247 – A cientista política Marina Lacerda afirmou, em entrevista ao programa Giro das 11, da TV 247, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva compreendeu as transformações políticas ocorridas no mundo e adotou uma estratégia para enfrentar a extrema direita, baseada na mobilização popular e na defesa dos interesses dos trabalhadores.
Segundo a pesquisadora, Lula deixou para trás a postura de conciliação que marcou sua chegada à Presidência em 2002 e passou a confrontar os interesses econômicos que, em sua avaliação, limitam a capacidade do Estado de promover políticas de distribuição de renda. “Lula tem uma genialidade e ele entendeu que o mundo mudou e ele está agindo de acordo com isso”, declarou Marina.
Para ela, a mudança representa uma resposta ao crescimento internacional da extrema direita, que se alimenta da insatisfação social e da descrença nas instituições democráticas. A pesquisadora explicou que a ascensão desses movimentos está relacionada às transformações econômicas das últimas décadas.
Nos Estados Unidos e na Europa, parte da população manifesta o desejo de recuperar as condições de vida existentes antes da desindustrialização. No Brasil, entretanto, a dinâmica apresenta características diferentes.
Segundo Marina, uma parcela dos eleitores que hoje apoiam o bolsonarismo é formada por pessoas que experimentaram mobilidade social durante os governos petistas, mas continuam insatisfeitas com suas condições de vida. “Elas melhoraram e querem mais”, observou.
A cientista política destacou que essa insatisfação está associada a demandas por salários maiores, estabilidade econômica, redução do tempo gasto no transporte e melhores condições de trabalho. O problema, segundo ela, é que a extrema direita transforma essas reivindicações em um discurso de ruptura com o sistema político, sem necessariamente apresentar políticas capazes de atender às expectativas da população.
Na avaliação de Marina, a extrema direita se fortalece ao estimular conflitos, desestabilizar o debate público e disseminar a percepção de que todos os representantes políticos são iguais. Essa estratégia permite que movimentos antissistema se apresentem como alternativas às instituições existentes, mesmo quando suas propostas econômicas não oferecem respostas às necessidades dos trabalhadores.
É nesse contexto que a pesquisadora identifica uma mudança na atuação de Lula. Ela lembrou que o presidente chegou ao terceiro mandato, em 2023, sustentado por uma coalizão que reunia setores do mercado financeiro, partidos de diferentes orientações e movimentos sociais, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
Embora essa composição tenha sido importante para a vitória eleitoral de 2022, Marina considera que também estabeleceu limites à atuação do governo. Ao longo do mandato, Lula precisou administrar as contradições entre as exigências de ajuste fiscal e a necessidade de ampliar políticas sociais.
A cientista política citou a aprovação da PEC da Transição, que permitiu a retomada de programas sociais, e a adoção do arcabouço fiscal como exemplos dessas tensões. Segundo ela, o governo procurou inicialmente conciliar os interesses dos diferentes grupos que sustentaram sua eleição, mas passou a enfrentar resistências quando avançou em medidas de redistribuição de renda.
A mudança de orientação, na interpretação de Marina, ocorreu quando Lula percebeu que a manutenção dessa conciliação poderia comprometer sua capacidade de disputar politicamente os trabalhadores com a extrema direita. “Ele verbalizou isso, que não dá para a esquerda se eleger como esquerda e governar para a direita, que é isso que faz a extrema direita crescer.
A esquerda tem que governar para os trabalhadores”, afirmou. Marina apontou a reforma do Imposto de Renda, com ampliação da isenção e maior tributação sobre os mais ricos, como uma expressão dessa estratégia.
Segundo ela, Lula passou a mobilizar diretamente a população em torno do conflito distributivo, apresentando a tributação e os gastos sociais como questões relacionadas aos interesses de diferentes classes sociais. A pesquisadora também mencionou a redução da jornada de trabalho e o enfrentamento das pressões por cortes de gastos como exemplos da decisão do presidente de priorizar demandas populares.
