A crise no Supremo Tribunal Federal (STF) que colocou em lados opostos os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes funcionou como um fator de agregação para aliados do presidenciável Flávio Bolsonaro. O embate começou quando Mendonça levantou sigilo de relatório da Polícia Federal com mensagens em que o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, pede ajuda a Moraes, mas também busca a intervenção do magistrado junto ao chefe da Procuradoria-Geral da República, Paulo Gonet, e ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, para escapar do cerco das investigações.
Com a reação de Moraes, que usou um relatório de inteligência da PF para apontar suposta conduta criminosa de Mendonça, houve uma união de diferentes alas do bolsonarismo que rivalizam entre si. Exemplo disso é o discurso semelhante adotado pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, candidata a senadora pelo PL do Distrito Federal, e pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP). Michelle, que é aliada próxima de Mendonça e articulou junto com líderes evangélicos a aprovação do nome dele no Senado para a Corte, disse que o ministro é “ungido por Deus”. Eduardo, por sua vez, que tem criticado Michelle e falado que uma eventual vitória dela para o Senado seria ruim para o bolsonarismo, também elogiou Mendonça e comparou a atuação dele na relatoria do caso Master com o comportamento de Jair Bolsonaro na campanha de 2018, quando foi eleito presidente. Se por um lado há concordância de que Flávio terá como mote o enfrentamento ao STF e uma pressão para impeachment de Moraes, por outro, aliados do presidenciável divergem sobre a forma que esse enfrentamento pode ser feito. O senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio, chegou a comandar uma entrevista coletiva em que anunciou, ao lado de outros parlamentares bolsonaristas, que seria apresentado um novo pedido de impeachment de Moraes, além de pedidos para que o ministro fosse investigado. Apesar disso, o próprio Marinho decidiu não assinar o pedido de impedimento do ministro. Sem esconder a insatisfação, o advogado e ex-chefe da Secom de Jair Bolsonaro, Fabio Wajngarten, ironizou a falta de assinatura de Marinho. “Deve ser tendinite na mão que escreve. Deve ter entrado com atestado médico”. Uma reunião realizada entre Marinho e o ministro do STF Gilmar Mendes, aliado de Moraes, também provocou críticas de bolsonaristas que preferiam uma estratégia mais agressiva de críticas ao STF. Flávio Bolsonaro tem tentado reunir os diferentes grupos que o apoiam e passou a adotar a estratégia de centrar as críticas a Moraes enquanto fala que o Supremo, como instituição, deve ser respeitado. Interlocutores de Flávio Bolsonaro defensores da pressão para o impeachment de ministros do STF minimizam as divisões. Esses aliados avaliam ser natural haver diferentes modos de atuação dentro do mesmo campo político, mas dizem que todos estão unidos com o propósito comum de eleger Flávio para o Planalto, formar uma bancada grande de senadores e impor freios à Corte. Integrantes do PL dizem que Flávio e Marinho estão alinhados. Os dois, por exemplo, usaram o mesmo discurso quando o ministro do STF Flávio Dino reverteu o afastamento de Andrei Rodrigues do comando da PF, determinado por Mendonça, e disseram que o “STF virou várzea”. A falta de assinatura de Marinho no novo pedido de impeachment de Moraes não é encarada como algo que o desabone no entorno do presidenciável do PL. O grupo entende que o coordenador da campanha de Flávio buscou se resguardar de eventuais questionamentos que possam prejudicá-lo no futuro. Como não há uma previsão específica na Constituição para impeachment de ministros do Supremo, sendo regulamentado pela lei geral de impeachment, e esse processo nunca foi aberto pelo Senado para apurar crime de responsabilidade de ministros da Corte, há dúvidas sobre o procedimento. Integrantes da cúpula do PL dizem que há um temor que aqueles que assinem o pedido contra Moraes sejam impedidos de compor uma eventual comissão no Senado para analisar o caso e que, por isso, Marinho preferiu não assinar. Além disso, como o coordenador de Flávio busca ser presidente do Senado a partir do ano que vem, há um entendimento de que ele precisa de interlocução com integrantes de outros Poderes. – Nós todos temos capacidade de diálogo, mesmo com nossos adversários, desde que eles queiram. É da política, a política é feita de diálogo, a democracia também. O que não significa que, por que dialoga com ministros do STF, dê apoio a eles – disse o líder do PL no Senado, Carlos Portinho (RJ). O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), seguiu a mesma linha e disse que não há divergências. – Em política, diálogos e conversas sempre são bem-vindas Por outro lado, integrantes da ala mais radical de apoiadores de Flávio têm criticado a atuação e a estratégia de criar qualquer ponte de diálogo com o STF e qualquer setor que já se posicionou criticamente ao bolsonarismo. Esse grupo reconhece que Marinho exerce influência sobre Flávio, mas tem se queixado de algumas decisões. Além da reunião com Gilmar Mendes e da falta de assinatura no pedido de impeachment de Moraes, é atribuída a Marinho a decisão de Flávio de anunciar o médico Cláudio Lottenberg como ministro da Saúde caso ele vença a eleição. Lottenberg fez várias críticas a Jair Bolsonaro por conta da condução da crise do coronavírus. Irmãos de Flávio, Eduardo Bolsonaro e o ex-vereador e candidato ao Senado Carlos Bolsonaro (PL-SC) têm se alinhado a esse grupo que cobra um posicionamento mais combativo do presidenciável do PL. As queixas dessa ala a acenos para setores que já foram críticos ao bolsonarismo também recaem sobre a ex-presidente da Caixa Daniella Marques, principal assessora econômica de Flávio e que é apontada, junto com Marinho, como alguém que exerce forte influência sobre o candidato do PL. Procurados, Marinho e Daniela Marques não retornaram. Na terça-feira, sem citar nomes, Carlos Bolsonaro reclamou de pessoas do entorno do irmão que “o afastam de sua base”. “Flávio precisa entender que seu crescimento e sua eleição se devem ao seu pai, à rejeição à covardia, aos desmandos e às revelações do modus operandi de determinados setores do Judiciário e à ruína, tanto econômica quanto social, que Lula vem trazendo ao país”, disse. “Qualquer um de seu entorno que tente levá-lo para qualquer outra linha de raciocínio o afasta de sua base e o torna refém pós-eleitoral, como o sistema deseja”, completou.
O Globo