O dia 25 de outubro de 1975 está marcado para sempre na história do Clube do Remo. Naquela data, o Leão Azul protagonizou uma das maiores façanhas do futebol do Norte ao derrotar o Flamengo por 2 a 1, no Maracanã, em uma tarde/noite que ficou eternizada na memória dos torcedores azulinos.
O time carioca tinha entre suas principais estrelas Zico, Júnior e Rodrigues Neto, mas acabou surpreendido pelo Remo, que venceu com gols de Alcino, maior ídolo da história azulina, e Mesquita, autor do gol que garantiu a vitória remista.
Quase 51 anos depois daquele feito, a história voltou a ser lembrada no clima de preparação para o reencontro entre Remo e Flamengo, marcado para este domingo (6), às 16h, no Mangueirão, pelo Campeonato Brasileiro. A equipe de esportes de O Liberal conversou com dois personagens que vivenciaram aquela partida histórica: o ex-jogador Mesquita, que esteve em campo, e o torcedor e historiador do Remo Orlando Ruffeil, que acompanhou o confronto das arquibancadas.
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Amigos, os dois participaram de um bate-papo no palco da partida deste domingo e relembraram detalhes, curiosidades e os bastidores de como o Leão Azul conseguiu superar o poderoso Flamengo de Zico e companhia.
Orlando Ruffeil (camisa do Remo) e Mesquita viveram a história (Igor Mota / O Liberal)
O “jogo impossível”
Titular absoluto e considerado o “cérebro” daquela equipe, Mesquita também era conhecido pelo oportunismo na frente do gol. Autor do segundo gol do Remo no Maracanã, ele contou como os jogadores azulinos foram motivados antes da partida.
Segundo o ex-jogador, o técnico Paulo Amaral utilizou as notícias publicadas pela imprensa carioca para mexer com o elenco. Os jornais tratavam a vitória do Flamengo como praticamente certa e colocavam o Remo em uma posição de completo azarão.
“É histórico. Foi um jogo inusitado, jamais alguém diria que nós íamos vencer por 2 a 1 o Flamengo de Zico, Júnior e Rodrigues Neto e ganhamos jogando futebol. Antes do jogo, o nosso técnico Paulo Amaral leu matérias de um jornal do Rio de Janeiro, dando certa a vitória do Flamengo, que não tínhamos nem que entrar em campo. E aquilo incentivou a gente e chegamos cantando no ônibus. Chegamos no vestiário e tinha água, café e ele deu um chute em tudo, quebrando tudo e proibiu a gente de beber, pois segundo ele tudo estava ‘batizado’ pelo Flamengo e isso deu um ânimo”, relembrou.
Mesquita relembra com orgulho o feito azulino no Maracanã (Igor Mota / O Liberal)
Técnico Paulo Amaral inflamou o elenco
Para Mesquita, a postura de Paulo Amaral foi determinante para transformar a descrença externa em motivação dentro do vestiário. O treinador não poupou críticas aos jogadores e cobrou uma postura ofensiva diante do Flamengo.
“Na preleção ele deu uma ‘mijada’ e disse pra jogarmos em cima do Flamengo. E fomos pra cima deles com Marinho, Cuca, atravessando o campo e eles não aguentaram”, contou.
A imprensa carioca teve papel importante na preparação emocional dos jogadores azulinos. Na sexta-feira, dia que antecedeu a partida, o Remo realizou um treinamento nas Laranjeiras, na Sede do Fluminense e as manchetes dos jornais reforçavam o favoritismo absoluto do Flamengo.
“Na sexta-feira fomos treinar nas Laranjeiras, no Fluminense-RJ, e saiu no jornal que não adiantava jogar com o Flamengo, pois já estava selada a vitória rubro-negra. Nesse momento, os pontos eram por diferença de gols, dois gols de diferença, o time ganhava 3 pontos e, segundo o jornal, eles [Flamengo] daria de 3 ou 4, mas eles se ferraram, pois quem saiu com a vitória fomos nós”, afirmou Mesquita.
A manchete: “8 + 3 = 11”
Orlando Ruffeil, que acompanhou a partida no Maracanã, também destacou o peso das publicações da imprensa carioca naquele momento. De acordo com o historiador, o Flamengo era apontado como amplo favorito e o Remo chegava ao confronto na condição de azarão.
