Morador da Maré, Douglas Lopes usa fotografia para transformar o cotidiano despercebido da favela em arte

Morador da Maré, Douglas Lopes usa fotografia para transformar o cotidiano despercebido da favela em arte - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Sempre vivendo a realidade do Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio, Douglas Lopes aprendeu a calibrar o olhar para encontrar beleza onde estamos acostumados a não enxergá-la. Seja em garrafas coloridas empilhadas numa estante, seja no voo sincronizado de pombos que se agrupam em torno de um amontoado de lixo, o fotógrafo carioca de 35 anos capta o cotidiano da favela a partir de instantes que se revelam em cores chamativas ou no preto e branco.

Na exposição “Entre a favela, o inferno e o céu”, em cartaz na Fábrica Bhering, no Santo Cristo, na Zona Portuária da capital fluminense, Douglas apresenta essas imagens pela primeira vez fora da Maré. Antes, ele havia feito mostras individuais em espaços culturais do próprio complexo.

— A realização em outro local não muda a exposição em si. Mas aqui (na Fábrica Bhering), ouço a percepção de outras pessoas que não tinham acesso às obras antes.

De repente, vejo que muitas das nossas realidades se encontram — afirma o artista. Douglas Lopes

Divulgação Fotografando desde criança, quando pegava a câmera analógica da mãe para fazer registros (“Ela revelava as fotos e depois falava: ‘Não, mas você usou o filme para fazer isso’”), Douglas passou a trabalhar como office boy e estudava à noite em cursos na própria região onde vivia, como na Escola de Cinema Olhares da Maré, no Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré e no Observatório de Favelas (depois, ele ainda se especializou num curso técnico voltado para filmagem cinematográfica na UFRJ).

E começou a trabalhar profissionalmente com fotografia em 2014. Nos últimos anos, Douglas colaborou em produções como o documentário “Marielle” (2020), dirigido por Caio Cavechini e Eliane Scardovelli para o Globoplay, no qual assina a direção de fotografia.

A obra retrata a trajetória da vereadora carioca — que ele conhecia de perto — assassinada em 2018. Em 2023, foi indicado ao prêmio Mast Photography Grant on Industry and Work, na Itália.

'Dois de janeiro', de Douglas Lopes Divulgação

Com a câmera na mão desde cedo, a relação com o equipamento se aprofundou de um jeito natural de forma que uma simples reunião em família, ele diz, pode ser combustível para uma criação artística: — Quando acordo e dou bom dia para a minha vizinha ou quando a gente faz um churrasco na laje, está ali, de uma forma ou de outra, também se conectando com as outras lajes que estão ao redor e com as outras pessoas que moram por perto.

Tudo isso faz parte dessa criação, que às vezes é muito natural — observa. — Às vezes, nem percebo que estou criando alguma coisa.

Só vou entender depois que aquilo foi uma parte crucial para a criação de determinado trabalho. Curador da exposição na Bhering, Vinicius Mesquita afirma que Douglas tem um “olhar muito atento para o cotidiano”, característica que faz com que suas obras estejam repletas de cenas da “realidade” que muitas vezes passam despercebidas.

— Quando a gente olha para a cidade e para o urbano, sempre tem muito ruído. A cidade é muito ruidosa, tem muita coisa, e eu consigo ver que o Douglas não só olha, ele enxerga a cidade.

Ele consegue captar momentos da cidade em que as pessoas não estão olhando para aquilo que está acontecendo. É uma relação de instantes em que ele consegue, em segundos, captar a essência daquilo e documentar — diz o curador.

— Consegue extrair beleza, criar simetrias, uniformidades em projetos que transformam em uma obra de arte algo que as pessoas veem, mas não enxergam. Fotografia que compõe a instalação 'Círculo de fogo' (2026), de Douglas Lopes

Douglas Lopes Vinicius diz ainda que, muitas vezes, é como se “a própria foto acontecesse para Douglas”, sem pretensão.

Dessa forma, surgem fotografias como a panorâmica em que um arco-íris aparece sobre as lajes da Maré, abraçando a comunidade, ou uma em que um garoto surge sozinho na proa de uma canoa em meio à Baía de Guanabara, rodeado por outras embarcações vazias. Quando parece estar em um lugar um tanto mais controlado, Douglas registra o movimento dos alunos do Núcleo de Formação em Dança do Centro de Artes da Maré — são 13 fotografias que foram impressas sobre tecido para a instalação “Círculo de Fogo” (2026).

Mas o artista realiza uma sobreposição de imagens que confere movimentos mágicos aos bailarinos, que por diversas vezes aparecem em grupo. — Não há outro método de vida que não a coletividade.

Isso é o que a favela nos ensina desde que nascemos — reflete ele ao traçar um paralelo entre o trabalho dos bailarinos e a vida na Maré. — Mostro às pessoas que existe um mundo de possibilidades na favela: a gente tem trabalho, tecnologia, preservação da vida e da nossa memória

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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