Após uma virada histórica nas urnas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ontem, foi reeleito com 64,2 milhões de votos e 4,4 milhões a mais do que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A vantagem expressiva de Lula teve como mote principal a defesa da democracia, mas, agora, uma boa estratégia para a economia, que ficou em segundo plano na campanha, poderá ser decisiva para garantir a governabilidade do petista durante os próximos quatro anos e evitar um impeachment, segundo especialistas.
Eles ainda reconhecem que, com essa vitória inesperada, o mercado financeiro deve despertar, hoje, de mau humor.Vale lembrar que a mobilização nas redes sociais capitaneadas pelo deputado André Janones (Rede-MG), assim como os eleitores de todas as idades que decidiram sair para as ruas defendendo a democracia, ajudaram nessa recuperação do petista.
Contudo, ele ainda tem sobre a cabeça espada da judicialização uma vez que o rival não reconheceu a derrota, apesar de a margem ser o dobro da diferença dele no primeiro turno.O mercado torcia pelo filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Agora, a expectativa é de que Lula escolha faça alianças que garantam a governabilidade e escoolha bons nomes para nova equipe econômica, que precisarão transmitir credibilidade, a fim de evitar turbulências, aumento nos prêmios de risco sobre os títulos públicos para não comprometer ainda mais as contas públicas, que precisarão de uma boa gestão.
Um bom plano econômico para tirar o país da armadilha do baixo crescimento também precisará ser estruturado.Leia também: Analistas criticam falta de propostas econômicas de Lula e Flávio para o longo prazo"Não foi o PT que ganhou, mas o bolsonarismo que perdeu. Podemos chamar isso de antibolsonarismo de chegada", sintetizou a economista Monica de Bolle, pesquisadora senior do Peterson Institute for international Economics (PIIE).
Na avaliação dela, Lula precisará dar alguns recados rapidamente ao mercado financeiro, além de indicar logo o nome de quem vai chefiar a equipe econômica do próximo governo, renovando todo o escalão atual para recuperar a credibilidade perdida no atual mandato junto ao mercado e ao Congresso Nacional.
Segundo ela e o economista André Perdeito, economista-chefe da Garantia Capital, os ministros atuais, Dario Durigan (Fazenda) e Bruno Moretti (Planejamento e Orçamento), são considerados muito fracos para o cargo que ocupam.De acordo com a pesquisadora do PIIE, o governo também precisará anunciar, em breve, alguma medida de contenção de gastos da ordem de R$ 40 bilhões, pelo menos para "dar uma sinalização que eles vão olhar com mais seriedade a questão fiscal".
"E, logo em seguida, será preciso sinalizar uma nova regra para substituir o atual arcabouço fiscal, que segue desacreditado desde o início da vigência devido à série de abatimentos de gastos para cumprir a regra que acabam não ajudando na trajetória do crescimento da dívida pública bruta, atualmente em 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), podendo chegar, no fim do ano, ao mesmo patamar de 2020, quando houve a pandemia da covid-19.
"Será preciso alguma regra que possa ser mais fácil de acompanhar e que possa recuperar e reconstruir a credibilidade", orientou.A economista Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), também alertou para o ambiente hostil que espera Lula no quarto mandato, que o presidente prometeu ser o melhor da gestão dele."Lula tem de agradecer aos Bolsonaros por garantirem a reeleição, mas ele não poderá repetir os mesmos erros, porque não foi o PT que venceu em 2022 e agora.
O governo atual está muito mal-avaliado, e Lula precisará fazer um governo mais de centro na política e na economia, porque a questão fiscal continua muito difícil", afirmou. Além disso, ela lembrou que Lula não terá a "lua de mel" com o mercado financeiro no início do novo mandato, como aconteceria com Flávio.
Segundo ela, Lula ainda precisará anunciar logo um nome de peso para comandar a equipe econômica "para poder negociar com o Congresso e aprovar medidas econômicas".Mau humorAs previsões para o mercado financeiro, hoje, são de queda na Bolsa de Valores de São Paulo (B3), que acumulou alta de 10,06% em outubro, retorne para patamares de antes do primeiro turno, com alta do dólar e dos juros futuros.
Antecipando isso, o EZW, índice que replica o desempenho de ações brasileiras na Bolsa de Valores de Nova York, desabava 18% no mercado futuro, ontem, após o resultado das urnas.Apesar de considerar que qualquer lado que perdesse iria reclamar e tentar a judicialização, André Perfeito, da Garantia Capital, e Gustavo Cruz, estrategista-chefe da Sincra, concordaram que a diferença de Lula sobre Flávio não foi pequena e o mercado não deve considerar que haverá mudança no resultado.
"Mas os investidores vão ter um novo posicionamento, porque estavam prevendo a vitória de Flávio e os juros futuros já estavam abaixo de 12% ao ano em 2027, e, agora, isso vai ser revertido, assim como as expectativas para a inflação para os próximos anos", disse Cruz. De acordo com o estrategista, as estimativas para o Produto Interno Bruto (PIB), que vinham indicando desaceleração da atividade econômica, não devem mudar muito, mas o dólar deverá subir para R$ 5,20."Agora, o mercado ficará em cima da sinalização de medidas para o controle fiscal, uma vez que a dívida pública bruta, que pode ficar acima de 90% do PIB antes do fim da década", afrmou Cruz.
