Modelo socioeconômico do Sul do Brasil inspira alternativa para o Amazonas

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Fonte da notícia: D24am D24am

Nova Petrópolis – A união de comunidades, empreendedores e pequenos produtores em torno de objetivos comuns pode transformar a economia de uma cidade. No Sul do Brasil, o cooperativismo é utilizado para ampliar o acesso ao crédito, fortalecer negócios, valorizar produtos regionais e estimular o turismo. Para o Amazonas, onde a produção rural, o extrativismo e a diversidade cultural convivem com desafios de transporte e comercialização, o modelo representa uma alternativa para gerar renda e ampliar oportunidades no interior. (Foto: Simone Lima / GDC) Durante três dias de imersão no cooperativismo promovida pelo Sicredi, em Nova Petrópolis, no Rio Grande do Sul, durante o ’11º Encontro Nacional com Jornalistas e Formadores de Opinião do Sicredi’, a experiência de municípios da região mostrou como a organização coletiva pode conectar produtores, empresas, instituições financeiras e poder público. A proposta consiste em criar condições para que elas produzam, negociem e cresçam juntas, compartilhando responsabilidades e resultados. Um estudo do Sistema OCB, em parceria com a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), identificou que municípios brasileiros com cooperativas apresentavam, em média, R$ 5,1 mil a mais no Produto Interno Bruto (PIB) por habitante, além de diferenças positivas no número de empregos formais e estabelecimentos econômicos. Os resultados apontam uma associação entre a presença do cooperativismo e o dinamismo econômico local, embora não signifiquem que a criação de uma cooperativa, isoladamente, garanta esses resultados em qualquer cidade. Como o cooperativismo movimenta a economia Uma cooperativa permite que pessoas com interesses comuns se organizem para alcançar objetivos que seriam mais difíceis individualmente. Agricultores podem reunir a produção para negociar melhores condições de venda, empreendedores podem compartilhar estratégias de divulgação, trabalhadores podem organizar serviços, e moradores podem estruturar iniciativas para atender necessidades da própria comunidade. O Armazém Wazlawick é um restaurante histórico comandado por Rafael Wazlawick, representante da sexta geração da família fundadora. Fica localizado na Serra Gaúcha. (Foto: Simone Lima / GDC) No cooperativismo de crédito, os associados também participam de uma instituição financeira da qual são donos. O acesso a serviços financeiros pode ajudar a financiar atividades produtivas e apoiar pequenos negócios. Dependendo das regras de cada cooperativa, os resultados positivos do exercício, chamados de sobras, podem ser destinados aos cooperados ou às reservas da organização, conforme decisão e legislação aplicável. O empresário Rafael Wazlawick, proprietário do Armazém Wazlawick e representante da sexta geração da família fundadora do empreedimento na Serra Gaúcha, é parceiro Sicredi e destaca que essa relação no cooperativismo é baseado na confiança e no apoio ao desenvolvimento dos negócios, incluindo iniciativas para divulgar produtos e serviços regionais.

“Essa parceria, essa troca que eu tenho, quebra um mil e um galhos pra mim. Falando mais, é uma mistura de negócios dentro da economia. Financiamento, ajudas financeiras, graças a Deus eu ainda não precisei, né? Mas já foi, obviamente, posto à disposição em caso de necessidade. Até pelo bom relacionamento que a gente tem”, pontuou.

