Antigo leprosário na floresta amazônica serve de cenário de uma hQ que faz a ponte entre passado e presente da região Houve uma época em que a hanseníase era chamada de lepra e tudo o que envolvia a doença era tratado com superstição, ignorância e medo.
Os acometidos pela infecção bacteriana, que no Brasil só passou a ter cura na década de 1980, eram segregados da sociedade, obrigados a abandonar suas famílias e seus bens e confinados nos chamados leprosários – o isolamento forçado foi lei federal de 1949 a 1986. Um desses leprosários, um antigo casarão no Amazonas, virou palco de uma história em quadrinhos que mistura passado e presente.
O prédio já não existe mais como outrora. O que se tem hoje são ruínas tomadas pela Floresta Amazônica.
Raízes grossas emolduram paredes e abraçam o que restou da construção, transformando a paisagem em uma espécie de encontro entre a natureza e a memória. Às margens do Rio Negro, a menos de 40 minutos de Manaus, a Vila de Paricatuba guarda, entre essas paredes tomadas pelo verde, uma história que o tempo não conseguiu apagar e que acaba de ganhar novos contornos nas páginas de um gibi escrito pelo cartunista, escritor e roteirista Romahs Mascarenhas.
Em Paricatuba, a Vila das Mil Histórias, um menino que mora em Manaus resolve viajar sozinho para conhecer a avó, que vive na vila. O que começa como uma procura familiar se transforma em uma jornada em busca de histórias, personagens e identidade de uma comunidade que resiste ao esquecimento.
Um misto de ficção e vida real. No século passado, o antigo casarão foi moradia de centenas de pessoas de toda a Região Norte para tratar a hanseníase.
Um isolamento que não atingia apenas o paciente, mas famílias inteiras, cujas vidas passaram a gravitar em torno do leprosário. Romahs Mascarenhas, roteirista da Mauricio de Sousa Produções desde 2011, traduz em quadrinhos uma história sobre pertencimento, afeto e ancestralidade.
No roteiro, o pai do protagonista nasceu em Paricatuba, mas deixou a vila e rompeu os laços com a mãe, que permaneceu na comunidade. O filho dele, curioso sobre a avó que nunca conheceu, decide fazer o caminho de volta.
Pega um ônibus, atravessa a ponte sobre o Rio Negro e segue pela estrada até chegar à vila. “Ele conhece uma prima, que o leva até a matriarca.
Nessa caminhada, eles vão encontrando moradores que contam um pouco da história da vila e do hospital”, descreve o quadrinista. “O gibi acaba sendo uma declaração de amor a Paricatuba”, completa.
A iniciativa do filho acaba reunindo novamente a família. Ao final, o pai, que nunca encontrava tempo para visitar a mãe, aparece de surpresa.
“O gibi acaba sendo uma declaração de amor a Paricatuba”, diz o cartunista Romahs Mascarenhas Mascarenhas diz que a história não se limita a recuperar o passado do leprosário.
Também procura mostrar a vila de hoje, seus moradores e seu modo de vida. A trajetória do menino, explica, traduz a importância de se reconectar com as próprias raízes e com a história do lugar de onde a família veio, por meio de uma combinação de pesquisa histórica, registros fotográficos, visitas à comunidade e conversas com moradores.
Uma professora da vila, que auxiliou o autor na pesquisa e o ajudou a esclarecer passagens da história local, foi retratada na publicação com o próprio nome: Veranilce Almeida. Os demais personagens reúnem referências históricas inspiradas na comunidade e criações ficcionais.
O gibi Paricatuba, a Vila das Mil Histórias foi lançado em setembro, durante uma programação especial que marcou a criação da Rota Turística Paricatuba, iniciativa que reúne ações voltadas ao Turismo de Base Comunitária (TBC), à valorização da história local e à geração de oportunidades para os moradores.
As atividades integram o Viva Paricatuba, projeto desenvolvido pelo Impact Hub Manaus nas áreas de turismo, capacitação, infraestrutura, comunicação e fortalecimento comunitário. A proposta, segundo a equipe do projeto, era contar a trajetória local de maneira lúdica, capaz de alcançar crianças, jovens e adultos.
A ideia é que o gibi funcione como uma porta de entrada para o patrimônio histórico e cultural de Paricatuba e desperte no leitor a vontade de conhecer o lugar. “O gibi surgiu como uma das entregas de um dos projetos do Impact Hub Manaus, que fomenta o Turismo de Base Comunitária na Vila de Paricatuba, visando o desenvolvimento do empreendedorismo local, com foco em fortalecer os aspectos econômicos, sociais e turísticos da região”, explica Maria Luyza, analista de comunicação do Impact Hub Manaus, ressaltando que a linguagem dos quadrinhos ajuda a aproximar crianças, jovens, moradores e visitantes do patrimônio e da cultura local.
A primeira edição da publicação foi impressa em preto e branco, com menos páginas do que o previsto inicialmente, para cumprir o prazo de lançamento. Inicialmente, os exemplares estão sendo vendidos no antigo leprosário, que hoje funciona como um ponto turístico local, com a intenção de manter a publicação vinculada à comunidade.
Diante do interesse despertado, os responsáveis estudam alternativas para ampliar a distribuição. Uma nova versão, colorida e com mais detalhes, está prevista para começar a ser desenvolvida em 2027.
A Vila das Mil Histórias marcou o lançamento da Rota Turística Paricatuba, com ações voltadas à valorização da história local e à geração de oportunidades para os moradores “A publicação estabelece uma relação entre patrimônio, natureza, cultura e memória, mostrando como esses elementos fazem parte da identidade do território.
O quadrinho permite apresentar informações históricas e culturais de forma acessível, incorporadas à trajetória dos personagens e à própria aventura, aproximando passado e presente”, afirma Marcus Bessa, um dos coordenadores do projeto. Para Mascarenhas, no gibi, a memória do leprosário ilumina as marcas deixadas pelo isolamento compulsório e a trajetória das famílias que permaneceram ligadas à vila.
Tanto que a aventura do neto em busca da avó vai além do hospital. Traz lembranças dos moradores e refaz laços familiares e costumes.
Ao percorrer esse caminho, o personagem principal encontra mais que a própria origem: devolve à vila o direito de contar sua história por inteiro. •
Publicado na edição n° 1438 de CartaCapital, em 11 de novembro de 2026. Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Memória em tiras’
Fabíola Mendonça Repórter correspondente de CartaCapital em Pernambuco Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu.
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