Microplástico desafia tentativas de contenção

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Fonte da notícia: Globo Globo

Heloisa Schurmann: “Agora falamos de partículas que entram na cadeia alimentar“ Voz dos Oceanos/Divulgação Do sedimento do mar profundo ao topo do Everest, o microplástico está em todos os ambientes em que foi procurado. No corpo humano, estudos encontraram o material na placenta, no leite materno, no sangue, no pulmão e no cérebro. “Vivemos num planeta com microplástico em todos os lugares, e o problema é que muitas vezes ele não é visível”, diz Ronaldo Christofoletti, professor do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN). De acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a produção global de plástico chegou a 435 milhões de toneladas em 2020 e deve crescer outros 70% até 2040. Apenas 9% do resíduo é reciclado. Os rios acumulam 109 milhões de toneladas, e os oceanos, 30 milhões. No Brasil, entram 10,33 milhões de toneladas de plástico por ano, e 3,44 milhões viram resíduos sem coleta ou destinação adequada, segundo o Blue Keepers, do Pacto Global da ONU. Do que é recolhido, a maior parte vai para aterros. As soluções que tiram o material da água, como ecobarreiras e filtros, não têm escala para o tamanho do problema. Como a maior parte resulta da fragmentação de plásticos maiores, conter o avanço depende de reduzir a poluição na origem. “Tudo isso pode ser evitado na medida em que a gente reduz a geração”, diz Alexander Turra, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador da Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano. Com relação ao microplástico lançado direto no ambiente, sem passar pela fragmentação de peças maiores, pneus e tintas respondem por 38% cada um, a lavagem de plástico nas usinas de reciclagem por 12% e a agricultura por 11%, num total de 17 milhões de toneladas ao ano, segundo o Breaking the Plastic Wave 2025, do Pew Charitable Trusts. No ambiente, as partículas podem ser ingeridas por animais e chegar ao prato. Para medir a exposição da população pela comida, a Voz dos Oceanos, expedição da família Schurmann apoiada pelo Pnuma, comprou bivalves - como mexilhões, ostras e sururus - em 14 Estados do litoral, e as amostras foram analisadas na USP, sob coordenação de Turra. Em 70% deles havia microplástico, com até 5 partículas por grama em Recife e Fortaleza. “Em um pastel com 100 gramas de sururu, estamos falando de uma ingestão de 500 partículas”, afirma Turra. Para Heloisa Schurmann, matriarca da família, o resultado muda a discussão. “Não estamos mais falando só de uma praia suja ou de uma tartaruga presa em uma embalagem. Agora falamos de partículas que entram nos ecossistemas e na cadeia alimentar”, diz. Os rios levam ao mar o plástico descartado em terra. A Expedição Tietê 2025, da Fundação SOS Mata Atlântica com quatro universidades, percorreu mais de 1.100 km e achou microplástico nos 14 pontos amostrados. Mesmo na nascente, em Salesópolis, microplásticos foram encontrados, em pequena quantidade. O achado surpreendeu, e uma das suspeitas é que a contaminação pode ter acontecido pelo ar. A partir deste ano, o Decreto 12.688, de outubro de 2025, obriga quem vende produtos em embalagem plástica a recolher e dar destino adequado ao equivalente a 32% do que coloca no mercado, e os fabricantes e importadores de embalagem a usar ao menos 22% de resina reciclada nas peças novas, percentual que sobe a 40% em 2040. Contudo, um dos desafios é criar mercado para o material reciclado. “O plástico virgem é mais barato, e não há grandes incentivos fiscais para aumentar o valor agregado do reciclado”, diz Gustavo Veronesi, coordenador da causa Água Limpa na SOS Mata Atlântica e da Expedição Tietê. Carla Elliff, oceanógrafa que coordena projetos de lixo marinho no Blue Keepers, defende harmonizar as metodologias de medição na água, no solo, no ar e nos alimentos. “Uma discussão importante se refere a como órgãos como o Conama e a Anvisa poderiam incluir microplásticos em seus parâmetros de avaliação”, diz. Turra acrescenta limites de consumo, controle da liberação de fibras pelos tecidos e pelas máquinas de lavar e tratamento de esgoto mais refinado. O relatório da Expedição Tietê recomenda integrar saneamento, uso do solo e gestão de resíduos na bacia. No âmbito global, o tratado contra a poluição plástica, em negociação na ONU desde 2022, seria o primeiro a alcançar todo o ciclo de vida do material. Produtores de petróleo defendem um acordo restrito ao descarte. Entre os fabricantes brasileiros, o Programa Pellet Zero, licenciado pela Abiquim, audita petroquímicas, transformadoras e transportadoras contra a perda de pellets. O setor também amplia a oferta de resinas recicladas e de origem vegetal e substitui embalagens multicamadas por um único material, mais fácil de reciclar.

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