Você pode não conhecer a Princesa Amora, mas, se tem uma filha, provavelmente ela conhece. A saga do “Diário de uma princesa desastrada” (volumes 1, 2, 3 e 4, Editora Planeta), da autora mineira Maidy Lacerda, é um verdadeiro fenômeno editorial: os seis livros da série, que incluem ainda “O caderno de maldades do Scorpio” (1 e 2), ultrapassaram a marca de 1 milhão de exemplares, e a escritora estará amanhã na Bienal de São Paulo para lançar “O diário de tarefas gnomosas do Floreante Viajante”, mais um spin-off da série. Maidy, que na verdade se chama Yara, é formada em Cinema, tem 29 anos e foi descoberta pela editora na internet, onde dava dicas de leituras e resenhava livros. Best-seller também em Portugal, a série já atravessa fronteiras: a autora acaba de ser publicada em países da América Latina e chega ano que vem à Espanha. Agora, Maidy sonha mais alto: ver a Princesa Amora nas telonas. Começa a Bienal do Livro de SP: confira destaques da programação, de Conceição Evaristo a 'Heartstopper' Celular é usado por 72% dos leitores de e-books e audiolivros: Quase metade já acessou conteúdo por canais não oficiais Abaixo, ela responde a algumas perguntas feitas por leitoras mirins: O que você mais gostava de fazer quando tinha dez anos? (Alice, 10 anos)
Uma das minhas coisas favoritas era escrever em diários. Eu era igual à Amora. Eu tenho vários diários assim de infância. Todo ano, eu ganhava um caderninho de aniversário que virava meu diário do ano. Aí ficava até o meu próximo aniversário. Eu acho engraçado que todos os meus diários começam no dia 29 de abril, que é meu aniversário. Eu amava escrever e escrevia todo dia. E foi justamente daí que veio a ideia da princesa desastrada: um dia eu encontrei uma caixa no armário na casa da minha mãe, com todos esses meus diários. Aí pensei: acho que eu vou gravar um vídeo reagindo a eles, relendo todos pelas pela primeira vez. E eram a cara de um livro mesmo, eu escrevia de um jeito muito engraçado. Era cada pérola que eu ficava rindo sozinha no vídeo. Eu amava escrever e ler, que são as minhas paixões até hoje. Além de escrever diários, eu também gostava muito de ler, sempre fui viciada nos livros, lia um livro atrás do outro. Só que meus pais não tinham condições de ficar comprando vários livros para mim, então eu sempre tinha uma listinha para eu ganhar nos aniversários. Toda vez que eu achava algum livro legal, anotava o nome nessa listinha. Minha lista de presentes era só livros. Sempre que alguém queria me dar algum presente, minha mãe falava: "A Yara tem uma lista de livros, pode dar qualquer um desses que ela vai adorar". Acho que as paixões que a gente tem na infância vão com a gente durante a vida toda.
Como você conseguiu atrair a atenção de públicos tão diferentes, como crianças e adolescentes? (Júlia, 12 anos) Eu sempre fico curiosa com isso, porque sempre vejo crianças de várias idades, tanto nas sessões de autógrafos, quanto me mandando mensagens... Até as mães estão sendo cativadas pelos livros: recebo muitas mensagens delas, dizendo que começaram a ler de curiosidade com as filhas, que não paravam de contar sobre as personagens, e agora estão as duas juntas, ansiosas, esperando pelo quinto livro. Mas, respondendo a sua pergunta, acho que consegui cativar tantas pessoas em um público tão abrangente por causa da minha linguagem, pela forma com que eu escrevo os livros, por não subestimar a inteligência da criança. Vejo muitos livros infantis que trazem uma linguagem mais simples, achando que vai ser mais fácil para a criança ler. Só que as crianças são muito mais inteligentes do que a maioria das pessoas imagina: elas conseguem pensar teorias mirabolantes. Por exemplo, no meu livro muitas descobrem teorias que às vezes nem adultos perceberam. Eu disparo alguns enigmas nos livros, pistas que vão se conectar em próximos capítulos da história, que deixo soltas para ser uma conexão e trazer as referências, e elas pescam aquilo. São teorias que exploram a criatividade delas e acabam conquistando adultos também, porque não fica uma linguagem simples demais. A história tem camadas, tem o aprofundamento dos personagens. Cada um deles tem uma história de fundo, tem a sua própria personalidade. E isso fica atrativo para todas as idades e todos os públicos.