Rafael Wazlawick, empresário. (Foto: Simone Lima / GDC)

Rafael pontua que o cooperativismo fortalece a economia local ao estimular a compra de produtos de fornecedores da própria região, fazendo com que os recursos circulem entre os empreendedores e produtores locais, contribuindo para a geração de renda e para a melhoria das condições de vida da comunidade. “Compro laranja, compro manteiga, enfim, compro coisas de pessoas locais, eu consigo fazer com que essas pessoas tenham uma vida melhor. Então, eu acho que faz toda a diferença”, esclarece. Pães artesanais, compotas e queijos são uma das pricipais produções locais utilizadas pelo restaurante. (Foto: Simone Lima / GDC) Na prática, quando um produtor vende mais, pode contratar trabalhadores, comprar insumos e investir na propriedade. Quando um empreendimento amplia o atendimento, pode precisar de fornecedores, transporte, alimentação e serviços locais. Essa circulação de recursos ajuda a movimentar o comércio e a gerar oportunidades. Em estudo específico sobre cooperativas de crédito, o Sistema OCB e a Fipe também identificaram diferenças positivas nos indicadores de renda, emprego e empreendedorismo dos municípios analisados. O Banco Central, por sua vez, informou que 58% dos municípios brasileiros contavam com pelo menos uma unidade de atendimento de cooperativa de crédito ao final de 2024, sinalizando a presença do segmento em diferentes realidades locais. Gustavo Freitas, diretor-executivo de Crédito e Segmentos do Sicredi durante apresentação no 11º Encontro Nacional com Jornalistas e Formadores de Opinião do Sicredi, em Porto Alegre (RS). (Foto: Simone Lima / GDC) Para Gustavo Freitas, diretor-executivo de Crédito e Segmentos do Sicredi, as regiões não evoluem de uma hora para a outra, mas sim a partir do investimento na cultura e educação. O diretor citou que o desenvolvimento do cooperativismo na região sul do país foi um investimento feito há centenas de anos, a partir da imigração alemã e italiana, com destaque para a Suíça, de onde veio o padre Teodoro Amstad em 1885, fundador da Linha Imperial, em Nova Petrópolis, primeira cooperativa de crédito do Brasil e da América do Sul, que deu origem a Sicredi Pioneira. “Em ciclos diferentes de imigração, pessoas vieram para cá saindo de guerra e conflitos, recebendo estímulos para estarem aqui, trouxeram consigo da Alemanha, da Suíça, da Itália, de outras regiões, essa tradição, digamos, do cooperativismo. Então, o padre, por exemplo, Teodoro, é um padre de origem suíça, e a tradição era tão simples quanto como que em comunidade você se une para conseguir enfrentar desafios. E aí isso é o que faz com que essas regiões, como o Paraná e o Grande do Sul, tenham uma tradição mais consolidada ou fortificada”, disse Gustavo. Gustavo Freitas, diretor-executivo de Crédito e Segmentos do Sicredi. (Foto: Simone Lima/ GDC) O diretor também chamou a atenção para o posicionamento da região Norte do país frente ao Nordeste, e que o desafio é ampliar a cultura do cooperativismo e impactos econômicos das cooperativas, como geração de empregos, renda e crescimento dos municípios. “Tem uma observação que eu sempre faço, que a região norte está à frente da Nordeste. E, existe migração de gerações entre estados que levam consigo a tradição do cooperativismo. Quanto mais gente trabalhando em conjunto nessas regiões pra fomentar essa cultura, mais força a gente vai ter de desenvolvimento e mais a gente vai usufruir nas diferentes regiões dos efeitos que a gente mostrou aqui dos benefícios econômicos do cooperativismo”, finalizou. Cooperativismo na prática No Rio Grande do Sul, uma das experiências apresentadas durante o encontro relaciona cooperativismo, turismo e valorização da produção regional. A Sicredi Pioneira desenvolve, em parceria com o Sebrae, um projeto de indicação geográfica para produtos como o queijo colonial da Serra Gaúcha, o mel de Nova Petrópolis, a lavanda de Morro Reuter e a chimia colonial de Presidente Lucena. (Foto: Simone Lima / GDC) A indicação geográfica identifica produtos associados a um território e a características ou reputação ligadas à sua origem, conforme os requisitos de registro. O reconhecimento