Michel Melamed sobrepõe linguagens e gêneros em peça sobre criatividade

 

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Difícil condensar em poucas linhas — numa sinopse ou numa breve explicação a alguém — o novo trabalho de Michel Melamed. “Olha, vou ter que pensar agora, hein, para saber o que achei”, comenta uma espectadora, em conversa empolgada com outra pessoa na plateia, ao fim da sessão de “O funcionário que pede para não ser identificado”, em cartaz até domingo no Sesc Copacabana, na Zona Sul do Rio. Afinal, sobre o que trata a peça?

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Como nas demais obras com a assinatura do autor e diretor carioca — de “Regurgitofagia”, de 2004, a “Monólogo público”, de 2016 — o que se vê em cena são luminosas constelações de ideias que não se encaixam de maneira única entre si. Cabe a quem assiste o trabalho de organizá-las (ou desorganizá-las) num universo particular.

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Desta vez, porém, a provocação ganha mais força, já que o principal tema perscrutado no tablado é a criação — a criação artística, sobretudo. Mas não só. Também estão lá lampejos acerca da criação da cultura, da liberdade. A criação, eureka!, do pensamento e, por conseguinte, das dúvidas.

— A criatividade não é uma coisa exclusiva do artista. Ela é uma condição da sobrevivência humana. Todos nós estamos, cotidianamente, tendo que enfrentar o desafio de inventar alternativas para as nossas vidas — observa Melamed. — Guimarães Rosa bem colocou que “o que a vida quer da gente é coragem”. Mas ouso acrescentar que é preciso coragem para a criatividade, principalmente neste mundo que nos submete a tantos sistemas que reduzem, sempre, a nossa capacidade de imaginar.

Comédia musical poética

A divagação perpassa toda a história de “O funcionário...”. Na produção bem-humorada — definida pelo autor como uma “comédia musical poética” — as atrizes Inez Viana, Simone Mazzer, Thalma de Freitas e Yasmin Gomlevsky encarnam funcionárias do fictício Setor de Registro e Produção de Obras Artísticas. É nesse espaço que criadores são obrigados a submeter ideias ao escrutínio de profissionais especializados, para que elas sejam autorizadas (ou não) a existir no mundo.

As atrizes Inez Viana, Simone Mazzer, Yasmin Gomlevsky e Thalma de Freitas, no elenco da peça "O funcionário que pede para não ser identificado", com direção de Michel Melamed

Bruna Sussekind/Divulgação

Acontece que uma das servidoras do tal departamento vive às voltas com um impasse: a moça quer “criar”, mas se sente incapaz de conceber qualquer coisa. Ela passa, então, a descontar a frustração nos candidatos que cruzam seu caminho, barrando projetos e rejeitando propostas alheias.

— Isso não é uma novidade. Os artistas sempre tiveram que negociar suas existências com a Corte, a nobreza, o mecenato, o mercado e, hoje em dia, com a instância do algoritmo, que imagino como uma figura sem rosto, com um saco de papelão na cabeça — compara. — Mas não acho que os artistas estejam mais burocráticos. O que está mais burocrático é o mundo! Conheço infinitos artistas doidos para botar o bloco na rua... Mas como se faz isso?

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Artista sabe-se lá desde quando e até que momento (“Acho que ser artista é algo em construção: por isso, ninguém nunca está cristalizado nessa posição”, defende), Melamed lembra de sentir algo diferente no corpo — “uma experiência de palco”, como detalha — ao cantar para a avó, em casa, aos 6 anos. A incursão literal nos tablados só se deu na década seguinte, por meio da poesia. Na juventude, aproximou-se de escritores como Chacal, Guilherme Zarvos e Waly Salomão ao integrar o coletivo CEP 20.000, o Centro de Experimentação Poética. Ao longo dos anos 1990, o movimento transformou o Espaço Sérgio Porto, no Humaitá, Zona Sul carioca, em palanque para leituras de poemas e apresentações que mesclavam teatro, dança, música, literatura, performance...

Vem dessa mixórdia a obsessão de Melamed — ator, poeta, dramaturgo, diretor ou, mais fácil, “criador” — pela busca de uma linguagem múltipla que desfaça as fronteiras dos gêneros, das artes, das formas. Não à toa, ele mesmo não sabe exatamente de onde despontam as próprias criações.

— A peça “O funcionário...” não nasceu de uma consideração inicial do tipo: “Quero falar sobre isso”. Como surgem ideias? Não sei. No meu caso, talvez isso comece quando me oferto o espaço da liberdade — diz.

Sem respostas prontas

A justaposição de diferentes linguagens e signos, uma das marcas do encenador, está, dessa maneira, igualmente relacionada ao exercício constante da criatividade (ou à “expansão de percepção da realidade”, como sublinha).

— Tenho o objetivo, sim, de complexificar e convidar o espectador a, de fato, criar junto comigo. E aí me relaciono com as ambivalências, sabe? Por óbvio, há uma sinopse da peça. Mas os sentidos não estão dados de pronto — ressalta. — Para mim, vem desse encontro aberto entre obra e público a experiência artística. Então, não faço trabalhos persuasivos que querem que a pessoa compreenda exatamente uma coisa. Não! Um espetáculo tem que ter múltiplos significados, como a própria vida. Provocar quem está vendo a também criar significa ampliar os olhares. Não há “entender certo” ou “entender errado”, sabe? Assim, as coisas são maravilhosamente, belamente ou simplesmente complexas. E digo isso no sentido de que o “complexo” é acessível.

Letícia Colin e Michel Melamed

Reprodução

Entre o sem-número de rascunhos que habitam as gavetas de Melamed, uma nova peça vem sendo gestada junto à atriz Letícia Colin, com quem o ator é casado — os dois são pais de Uri, de 6 anos. Está aí, aliás, uma baita criação, como o dramaturgo diz: o amor.

Em 2024, o casal rompeu o relacionamento em meio à temporada da peça “Um filme argentino” — que ambos fizeram juntos — sobre um homem e uma mulher às voltas com a separação. Novamente casados, Michel e Letícia agora idealizam, veja só, um espetáculo sobre reconciliação amorosa.

— A gente passou um ano separado, mas tendo um filho pequeno. Então, nós sempre estivemos próximos, né? Mas, independentemente de nossa relação, sempre olho para a Letícia e falo: “Que mulher espetacular! Que talento como artista” — elogia ele, sobre a atual protagonista da novela “Quem ama cuida”, na faixa das 21h da TV Globo. — Tudo isso fez com que continuássemos ligados um ao outro, sabe? Depois, percebemos que o amor vivia entre nós. E agora ele segue vivendo e sendo criado. Afinal, amor também é criação. Tudo é, né? O tempo todo. É uma loucura isso.