Como você criou o mundo da Princesa Amora? Como teve todas essas ideias? (Madalena, 8 anos) Eu sempre deixo a história muito viva. Muitas vezes os meus personagens têm vida própria. Às vezes eu planejo uma coisa bonitinha, acho que é aquilo que vai acontecer, mas a história vai para um rumo que eu nunca imaginei. Tento deixar a história solta e tento não controlar a minha criatividade. Se ela sair do que eu planejei, eu permito isso. Por exemplo, no primeiro livro eu tinha planejado o Scorpio como arqui-inimigo da Amora, ele seria chato e irritante do início ao fim. Mas, em um capítulo ele começou, de repente, a querer ser fofo com a Amora. Não estava nos meus planos. Vieram alguns diálogos dele na minha cabeça e decidi deixar na história. E isso foi uma das coisas que os fãs mais amam nessa relação entre eles, virou uma dos trechos favoritos, e foi 100% espontâneo. Mas, às vezes, tenho um bloqueio criativo como qualquer pessoa que trabalha com escrita e arte em geral. Nessas horas, tento me inspirar com filmes, séries, tiro um tempinho para relaxar a cabeça nesse sentido. Se estou escrevendo sobre sereias, pego uma lista de filmes para assistir e mergulhar naquele ambiente. Ouço músicas, vejo desenhos, tento me rodear de arte para expandir minha criatividade. Isso faz a gente mergulhar nesse universo mágico.
O universo do Harry Potter te inspirou de alguma forma? (Maria, 14 anos)
Eu gostei muito de acompanhar Harry Potter quando era criança, lia e assistia aos filmes, que estavam sendo lançados na época. Não me inspirou diretamente, por ser um universo diferente, né? Mas sim no sentido de crescer com uma saga em que os personagens cresciam junto comigo. Eu sentia que eles estavam ali com os dilemas parecidos com os meus, primeiro na infância e depois adolescentes. Foi uma coisa que eu quis trazer para minha saga. Eu poderia, por exemplo, congelar a idade da Amora e todo livro ser uma aventura. Ela estaria na mesma idade para sempre. Mas entendi a importância de fazer ela crescer junto com o público, justamente para conseguir conversar mais diretamente com ele. É uma coisa que vejo nessa nova geração, que eles sentem muita falta de serem ouvidos e se verem nas obras. Por isso criei a princesa Amora, uma princesa desastrada, não uma princesa perfeita. Ela tem os seus defeitos, se parece muito comigo na infância: eu era vista como estranha, mas não existia uma personagem fictícia estranha com que eu pudesse me identificar e entender que estava tudo bem em ser do meu jeito.
Como você decide quem serão os heróis e quem serão os vilões? (Malu, 8 anos) A questão dos personagens chega de forma muito espontânea na minha cabeça. Alguns, que pensei que seriam heróis o tempo todo, durante a criação da história percebo que ele iria se rebelar em algum momento e se tornar um vilão. Então eu mesma fico teorizando a minha própria história. Esqueço assim que eu sou criadora, que eu tenho o poder de fazer o que eu quiser na história e começo a teorizar em cima do meu livro. Tenho um canal no YouTube em que eu teorizo sobre os filmes da Disney e começo a fazer esse trabalho com meu próprio livro. Fico pegando as pontas soltas e falo assim nossa, será que isso tá aqui por causa disso? Eu vou conectando essas pontas e na própria história encontro pistas de que tal personagem vai virar um vilão, ou de outro personagem vai ter sua redenção. Às vezes eu releio o primeiro livro, e encontro nele o motivo de tal personagem se rebelar. Aí volto para o meu lugar de escritora e eu vou conectando esse quebra-cabeça, vou montando essas peças. Então, dentro do meu próprio livro eu vou encontrando essas pistas de quem serão os heróis e quem serão os vilões. De onde você tirou as ideias dos nomes tão inusitados dos personagens? (Nina, 10 anos) Escolher o nome é um desafio! Eu sinto como se eu estivesse escolhendo o nome de um filho: vou pesquisar o significado, fico testando, falando o nome em voz alta... Por exemplo, Scorpio combina, tem um ar de vilão; Amora tem uma doçura dela no nome, e é o nome de uma fruta, então traz um pouco de diversão junto. Às vezes monto uma listinha, entro em sites de nomes para bebês. E às vezes eu invento alguns também, como o Floreante Viajante. Alguns surgem espontaneamente, eu olho para o desenho e já me vem o estalo... Os nomes dos gnomos, principalmente, são só nomes inusitados, eu deixo a cabeça viajar, a criatividade rolar.