“O Remo era o azarão. O Flamengo tinha 8 pontos e o ‘Jornal dos Esportes’, tabloide mais lido do Rio de Janeiro, estampou na manchete: ‘8 + 3 = 11’, [em referência a uma vitória garantida do clube carioca diante do Leão Azul]. Aquela manchete no jornal mexeu com os brios dos atletas e principalmente do técnico Paulo Amaral. Ele colocou jornais embaixo das cadeiras dos jogadores e deu no que deu”, relatou Orlando.
Ao lado de Alcino
Mesquita também teve a oportunidade de dividir o vestiário com Alcino, um dos maiores nomes da história do Remo. O atacante eternizado pelo torcedor azulino como “Negão Motora”, era uma das principais referências daquele elenco.
Companheiro de equipe, Mesquita destacou o carinho que Alcino despertava na torcida e afirmou que o ídolo possuía uma presença diferente dentro do elenco.
“O maior ídolo do Remo de todos os tempos. A torcida gostava de mim, do Dutra, Dico, Aderson, mas ele [Alcino] era o cara central, um ‘meninão’, um ídolo que não sabia a força que ele tinha. Mas eu não combinava nada com ele, então eu via o posicionamento do Alcino na área e ficava do lado contrário e as bolas jogadas na área eram todas pra ele”, explicou.
Mesquita festeja um dos gols da vitória do Remo sobre o Flamengo de Zico no Maracanã. Alcino é o número 9 no registro (Divulgação)
A torcida do Remo em meio à multidão rubro-negra
Se dentro de campo o Remo tinha a missão de desafiar um dos melhores times do futebol brasileiro, nas arquibancadas a situação não era diferente. A torcida azulina era minoria diante da massa flamenguista que ocupava o Maracanã, mas Orlando Ruffeil encontrou uma maneira de fazer o Leão ser ouvido no estádio.
Historiador Orlando Ruffeil esteve no Maracanã acompanhando a vitória azulina (Igor Mota / O Liberal)
Segundo o historiador, cerca de 30 mil torcedores acompanharam a partida naquele dia. Por meio de uma ligação com a torcida do Vasco da Gama, Orlando conseguiu levar centenas de camisas do Remo para as arquibancadas.
“Naquele dia o público foi de 30 mil torcedores no Maracanã. A esposa do Dutra (zagueiro do Remo) era filha da chefa da maior torcida do Vasco da Gama, que era a ‘RenoVascão’. O Dutra me deu o endereço e, como já havia residido no Rio de Janeiro, fui conhecer a Dona Dulce Rosalina [presidente da RenoVascão] e comprei 300 camisas, coloquei o escudo do Remo e levei. Todas as camisas foram doadas para os integrantes da RenoVascão. Éramos minoria, mas éramos os mais barulhentos”, contou.
Paissandu?
Outra curiosidade daquele confronto envolve a preparação do Remo para a partida. A delegação azulina ficou hospedada no Hotel Argentina, localizado na Rua Paissandu [nome do maior rival do Remo] no bairro do Flamengo, próximo ao local do confronto.
Para Orlando, aquela partida permanece como uma das mais marcantes da história do clube, especialmente pela forma como o Remo conseguiu silenciar a torcida rubro-negra no Maracanã.
“Um detalhe interessante, pois o Remo ficou hospedado no Hotel Argentina, na Rua Paissandu, no bairro do Flamengo. Essa partida contra o Flamengo foi inesquecível, onde os valorosos atletas azulinos calaram a boca da multidão rubro-negra. Nós derrotamos o Flamengo com o maior ídolo da história, que era o Zico”, relembrou.
O historiador também destacou a atuação do goleiro Dico, que teve papel decisivo para a vitória azulina. A performance foi tão marcante que rendeu ao jogador um apelido durante a transmissão da Rádio Globo.
“O narrador da Rádio Globo, o Jorge Curi, ele denominou o goleiro Dico, do Remo, como ‘Disco Voador’. Ele foi o craque do jogo e dizia: ‘Ele não é o Dico, ele é um Disco Voador’, de tantas defesas que ele fez”, contou Orlando.
O Liberal