Para ele, em termos de política, "vai ser um pouco mais desafiador para o presidente Lula, porque a governabilidade dele vai ser um pouco mais testada com a oposição dominando o Congresso".Leia também: Ibovespa fecha em alta e dólar fica abaixo de R$ 5 antes do 2º turnoSilvia Matos, do FGV Ibre, lembrou, ainda, que o impeachment será uma ameaça para Lula neste quarto mandato e, por conta disso, pode ser que ele não tenha muito espaço para adotar medidas que ampliem ainda mais os gastos como vem sinalizando.
"A governabilidade de Lula será um desafio, porque a maioria Congresso Nacional é conservadora, e ele, definitivamente, precisará construir um governo de coalizão de verdade, porque não vai poder ignorar os principais problemas da economia que precisarão ser enfrentados, como a deterioração das contas públicas", destacou.André Perfeito também acredita que o fantasma do impeachment poderá rondar o petista no próximo mandato.
Ele lembrou que o mercado financeiro estava prevendo uma década de governo liberal. "Agora, existe a perspectiva de que o presidente Lula vai estar governando em um ambiente bastante hostil em torno dele, seja na Câmara dos Deputados, seja no Senado Federal.
E ele também não vai poder evitar uma reação ruim logo no primeiro ano do mandato", alertou.Eleição atípicaDe acordo com Arilton Freres, sociólogo e CEO da Indexa Pesquisas, a disputa desse segundo turno estava muito acirrada nos últimos dias, e Lula acabou sendo mais vitorioso do que Flávio, "porque ele teve capacidade de mobilizar um eleitorado novo que foi fundamental para a vitória".
"A capacidade de mobilização venceu", resumiu.Freres contou que nunca tinha visto tanta gente na Avenida Paulista, em São Paulo, como no último sábado, e lembrou que o candidato petista vinha apresentando recuperação nas últimas pesquisas. "Essa eleição foi a mais atípica de todas.
Tem características que não dá para comparar quase nada com as anteriores. Tivemos um primeiro turno morno, que parecia que não tinha nem campanha", explicou.No primeiro discurso como presidente reeleito, Lula prometeu fazer o melhor mandato dele da história.
Mas, para isso, ele terá muitas pedras no caminho, como um Congresso com maioria dos parlamentares de oposição e um mercado financeiro descrente de que ele estará comprometido em tentar equilibrar as contas públicas — que pioraram muito após os pacotes de medidas populistas que aumentaram consideravelmente os gastos e ainda não têm receita recorrente equivalente nos próximos anos.Leia também: Lula agradece Janones por mobilização digital e promete regular big techsEspecialistas também reconheceram que, apesar de Lula ter criticado o mercado por exigir um ajuste fiscal, isso será inevitável em 2027, porque, caso contrário, haverá um colapso nas contas públicas diante do aumento de despesas que não cabem no Orçamento — que nem foi aprovado pelo Congresso.
O economista Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda e sócio da Tendências Consultoria, lembrou que o mercado financeiro previa um ajuste fiscal, independente de quem fosse o vencedor. "A expectativa de algo nessa direção seguirá sendo uma exigência para a recuperação da credibilidade do governo, e, assim como para evitar impactos ruins justamente sobre os mais pobres.
A política social depende de uma boa política fiscal", destacou.Na avaliação do ex-ministro, não vai bastar para Lula escolher um bom ministro da Fazenda. "Não é assim que funciona, porque o Orçamento é a principal peça aprovada pelo Congresso, que autoriza o Executivo, por um ato administrativo, a renovar o congelamento e o contingenciamento de gastos.
Por outro lado, reformas estruturais que o Brasil precisa são normalmente impopulares", alertou. Ele lembrou que que Lula não poderá fugir dessa agenda fiscalista, apesar de não gostar."O cardápio de reformas é conhecido, e a mais importante medida será desvincular o salário mínimo dos benefícios previdenciários, que precisará de uma reforma constitucional, mas há economistas que consideram isso como cláusula pétrea, mas essa regra pode levar o país à ruína", alertou.
O ex-ministro lembrou que a Constituição de países desenvolvidos não possui essa trava, assim como a vinculação dos gastos com Educação e Saúde atrelados ao aumento de receita, sem considerar a mudança demográfica que está em curso. "Muitas prefeituras acabam sendo obrigadas a pintarem as escolas quatro vezes por ano para cumprirem a regra de gastar 25% da receita corrente líquida com Educação, o que é um desperdício de recursos públicos", comentou.Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular?Segundo Maílson, Lula ainda precisará realizar uma nova reforma da Previdência tenha como objetivos eliminar as diferenças de gênero, rural e urbano e civil e militar; aumentar a idade mínima para 67 anos; e introduzir o regime de capitalização, que estava previsto na última reforma mas não foi aprovada pelo Congresso em 2019. Saiba Mais Economia Pequenos negócios na mira de Lula e Flávio Economia Bancos terão mais responsabilidade na oferta e concessão de crédito, diz BC Economia Bancos terão mais responsabilidade na oferta e concessão de crédito, diz BC Economia Governo propõe perdão de dívidas do Simples Nacional para setor de eventos Economia Novas medidas simplificam obrigações para MEIs e nanoempreendedores Economia Os sinais vermelhos da economia em 2027 e o que Flávio e Lula propõem para eles
Correio Brazilliense