe ainda um catálogo completo dos moldes da Idade do Bronze já encontrados.
O caso se soma a outras descobertas recentes do período, como a espada de mais de 3 mil anos achada no fundo de um lago italiano e a pesquisa sobre o cereal que chegou cedo à Polônia. Hoje o molde de Morkůvky está guardado no Instituto de Arqueologia do Museu da Morávia, em Brno, com número de inventário próprio.
Para os autores, a peça é prova concreta de comércio ou contato de longa distância entre a Morávia e a região dos Cárpatos há três milênios.
O Antogonista