Menos dinheiro em casa: o que dizer aos filhos quando a família precisa cortar gastos

 

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"Tenho dois filhos, de 8 e 11 anos. Como devo tratar de problemas financeiros com eles sem assustá-los? Como falar do momento que estamos passando para que compreendam que não podemos comprar tudo, fazer o que fazíamos antes, mas de forma clara e tranquila, com amor e respeito?"

Os especialistas que ouvimos nesta semana dão dicas preciosas e fazem um alerta: não despejar nos filhos as angústias que pertencem ao universo dos adultos. Isso não significa esconder o problema, mas tratá-lo de uma forma que caiba naquilo que as crianças conseguem absorver.

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Palavra dos especialistas 👩‍🏫👨‍🏫

Cássia D'Aquino - Especialista em Educação Financeira, Corresponding Member da IACSEE - International Association for Citizenship, Social and Economics Education (@cassiadaquino)

🧠 Quando a família passa por uma fase financeira mais difícil, é natural que as emoções ganhem cores densas. Então, para evitar transbordar para as crianças angústias com as quais elas ainda não sabem lidar, convém guardar uma máxima: problema de adulto deve ser resolvido pelos adultos.

🤝 Por isso, antes de comunicar a situação aos filhos, é importante que os adultos tratem de se colocar em acordo sobre as providências que a família irá adotar: que cortes serão feitos ou que procedimentos serão adotados, por exemplo, para superar uma situação de desemprego. Uma vez que algum consenso seja estabelecido, com serenidade, será o momento de conversar com as crianças.

💬 Os filhos devem ser informados da necessidade de que a família reorganize os gastos. Mas isso não significa torná-los confidentes do que ainda não conseguem digerir. Dizer, por exemplo, “Estamos cheios de dívidas. Não sei como vamos sair dessa” é diferente de comunicar calmamente que “Neste momento, a nossa família precisa reorganizar os gastos. Então, vamos estabelecer novas prioridades em relação ao uso do nosso dinheiro.”

⚠️ A primeira frase apenas apavora, jogando as crianças num caos emocional. A segunda informa que existe um problema, mas, ao mesmo tempo, indica que ele está sendo equacionado.

👧 Com uma criança de 8 anos, é possível dizer: “Neste momento nós vamos priorizar as coisas que são mais necessárias para a nossa família. Algumas coisas que fazíamos antes vão precisar esperar um pouco. Até que essa fase seja superada, a nossa família vai precisar cuidar melhor das escolhas que faz com o dinheiro.”

👦 Com o filho de 11 anos, já dá para ampliar um pouco: “Quando a renda muda ou quando os gastos aumentam, as pessoas precisam rever as prioridades. Isso acontece em muitas casas. O importante é você saber que nós, os adultos, estamos tomando todas as providências para que isso seja resolvido. Vocês, os filhos, podem ajudar de muitas maneiras. Principalmente entendendo que nem todos os pedidos poderão ser atendidos como antes.”

📋 É prudente não transformar a conversa em uma reunião de prestação de contas. Os filhos não precisam conhecer o valor da dívida, o tamanho do salário, o custo do aluguel ou o peso das preocupações dos pais. São informações grandes demais para o universo infantil e podem gerar medo, culpa e uma sensação de responsabilidade que não pertence a elas

🛒 De outro lado, os filhos podem ser envolvidos na resolução do problema de maneiras bem simples: “Antes de ir ao supermercado, vamos fazer a lista de compras juntos?”; “Este mês nada de almoçar fora, combinado?”; “No próximo final de semana, vamos fazer um passeio bacana. Quem tem uma ideia de passeio gratuito legal?”

🎲 É importante também não deixar prosperar a ideia de que a vida ficou triste porque há menos dinheiro. A família pode reduzir gastos sem reduzir a alegria. Um lanche especial preparado em casa, um jogo de tabuleiro que andava esquecido no armário, caminhadas pelos parques, visitas a bibliotecas e museus ou um filme juntos ajudam as crianças a perceberem que nem todo prazer passa pelo consumo.

🧭 Por fim, nessas fases, mais que nunca, é fundamental sustentar os limites com tranquilidade. Não adianta anunciar “não podemos comprar” se o aviso vem embrulhado em culpa ou desespero. Nos momentos mais complicados, quase sempre basta uma frase firme, sem longas explicações: “Eu sei que você quer muito. Eu entendo. Mas nós já conversamos. Agora nós não vamos comprar isso porque temos outras prioridades”.

❤️ Em resumo, fale a verdade, mas uma verdade que caiba nos ombros dos seus filhos. Eles precisam saber que a família está passando por um momento que exige novas escolhas. Mas isso é muito diferente de sentir que o mundinho deles desabou.

🧵Ensinar que o dinheiro tem limite, que escolhas têm consequências e que uma família pode atravessar um momento difícil com calma e respeito pode funcionar para fortalecer os laços de afeto. E isso, como acontece com quase tudo que é realmente importante na vida, não há dinheiro que pague.

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Thiago Godoy - Educador financeiro, autor best seller, apresentador e fundador da @papaifinanceiro

💛 Antes de qualquer coisa, eu acho importante dizer que essa preocupação já mostra um caminho muito saudável. Infelizmente, muitos pais e mães acabam indo para extremos: ou escondem completamente os problemas financeiros (e a criança percebe que existe algo errado sem entender o que é) ou despejam toda a tensão, o estresse e a preocupação em cima dela. Nenhum dos dois caminhos ajuda.

⚖️ O mais importante é encontrar um meio-termo: não esconder a realidade, mas lembrar que ainda estamos falando de crianças. E isso significa adaptar a conversa para cada idade.

🧸 Com uma criança de 8 anos, eu faria uma conversa mais lúdica, mais baseada em analogias. Nessa idade, ela ainda não entende bem números, orçamento ou contexto financeiro. Então vale trazer imagens simples do cotidiano. Algo como: “Sabe quando o sorvete acaba antes e a gente precisa esperar outro dia para comprar de novo? Agora nossa família vai precisar escolher melhor algumas coisas por um tempo”. A ideia é transmitir a mudança sem gerar medo.

🧠 Já com uma criança de 11 anos, dá para ser um pouco mais direto. Não precisa entrar em detalhes pesados, mas já é possível dizer: “Estamos passando por um momento mais apertado e vamos precisar reorganizar algumas decisões”. Sempre deixando claro que isso não é para sempre e que existe uma saída.

🤝 Com os maiores, eu acho muito importante fazê-los se sentir parte da solução. Convidar a pensar junto: “Isso é uma necessidade ou uma vontade?”, “Dá para esperar um pouco?”. Isso ajuda a desenvolver responsabilidade sem colocar um peso excessivo sobre a criança.

🚫 Algumas coisas, porém, eu evitaria completamente. Não usar frases como “estamos pobres”, “não temos dinheiro para nada” ou transmitir uma sensação de desespero. É necessário ser positivo. A forma como os pais comunicam muda muito a sensação que a criança vai ter daquela situação.

🔒 Também não é adequado pedir segredo ou transformar a criança em guardiã dos problemas da família. E, em geral, falar valores exatos (“perdemos X mil reais”, “a conta custa tanto”) costuma fazer pouco sentido para crianças dessa idade.

🌱 O principal é mostrar que existe organização e direção. Que a família está fazendo ajustes, tomando decisões e atravessando uma fase temporária. A criança não precisa entender todos os detalhes financeiros, ela precisa sentir que os adultos continuam no controle da situação.

🏡 O que mais dá segurança para uma criança não é a ausência de problemas. É perceber presença, estabilidade, organização e confiança nos adultos que cuidam dela.

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