Mauro Vieira repudia “ameaça” de Flávio Bolsonaro ao Itamaraty e critica subserviência aos EUA: “nunca vi isso”

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

247 – O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, rechaçou com veemência a intenção de aliados do senador Flávio Bolsonaro (PL) de promover uma “faxina” na diplomacia brasileira e classificou como sinal grave a ideia de criar um comitê para alinhar posicionamentos internacionais com os Estados Unidos em caso de mudança de governo.

Às vésperas da votação decisiva do segundo turno, o chefe da diplomacia declarou que ações voltadas a desestabilizar o corpo diplomático atentam contra os interesses do país e sinalizam um esforço para desmantelar a pasta. “Eu nunca vi isso. Na história das relações diplomáticas, em meus 50 anos de carreira, nenhum país fez esse tipo de coisa. Você faz entre o governo que deixa e o governo que assume. Você cria uma equipe de transição para que seja passado. Isso é normal em todas as democracias. Agora, com um país estrangeiro, para quê? Para entregar antes do tempo, para se submeter? Isso eu acho que é um péssimo sinal”, apontou o diplomata em entrevista ao O Estado de São Paulo.

Na avaliação do ministro, representantes da administração de Donald Trump intervieram no processo eleitoral do Brasil. Ele ressaltou que a população definirá, por meio das urnas, a avaliação sobre interferências externas e os caminhos a serem seguidos pela nação. “Tomaram parte, tomaram um lado, fizeram fotografias. Hoje a imprensa está cheia de artigos dizendo que foram manipulados algoritmos em mensagens. Não sou especialista, não posso responder. Isto tudo só será decidido pelo povo brasileiro, pela vontade majoritária do povo brasileiro nas eleições no dia 25”, declarou.

O chanceler demonstrou profunda apreensão em relação aos discursos do grupo bolsonarista, que incluem retaliações como o envio de embaixadores para outros postos por supostas posições políticas. Vieira ponderou que o ambiente democrático exige o entendimento civilizado, e não imposições ostensivas contra os servidores públicos. “É péssimo. Primeiro porque não é a forma de se atuar. Numa democracia você não ameaça, você dialoga, conversa, negocia. Saiu publicado, com nome e sobrenome, na imprensa o que fariam, no caso de futura vitória, de estabelecer um comitê para coordenar as posições com os Estados Unidos”, destacou.

Ao contestar as intimidações feitas aos diplomatas, o ministro enfatizou a natureza permanente da instituição diplomática e a condição dos seus integrantes como quadros permanentes do Estado. Ele ponderou que o papel da diplomacia é vital diante do enfraquecimento global das instâncias multilaterais. “O Itamaraty é uma instituição de Estado, com uma carreira de Estado que é muito importante, sobretudo nesse momento em que o multilateralismo está sendo atacado. Qualquer iniciativa ou tentativa para destruir ou desarticular a estrutura do Itamaraty eu acho muito ruim. É ruim para o interesse nacional. É péssimo, para falar a verdade”, disse.

A despeito dos questionamentos levantados, Mauro Vieira pontuou que o governo do presidente Lula (PT) observará com rigor as normas da transição de poder caso a oposição saia vitoriosa no pleito.

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