SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Lula (PT) nunca criou o Ministério do Namoro. A pasta fictícia nasceu de um meme na campanha de 2022, mas o petista entrou na brincadeira e, já presidente, chegou a pedir desculpas por não ter cumprido a promessa.
Coube à militância colocar a ideia em prática e distribuir os solteiros interessados em grupos, por DDD. “A brincadeira só fica legal com mais soldades de Lulinha”, escreveu a página, que à tarde já sugeria um tema para engajar: se Flávio Bolsonaro (PL) tinha ou não fugido do país – após o pleito, o senador deixou o Brasil com a mulher e as filhas em um jato privado.
O sistema funciona em duas etapas. No canal, só os administradores publicam, e os seguidores apenas recebem os avisos e os convites.
A paquera acontece nos grupos, separados por DDD, onde todos podem conversar e onde cabem até 1.024 pessoas por vez. Os primeiros grupos foram criados na noite de terça, para Rio de Janeiro, São Paulo e Distrito Federal.
Vieram em seguida Salvador, Belo Horizonte e Porto Alegre. Antes das 20h, já estavam lotados.
“Estamos contratando moderadores. Vamos contar com a paciência de vocês”, avisou o “ministério”.
Entrar, porém, ainda não significava conversar. “Tropa! Entrem nos grupos e aguardem!”, orientou o canal.
Os grupos só seriam abertos para mensagens às 10h do dia seguinte. “Descansem, soldadinhes do amor.
Beijos revolucionários.” Na quarta (28), Recife, Curitiba, Belém, Fortaleza, Campinas e Ribeirão Preto ganharam grupos, com a mesma convocação: “Entre antes que ele lote”.
Nos já abertos, começaram as apresentações. A Folha acompanhou a movimentação no de Curitiba.
Muitas mensagens seguem uma ficha padronizada, com emojis: nome, idade, orientação sexual, pronomes, o que busca, se o privado está “aberto” e o perfil no Instagram. Na noite de quarta, uma mulher de 34 anos se dizia fã de café e vinho e avisava que dificilmente daria conta de acompanhar o grupo: “Se tiver interesse pode chamar no privado”.
Já um morador de Londrina contou ter dois empregos e cursar duas faculdades, o que chamou de “o terror dos que bebem detergente” provocação a bolsonaristas que, em maio, saíram em defesa da Ypê depois que a Anvisa suspendeu a fabricação e o uso de lotes da marca. No grupo, um autodeclarado paulistano de 47 anos já se antecipava a eventuais críticas: “votei no Aécio pro governo de MG – não me julguem”.
Na ficha, que incluía campos para drogas e álcool, respondeu que não curte surubas. Outro quis saber se os colegas já se organizavam em algum partido político.
E um terceiro resumiu as expectativas: “Se não desencalhar aqui, pode fechar o porto que o navio não vem mais”. Segundo o canal, ao menos três grupos serão abertos por dia.
A ordem de lançamento ficou a cargo dos seguidores, convidados a votar no DDD da sua cidade nos comentários da página do Instagram namoro.gov.br, que originou o canal. Em menos de quatro horas, o canal tinha 5.000 “soldades do flerte”.
Na manhã seguinte, saudava a “tropa mais tesuda e gostosa da esquerda”, próxima aos 30 mil. Horas depois: “Atingimos 40k de delícias revolucionárias.
O amor voltou! O tesão voltou!”. Neste domingo (1), ultrapassava 58 mil seguidores e já havia ao menos 15 grupos formados para as trocas de mensagens.
O vocabulário não é casual. Cada mensagem do canal reproduz o manual do deputado André Janones (Rede-MG), que transformou o canal “Exército do Lula” no quartel-general digital da campanha petista no segundo turno.
O “urgente” acompanha Janones desde 2018, quando se elegeu na esteira de vídeos para caminhoneiros em greve. O “explode”, que viralizou nas madrugadas desta eleição, “surgiu pronto” em sua cabeça, segundo disse à Folha.
A “missão” era o formato das tarefas que distribuía aos apoiadores, como coordenar postagens e impulsionar buscas contra o adversário. Funcionou.
Criado em abril, o “Exército do Lula” tinha cerca de 50 mil membros até o primeiro turno e passou de 10,8 milhões na véspera da eleição, segundo o deputado. Lula, que havia terminado a primeira rodada atrás de Flávio, virou a disputa e foi reeleito no domingo (25).
Mesmo a mecânica foi copiada. No “Exército do Lula”, as missões tinham prazo; no Ministério do Namoro, a urgência vem da escassez: “São apenas 1.024 vagas.
Explode esse convite para os seus amigos”. A piada, no entanto, é anterior.
O perfil do Instagram, que se apresenta como extraoficial e tem 75 mil seguidores, existe desde 2023. A primeira publicação, com um vídeo de Lula, avisava: “O Ministério do Namoro está sendo montado.
Aguardem!”. Nos meses seguintes, o perfil cobrou a pasta nos cem dias de governo, lançou o fictício programa Meu Crush Minha Vida para o Dia dos Namorados e criou o “Lula da Sorte”, duende que traria um amor em menos de três meses a quem o compartilhasse.
Com a campanha de 2026, o humor encontrou um galã. Depois que um manifestante mascarado e sem camisa viralizou no ato pró-Lula na avenida Paulista, em 11 de outubro, e foi apelidado nas redes de “a picanha que o Lula prometeu”, o perfil anunciou ter acesso à “ficha amorosa” do “Petista Misterioso”.
Na mesma publicação, informou que o presidente procurava para chefiar a pasta alguém de perfil celibatário, para evitar conflito de interesses. E prometeu: “Vai ter Ministério do Namoro no Lula 4”.
Passada a eleição, a tropa ganhou outra frente de batalha, e a conquista de território continua.
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