O resultado das urnas no primeiro turno, que colocou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em desvantagem na disputa com Flávio Bolsonaro (PL) pelo Palácio do Planalto, gerou na última semana uma discussão no PT e no governo sobre erros cometidos não só na campanha, mas ao longo do terceiro mandato do presidente.
Para aliados, muitos dos problemas que afloraram nos últimos dois meses da disputa presidencial marcaram toda a gestão do petista desde a sua volta ao poder, em 2023. Isso contribuiu para que um adversário visto inicialmente como fácil de ser batido pelo PT se transformasse agora em favorito para vencer a eleição no segundo turno.
Propaganda na TV: Lula endurece ataques a Flávio com caso Master; senador promete reajustar o Bolsa Família Segundo turno: Sidônio tira férias do governo para se dedicar exclusivamente à campanha de Lula
Havia uma expectativa no núcleo central de auxiliares de Lula de que seria fácil bater Flávio, já que o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro tem pouca experiência em disputas majoritárias, não repete o carisma do pai e ainda coleciona episódios controversos ao longo da carreira política, como a investigação arquivada sobre as “rachadinhas” de salários de servidores em seu gabinete quando era deputado estadual no Rio, a homenagem que fez naquele período ao miliciano Adriano da Nóbrega, além das recentes revelações de diálogos com o banqueiro Daniel Vorcaro sobre o financiamento do filme “Dark horse”.
Entre os aliados de Lula até foi baixada uma diretriz para não atacar Flávio inicialmente, para que o bolsonarismo não trocasse seu candidato. Porém, com o desenrolar da campanha, o PT não conseguiu desconstruir o candidato do PL como imaginava.
Houve também um erro de estratégia, publicamente reconhecido por Gilberto Carvalho, integrante da coordenação da campanha petista que foi chefe de gabinete de Lula em seus dois primeiros mandatos. — Erramos quando achávamos, e o próprio presidente também achava, que bastava fazer a comparação entre nossos feitos e os malfeitos deles.
Passamos grande parte da campanha para fazer o povo se informar daquilo que tínhamos realizado e falamos pouco de futuro. Isso foi mau — disse Carvalho, em uma plenária com militantes petistas realizada na última quarta-feira, em Brasília, segundo revelou o jornal O Estado de S.
Paulo. Depois do resultado do primeiro turno, também houve críticas a um suposto excesso de interferência da primeira-dama Janja da Silva, à atuação do presidente do PT e coordenador-geral da campanha, Edinho Silva, à linha de comunicação adotada na disputa e à do governo, conduzida pelo ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Sidônio Palmeira.
Um dos argumentos contra o chefe da Secom é que ele não conseguiu, nos quase dois anos em que está no cargo, fazer com que a gestão de Lula tivesse um saldo positivo na comparação entre avaliação e reprovação. Esse seria um dos principais problemas enfrentados pelo presidente na busca por seu quarto mandato.
Descontente com os rumos do governo, o eleitor teria ficado mais disposto a votar por mudança. Sidônio vai tirar férias a partir de amanhã para se dedicar exclusivamente à campanha.
A decisão ocorre em meio a cobranças internas por mudanças na estratégia petista. A informação foi publicada inicialmente pelo Estadão e confirmada pelo GLOBO com fontes que acompanham a campanha.
A Secom não respondeu. Aprovação é ponto-chave
Nas últimas semanas antes do primeiro turno, circularam entre petistas e integrantes do governo um gráfico com o histórico da avaliação do governo aferida pela Quaest ao longo de todo o mandato. Desde fevereiro de 2025, o saldo é negativo, com exceção de dois levantamentos em julho e agosto deste ano, que apontaram um saldo positivo de um ponto percentual.
O índice, porém, voltou a ficar negativo antes do início oficial da campanha. Na pesquisa divulgada na véspera do primeiro turno, esse saldo era de menos cinco pontos.
Sidônio argumenta que, apesar de não ter alcançado um saldo positivo, conseguiu melhorar os índices de avaliação desde que assumiu a Secom. Em março de 2025, dois meses depois da crise do Pix, na qual a oposição levantou acusações de que a forma de pagamento seria taxada, o saldo havia chegado a menos 15.
O diretor da Quaest, Felipe Nunes, lembra que a literatura de ciência política mostra que o eleitor tende a julgar retrospectivamente um governo: — Quando a avaliação é negativa, diminui a disposição para premiar a continuidade e aumenta a receptividade à mudança.
Isso é especialmente crítico em processos de reeleição. No Brasil, nenhum presidente conseguiu vencer ou fazer o sucessor com saldo negativo de avaliação.
Para aliados, as dificuldades para consolidar uma imagem positiva perante a população começaram já na formação do governo, que não refletiu a frente ampla montada para a eleição de 2022 com apoios do centro. Em entrevista ao GLOBO na semana passada, a ex-senadora Kátia Abreu, que se filiou ao PT e coordena a campanha de Lula no Tocantins, apontou que, apesar de o petista ter vencido Jair Bolsonaro por uma margem de apenas 1,8 ponto percentual, nada foi feito para ampliar esse apoio.
A ex-senadora destacou ainda que os principais ministérios não foram distribuídos para outros partidos e ficaram na mão do PT. Na avaliação de ministros e ex-ministros, a escolha de Rui Costa para comandar a Casa Civil, que é responsável por coordenar as demais pastas, também trouxe problemas.
O ex-governador da Bahia, que agora foi eleito senador, não teria mostrado empenho para se aprofundar nos temas em debate no governo nem conseguido definir uma linha estratégica para as ações da gestão, além de ter colecionado brigas na Esplanada. Para auxiliares do presidente, houve falta de critério na escolha de alguns ministros.
A forma como Paulo Pimenta foi parar no comando da Secom no começo do governo seria um exemplo disso. Pouco dias antes da posse, Lula recebeu o deputado petista no hotel em Brasília usado como QG durante o período de transição.
O então presidente eleito comunicou a Pimenta que o representante do Rio Grande do Sul no governo seria Edegar Pretto, que assumiria o Ministério do Desenvolvimento Agrário (a escolha depois foi revista). Pimenta então rebateu:
— Não, o representante do Rio Grande do Sul serei eu. Lula deu risada, disse que Pimenta não entendia nada de agricultura familiar e perguntou qual pasta ele poderia ocupar (Pretto foi criado em um assentamento rural).
O deputado gaúcho citou a sua formação de jornalista e afirmou estar credenciado para comandar a Secom. A ousadia deixou os demais presentes na sala perplexos, mas Lula acabou aceitando a autossugestão de seu aliado e o nomeou para a pasta instalada no segundo andar do Planalto.
Pimenta foi demitido em janeiro de 2025 para dar lugar a Sidônio depois de o presidente criticar publicamente a comunicação do governo em um evento do PT. Vaivém de medidas
A gestão ainda teve idas e vindas de medidas. Em agosto de 2024, Lula deu aval para a implantação da taxa das blusinhas, que previa uma alíquota de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 feitas em plataformas digitais.
A cobrança gerou desgaste para o governo captado em pesquisas da Secom. Em maio deste ano, o presidente editou uma medida provisória, dentro de um pacote de bondades eleitorais, para acabar com a taxa.
A regulamentação das bets, no início do governo, também acabou retirada em plena campanha diante da alta rejeição e o impacto sobre endividados. Auxiliares que despacham no Planalto lembram ainda que Lula demorou a se atentar ao problema do custo de vida.
O Globo