Mesmo com anúncio de reabertura 'completa' feito por Trump, navegação no Estreito de Ormuz ainda tem restrições; entenda
Em meio às negociações com o Irã, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou nesta sexta-feira que o Estreito de Ormuz estava “completamente aberto e pronto para negócios e livre tráfego”, um mês e meio depois de ter sido bloqueado por Teerã. Como de hábito, suas declarações não refletem o cenário real: a passagem, por onde transitam 20% das exportações globais de petróleo, ainda tem restrições, conta com áreas vetadas à navegação, e as empresas de transporte naval seguem incertas quanto a enviar seus navios para a área.
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O primeiro choque de realidade, ou ajuste de expectativas, veio do chanceler iraniano, Abbas Araghchi. Na rede social X (proibida no Irã), ele declarou que o tráfego de navios estará aberto durante o período do cessar-fogo firmado com os americanos (que expira na quarta-feira que vem), mas que a navegação deve ocorrer “na rota coordenada, conforme já anunciado pela Organização de Portos e Assuntos Marítimos da República Islâmica do Irã.”
— Do ponto de vista do transporte marítimo, é certamente promissor [o anúncio sobre Ormuz], mas não oferece, de imediato, clareza suficiente para que alguém tome decisões definitivas — disse Richard Meade, editor-chefe da Lloyd’s List, jornal britânico especializado no setor naval, ao Wall Street Journal.
Recentemente, ao liberar a passagem de embarcações por Ormuz, mediante autorização da Guarda Revolucionária e potencial pagamento de um pedágio de até US$ 2 milhões, os iranianos estabeleceram uma rota que passava ao largo da Ilha Larak, próxima à costa, e que lhes dá poder sobre quem por ali transita. Antes da guerra ordenada por Trump, respondida com o fechamento do estreito por Teerã, os navios que entravam ou saíam do Golfo Pérsico usavam duas rotas em águas territoriais de Omã e Irã.
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Em comunicado, a Guarda Revolucionária disse que apenas embarcações civis terão a passagem liberada, mediante autorização militar prévia, e excluindo o trânsito de embarcações militares, termos similares aos que estavam em vigor nos últimos dias. Não há detalhes sobre a cobrança do pedágio, mas segundo um membro da equipe de negociadores, ouvido pela agência Isna, haverá algum tipo de cobrança. Mais cedo, um artigo na agência Tasnim, ligada à Guarda, criticou a maneira como a forma como Araghchi anunciou a reabertura, acusando-o de gerar “diversas ambiguidades sobre as condições de passagem, os detalhes e os mecanismos envolvidos”
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Ao mesmo tempo em que declarou Ormuz aberto, Trump reiterou que um bloqueio a navios iranianos, ou que tenham o país como origem ou destino, segue em vigor. O Comando Central dos EUA declarou que 19 navios receberam a ordem de retornar aos portos iranianos, e 10 tiveram as jornadas rumo ao Irã interrompidas desde a segunda-feira.
De acordo com o funcionário do governo ouvido pela Tasnim, a manutenção do bloqueio pode ser considerada uma quebra do acordo de cessar-fogo, sob ameaça de nova interrupção do tráfego em Ormuz. As mesmas informações foram dadas por uma fonte do Conselho de Segurança Nacional à agência Fars. Mais cedo, Trump havia dito no Truth Social que o Irã “concordou em nunca mais fechar o Estreito de Ormuz”.
Mesmo sem a ameaça dos mísseis e drones, especialistas apontam para o risco das minas navais. Segundo o governo americano, o Irã as instalou de maneira errática, muitas vezes sem marcar suas posições, e hoje não sabe exatamente onde estão — aos navegadores, a Guarda Revolucionária cita áreas próximas à costa de Omã como "potencialmente perigosas", sugerindo a presença dos armamentos. Trump declarou que estava removendo, ao lado de Teerã, os explosivos, mas os militares dos dois países não têm meios para retirá-los e desativá-los em um curto intervalo de tempo, como deseja o republicano.
"O status da ameaça representada pelas minas no EST (Esquema de Separação de Tráfego, modelo usado em rotas navais congestionadas, como Ormuz) não foi totalmente compreendido. Considere evitar essa área", diz um alerta enviado aos navegadores pela Agência de Cooperação e Orientação Naval para Navegação da Marinha dos EUA, obtido pela agência Reuters.
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Desde março, o tráfego no estreito, por onde passam cerca de 100 navios diariamente em tempos de paz, caiu mais de 90%, e poucos foram convencidos, neste primeiro momento, pelas garantias de segurança vindas de Washington e Teerã.
“A segurança de nossa tripulação, embarcações e da carga de nossos clientes continua sendo nossa prioridade. Desde o início do conflito, temos seguido as orientações de nossos parceiros de segurança na região, e a recomendação até o momento tem sido evitar a travessia do Estreito de Ormuz”, afirmou a Maersk em comunicado à rede CNN.
Segundo estimativas, há cerca de dois mil navios, com 20 mil tripulantes e 21 bilhões de litros de petróleo nos arredores de Ormuz. Mesmo se o tráfego fosse retomado sem restrições, levaria meses para normalizar todo o sistema.
"Estamos começando a avaliar a nova situação e os riscos envolvidos", disse um porta-voz da gigante alemã Hapag-Lloyd,em um comunicado à Reuters. "Por enquanto, portanto, ainda estamos evitando atravessar o estreito."
Companhias de seguros, que chegaram a suspender apólices em vigor e rejeitar novos pedidos, tampouco parecem apressadas para aceitar novos contratos ou reduzir os valores cobrados.
— O anúncio incentivou brevemente as seguradoras a retornarem ao mercado, particularmente para cotações de seguros contra riscos de guerra para embarcações que transitam por áreas de alto risco, como o Estreito de Ormuz — disse, em entrevista ao portal Argus Media, George Grishin, presidente da corretora Oakeshott Insurance Group. — O que realmente está acontecendo é que as seguradoras estão reavaliando o risco em tempo real e, em alguns casos, simplesmente não podem aceitá-lo.