pode ajudar a diferenciar esses produtos no mercado e fortalecer a identidade econômica e cultural da região. “Valorizar o nosso saber fazer, o nosso jeito de fazer”, explicou Paola Benvenuto, assessora de turismo da Sicredi Pioneira, ao apresentar a iniciativa durante o encontro. A estratégia também envolve a conexão entre pequenos produtores, estabelecimentos comerciais, agentes de viagem e operadores de turismo. A ideia é fazer com que a visita a uma localidade beneficie não apenas uma atração ou um empreendimento, mas uma rede de negócios que inclui alimentação, hospedagem, produção artesanal e comércio. Fernando Grins, produtor de mel em Nova Petrópolis, é associado do Sistema de Crédito Cooperativo desde 1991 e explica que o difrencial está na colaboração. “Aqui, como nós somos capital do cooperativismo, então tudo nos leva mais para esse lado, da cooperação, da unir forças. Então, isso hoje fez um grande diferencial para mim, tanto quanto a ajuda do Sicred, quanto as ajudas por conta própria. Na preparação do envase, se cada associado tivesse uma casa de mel própria seria um custo bastante alto e nós temos uma única estrutura que beneficia a todos, fornecendo o serviço, a embalagem e a rotulagem”, disse o produtor. O mel Rainha da Serra possui o Selo de Inspeção Municipal (SIM), o Selo Arte e o selo SISB. A produção é toda própria, em base feito pela associação e comercialização própria. (Foto: Simone Lima / GDC) No Amazonas, em lógica semelhante, adaptada às características de cada território, produtos como açaí, guaraná, cupuaçu, cacau, farinha, pescado e outros itens da sociobiodiversidade podem ganhar força comercial quando produtores conseguem organizar a oferta, padronizar a qualidade, melhorar o beneficiamento e acessar mercados de maneira conjunta. Além disso, o turismo também pode integrar essa estratégia. Comunidades com potencial para experiências culturais, gastronômicas e de natureza podem trabalhar em rede para estruturar roteiros, qualificar serviços e valorizar produtos locais. Isso exige planejamento, participação comunitária e respeito aos modos de vida e às decisões de cada população amazônica. Educação aliada à expansão A formação de uma cooperativa, talvez não seja, por sí só, uma solução aos obstáculos enfrentados pelos produtores no Amazonas. Isso porque, a dependência do transporte fluvial em muitas rotas, os custos logísticos, as limitações de armazenamento e a dificuldade de acesso a determinados mercados podem comprometer a rentabilidade de pequenos negócios no estado. Para que o modelo funcione, é necessário definir objetivos comuns, estabelecer regras transparentes, capacitar os cooperados e construir uma gestão profissional. Também é importante identificar quem comprará os produtos, como será feita a distribuição e quais investimentos serão necessários para garantir regularidade e qualidade. A educação cooperativista é outro ponto central. Thiago Schmidt, representante do Sicredi Pioneira, defende que a expansão do modelo depende tanto da experiência prática das pessoas quanto da formação de novas gerações. “Quanto mais cedo os jovens tiverem acesso à história do cooperativismo, à doutrina cooperativista, aos princípios do cooperativismo, ao ciclo virtuoso do cooperativismo e aos impactos positivos que o cooperativismo gera nas regiões em que ele está inserido, mais as pessoas, independente da fase de vida que se encontram, vão perceber esses valores do cooperativismo e começar a praticar com mais intensidade na sua vida. E assim, a gente vai, não sei, em cinco, dez, quinze ou vinte anos, transformando a realidade das comunidades e tendo uma vida cada vez mais cooperativa”, afirmou. Thiago Schmidt, representante da Sicredi Pioneira. (Foto: Divulgação / Sicredi) A formação ajuda a esclarecer que uma cooperativa não é apenas um grupo de pessoas reunidas para vender ou comprar em conjunto. Trata-se de uma organização com participação democrática, responsabilidades compartilhadas e decisões que precisam considerar os interesses dos associados e a sustentabilidade do negócio. Cooperativismo no Amazonas Dados divulgados pelo Sistema OCB/AM, com base no Anuário do Cooperativismo