As sete armas apreendidas pela Polícia Federal (PF) durante as buscas realizadas em endereços ligados ao deputado federal Mario Frias (PL-SP) não foram declaradas por ele no registro de sua candidatura na Justiça Eleitoral. O arsenal, com valor estimado em R$ 60 mil, foi encontrado por investigadores durante uma operação realizada ontem para apuração de detalhes do financiamento do filme "Dark Horse", que conta a história do ex-presidente Jair Bolsonaro. As suspeitas sobre a destinação da verba usada para custear a produção também levaram à abertura de um inquérito pela PF contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
O GLOBO ELEIÇÕES: Participe da comunidade e saiba tudo sobre as campanhas, debates e sabatina Leia mais: Paes promete ‘tirar o crime’ de dentro do governo, acabar com influência política nas polícias e repaginar Secretaria de Segurança Como mostrou a colunista do GLOBO Bela Megale, as armas apreendidas estavam registradas em nome de Frias, mas foram encontradas em outro endereço, diferente do declarado, e em situação irregular. Os armamentos também não foram incluídos na declaração de patrimônio feita pelo deputado no registro de sua candidatura para a reeleição na Câmara neste ano.
Ao todo, ele declarou à Justiça Eleitoral R$ 1,3 milhão, dos quais cerca de R$ 818 mil correspondem a créditos decorrentes de distratos de compromissos de compra e venda, além de R$ 400 mil gerados por investimentos e R$ 60 mil em saldos bancários. O deputado também informou que é dono de um carro do modelo Jeep Renagade, no valor de R$ 75 mil.
Entre os bens informados, no entanto, não estavam armas como a carabina (armamento longo) de calibre 9 mm, encontrada por investigadores com o registro no nome de Frias. Mais valiosa do arsenal do deputado, ela continha uma inscrição com a frase "Grand Power Made in Slovakia", além de estar equipada com lanterna e mira holográfica. O valor estimado do modelo no mercado é de R$ 20 mil a R$ 30 mil. Sob posse do deputado, também constava uma espingarda de cano duplo cortado no estilo "coach gun" (espingarda de mensageiro), historicamente usada na defesa de carruagens no Velho Oeste americano. O custo dela seria de cerca de R$ 3 a 5 mil. Os outros armamentos encontrados foram um revólver com empunhadura emborrachada, provavelmente de calibre .38, com custo estimado entre R$ 4 mil e R$ 6 mil, e quatro pistolas 9 mm, duas pretas, uma bege e uma bicolor, cujos preços variam entre R$ 4 mil e R$ 13 mil. O modelo das pistolas é comumente usado pelos policiais militares do país e passou a ser de uso restrito no governo Lula. Antes, no entanto, a posse e o porte chegaram a ser flexibilizados durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro, da qual Frias foi secretário da Cultura.
Durante o tempo de Frias no governo, surgiram relatos de que ele andava com uma arma na cintura, gesto visto por servidores como uma forma de intimidação, de acordo com uma matéria publicada pela Folha de S. Paulo na época. Em suas páginas em redes sociais, ele também aparecia empunhando armamentos. Em 2021, o então secretário chegou a publicar uma foto segurando fuzil ao lado de Eduardo Bolsonaro. Na postagem, anunciava a liberação de R$ 1,9 i via Lei Rouanet para restauração de patrimônio histórico, orquestras, museus e formação de artistas iniciantes, fazendo uma associação improvável de tópicos como arte, cultura e armas. Eduardo Bolsonaro e Mário Frias posam com fuzil em publicação sobre captaçao de recursos via Lei Rouanet Reprodução Após a operação da PF desta quinta-feira, da qual foi alvo, o deputado gravou um vídeo nas redes sociais para negar o comentimento de irregularidades na destinação de R$ 2 milhões em emendas parlamentares relacionadas a projetos que acabaram vinculados à produção de "Dark Horse".
— Se há alguma nota que a Controladoria-Geral da União quer ver, isso se resolve com documento, não com operação em ano de eleição. Cortina de fumaça — afirmou.
O Globo