Você queria ser escritora desde pequena? (Nina, 10 anos) Sempre foi meu sonho ser escritora. Acho que, como quase todos os brasileiros e brasileiras, comecei a ler com os gibis da Turma da Mônica. Depois, quando comecei a ler livros maiores, sem ilustrações, veio esse meu amor pela escrita. Aos 13 anos eu já tinha uma saga escrita por mim, em um caderninho que eu levava para a escola, junto com os meus materiais. Às vezes, eu acabava de copiar a matéria do quadro, pegava meu caderninho e escrevia minha história ali no meio da aula. Nessa idade, eu tinha vários desses cadernos escritos...
Você se formou em Cinema. Por que escolheu essa profissão? (Marina, 44 anos) Eu tinha três possibilidades. Já trabalhava com design gráfico, que aprendi sozinha no computador. Fazia uns bicos, pegava encomendas de logotipo de loja. Então a minha primeira opção de faculdade era Design; a segunda, Publicidade; e por último, Cinema. Acabei passando para Cinema, os outros eram mais concorridos. Resolvi ouvir o destino. Eu entrei bem de supetão, não sabia muito da área. E descobri que lá tinha várias coisas que eu amava, como gravar, estar por trás das câmeras, e principalmente roteiro. Parece que foi o destino mesmo. No meio da faculdade eu criei o meu canal e, coloquei em prática meus aprendizados, de enquadramento, de roteiro, e meu canal começou a crescer. Fui trazendo esses ensinamentos da faculdade para expandir o canal. Alguns vídeos viralizaram, o canal bombou e foi graças a ele que consegui chamar a atenção da Editora Planeta para realizar o meu sonho e escrever um livro.
Quais os seus maiores sonhos em relação à série? (Catarina, 11 anos). Você tem planos para que os livros virem filme? (Aurora e Clarice, 8 anos) Como eu vim do audiovisual e também me especializei em roteiro de animação, trouxe isso para escrever o meu livro. Várias leitoras falam que quando leem sentem que estão assistindo a um filme, porque é tudo vivo, tudo dinâmico. Então seria muito legal fazer o caminho inverso, né? Ver o livro se transformando em roteiro e indo para o cinema. Esse é meu maior sonho: ver a Amora nas telas. Quanto tempo você demora para escrever cada livro? (Nina, 10 anos) Depende muito. O primeiro livro escrevi em dois meses. Eu só soltei a criatividade, criei o universo, os personagens, e deixei a cabeça livre. Só que agora isso não pode acontecer mais, porque eu tenho regras pré-estabelecidas. As sequências estão sendo mais difíceis, porque eu tenho que reler todas as edições anteriores, tomar cuidado para não ter furos na história, para eu não me contradizer com o universo ou os próprios personagens eu si. Então, agora as sequências estão levando um pouquinho mais de tempo, levo cerca de cinco a seis meses.
O quinto livro é o último da série? (Luísa, 7 anos) Ainda não. Mas a saga um dia vai ter um final. Pretendo dar um desfecho para a Amora e para a maldição do reino de Florentia. Talvez seja um final feliz, talvez não, tudo depende de a Amora conseguir quebrar a maldição do reino. Mas não é em Princesa Desastrada 5, podem ficar despreocupadas.
O Globo