Brasileiro, apontam que o Amazonas chegou a 74.379 cooperados em 2025, ante 15.570 em 2024. O levantamento também registrou R$ 854,47 milhões em ativos totais das cooperativas amazonenses naquele ano. (Foto: Divulgação / OCB-AM) Os números indicam expansão, embora seja necessário considerar a metodologia e a abrangência do levantamento para avaliar como esse crescimento se distribui entre os municípios e os diferentes ramos do cooperativismo. Há também instrumentos públicos que podem contribuir para o desenvolvimento do setor. A Lei estadual nº 7.722, de 17 de julho de 2025, estabeleceu diretrizes para o incentivo e o desenvolvimento do cooperativismo no Amazonas. Na área da agricultura familiar, o Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado (Idam) oferece apoio à organização de produtores e à comercialização por meio de mercados institucionais, como programas de aquisição de alimentos e de alimentação escolar. Essas iniciativas ajudam a aproximar produtores de compradores, mas o fortalecimento do sistema depende da articulação entre cooperativas, instituições de apoio, prefeituras, governo estadual, setor privado e comunidades. Desenvolvimento que começa na comunidade A presidente da Casa Cooperativa que fica em Nova Petrópolis, berço do cooperativismo e região onde o Teodoro Amstad deu o pontapé no Modelo socioeconômico, Eloísa Helena Lopes, destacou que uma cooperativa nasce da união de pessoas em torno de um propósito e pode contribuir para o desenvolvimento econômico e social da comunidade. A lógica é fazer com que os resultados do empreendimento sejam compartilhados entre aqueles que participam de sua construção. “A gente precisa conhecer o que é uma cooperativa, que é a união de pessoas ao redor de um propósito. Ou seja, as pessoas se unem para desenvolver econômica e socialmente as suas comunidades. Quando existe uma cooperativa, a comunidade se transforma. Não é apenas uma pessoa ganhar, mas é evitar que outros lucrem sobre nós. E é esse o conceito de cooperativa tão importante pro nosso desenvolvimento”, explicou a Eloísa Helena Lopes. Eloísa Helena Lopes, presidente da Casa Cooperativa que fica em Nova Petrópolis (RS). (Foto: Simone Lima / GDC) Para o Amazonas, a oportunidade está em transformar potencial produtivo em negócios sustentáveis, capazes de gerar renda e ampliar a autonomia das comunidades. Isso significa apoiar quem produz, melhorar as condições de comercialização, agregar valor aos produtos regionais e criar conexões entre diferentes atividades econômicas. O desafio é adaptar esses princípios à realidade de um território marcado pela floresta, pelos rios, pelas distâncias e pela diversidade de suas comunidades. Eloísa deixou um reflexão sobre sobre o papel de cada indivíduo no desenvolvimento de sua comunidade, reforçando que quando todos cooperam, todos ganham. “Quando a gente fala de cooperativismo a gente tem que falar de um conceito de cooperar de estar juntos e as pessoas unidas se organizam numa cooperativa cooperativa é um trabalho coletivo em prol de um bem comum e você qual é que o seu papel que você está fazendo quando a gente faz parte de uma cooperativa de uma associação de uma comunidade organizada todos nós juntos fortalecemos essa comunidade e todos nós ganhamos e você o que você está fazendo na sua comunidade bora lá cooperar” O ’11º Encontro Nacional com Jornalistas e Formadores de Opinião do Sicredi’ aconteceu de 14 a 16 de outubro no Rio Grande do Sul e reuniu jornalistas de várias regiões do país em uma imersão sobre o cooperatisvismo. (Foto: Simone Lima / GDC) A programação teve início em Porto Alegre, no Centro Administrativo Sicredi (CAS), onde foi realizada a abertura oficial com as boas-vindas no Pátio Raiffeisen. Ainda na quarta-feira, os participantes seguiram para Nova Petrópolis, onde conheceram cases de sucesso e um pouco da história do modelo socieconômico. O encontro encerrou na cidade de Gramado, no 18º Festival de Cultura e Gastronomia de Gramado.   *Jornalista viajou a convite do Sicredi. O post Modelo socioeconômico do Sul do Brasil inspira alternativa para o Amazonas apareceu primeiro em D24AM.

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