Milhares de fiéis lotam igreja de São Jorge em Quitino desde a madrugada
Desde os primeiros minutos do dia, a Rua Clarimundo de Melo, em Quintino, na Zona Norte do Rio, já era tomada por um mar vermelho de fé. Antes mesmo da meia-noite, devotos começaram a chegar à Igreja Matriz de São Jorge, muitos carregando folhas de espada de São Jorge, velas e terços — símbolos de proteção e resistência associados ao santo guerreiro. Muitos caminhavam em silêncio, outros entoavam orações. Alguns choravam.
Era o início de uma das celebrações mais emblemáticas do calendário religioso carioca — e, neste ano, com um roteiro ampliado que atravessou a madrugada e misturou tradição e inovação. Antes da primeira missa do dia, às 5h, houve um show com drones, que reproduziu uma série de imagens religiosas,inclusive do santo matando um dragão.
— Foi um verdadeiro espetáculo. Digno do tamanho da festa. Um show de drones como esse geralmente acontece apenas na praia de Copacabana. Achei incrível que trouxeram essa modernidade para a festa do santo guerreiro — disse Lurdes de Fátima, moradora do Complexo da Caixa D’Água, emocionada ao olhar as imagens projetadas com o céu ainda escuro.
Ao todo, mais de 300 drones iluminaram a madrugada. O público reagiu com aplausos, gritos e lágrimas. Em meio à multidão, celulares erguidos tentavam capturar o momento.
A apresentação, com cerca de 20 minutos de duração, antecedeu a tradicional Missa da Alvorada, celebrada às 5h, e marcou a principal novidade da festa em 2026: uma programação contínua ao longo de toda a madrugada.
Para manter o público reunido até o amanhecer, a igreja organizou uma sequência de atividades que começou à meia-noite, com louvores conduzidos pelo padre José Bispo, seguidos de samba devocional com o Grupo Pretensão, oração do Santo Terço, apresentações da Banda dos Fuzileiros Navais e momentos de adoração.
Entre uma atração e outra, histórias pessoais se misturavam à celebração coletiva. Jorge Luiz Neto, de 38 anos, chegou ainda de madrugada acompanhado da mulher, da mãe e da filha pequena. Para ele, estar ali era mais do que uma tradição — era um ciclo de vida.
— Eu fui batizado aqui. Depois, batizei minha filha em homenagem a São Jorge. Toda a minha família é devota. Hoje, a gente veio agradecer pela proteção de todos os dias. É impossível não se emocionar — contou.
Perto da entrada da igreja, dona Maria das Graças, aposentada de 72 anos, segurava firme um terço já gasto pelo tempo. Moradora de Madureira, ela repete o ritual há mais de quatro décadas.
— Já passei por muita coisa na vida. E sempre pedi a São Jorge força pra continuar. Enquanto eu tiver saúde, vou estar aqui — disse, com a voz embargada.
Dentro da igreja, a cena era de devoção intensa. Bancos lotados, corredores ocupados, fiéis ajoelhados no chão. Muitos rezavam em silêncio, outros cantavam.
Ao longo do dia, a programação segue com dez missas, celebradas a cada uma hora e meia — da alvorada até a última, às 19h30. A celebração das 10h será presidida pelo cardeal arcebispo do Rio, Dom Orani Tempesta. Às 16h, a tradicional procissão percorre as ruas do bairro.