“Lula rompeu aquela coalizão de 2022”, avaliou. Para Marina, isso não significa que o presidente tenha abandonado o diálogo com outros setores da sociedade, mas que passou a estabelecer prioridades políticas.
“Ele sempre se propôs a dialogar, mas ele escolheu um lado. Ele escolheu um lado do trabalhador.”
Essa decisão, segundo a cientista política, tem consequências para a disputa eleitoral. Marina considera que setores empresariais e financeiros que apoiaram Lula em 2022 passaram a se aproximar da candidatura de Flávio Bolsonaro, enquanto o presidente busca sustentar sua campanha por meio da mobilização popular.
“Lula resolveu disputar a eleição só com o povo. É isso que Lula está fazendo”, declarou.
A pesquisadora destacou que essa estratégia também representa uma diferença em relação ao Lula de 2002, quando o então candidato procurou conquistar a confiança dos mercados por meio da Carta ao Povo Brasileiro. Naquele momento, o compromisso com a estabilidade econômica e a negociação com o setor financeiro ocupava uma posição central na campanha presidencial.
Agora, segundo Marina, Lula passou a questionar publicamente o poder exercido pelo mercado financeiro sobre as decisões políticas. Ela citou entrevistas concedidas pelo presidente ao Jornal Nacional, nas quais ele associou as pressões por redução dos gastos públicos aos interesses dos setores de maior renda.
“Essa coisa da confiabilidade do mercado é um instrumento de poder do mercado para regular a política, para que os trabalhadores dependam dessa confiança do mercado”, afirmou. Para Marina, o enfrentamento desse discurso constitui uma das diferenças entre a estratégia atual e aquela adotada pelo PT nas primeiras eleições presidenciais vencidas por Lula.
A cientista política entende que o presidente passou a disputar não apenas o apoio eleitoral, mas também a interpretação sobre o papel do Estado na economia e na distribuição da riqueza. Ela argumentou que os gastos públicos não podem ser analisados exclusivamente pela lógica das despesas familiares.
Na sua avaliação, o investimento estatal movimenta a atividade econômica, amplia o consumo e cria condições para a manutenção de empregos e pequenos negócios. Essa abordagem também procura responder a uma transformação na composição da classe trabalhadora.
Marina observou que o crescimento do trabalho autônomo, dos pequenos empreendimentos e das atividades mediadas por plataformas digitais enfraqueceu a identificação de parte da população com a condição de trabalhador. “Uma das grandes questões do mundo hoje é que o trabalhador não se vê mais como trabalhador”, explicou.
Segundo ela, pessoas que dependem da própria atividade para sobreviver frequentemente se identificam como empreendedoras, mesmo quando enfrentam problemas semelhantes aos dos assalariados. A pesquisadora considera que essa mudança cria dificuldades para a esquerda, que historicamente construiu sua identidade política em torno da representação dos trabalhadores.
Por isso, avalia que Lula procura ampliar seu diálogo com microempreendedores individuais, autônomos e pequenos empresários, associando as políticas de renda e emprego às condições de sobrevivência desses setores. Na reta final da eleição presidencial, Marina apontou as manifestações populares como um sinal de que a estratégia começa a produzir resultados.
Ela destacou a presença de apoiadores de Lula nas ruas, inclusive em cidades do interior onde o PT enfrenta dificuldades eleitorais. A cientista política mencionou especificamente Ponta Grossa, no Paraná, sua cidade de origem, como exemplo de mobilização em um município no qual a esquerda possui representação política limitada.
“Está funcionando. Agora, se isso vai ser suficiente para ganhar a eleição, nós vamos descobrir no domingo”, afirmou.
Marina ponderou que ainda não existe uma fórmula comprovada para derrotar a extrema direita, fenômeno que continua mobilizando parcelas do eleitorado em diferentes países. Nesse cenário, considera que Lula realiza uma tentativa de reconstruir a identificação entre a esquerda e os trabalhadores, colocando a disputa sobre distribuição de renda, direitos sociais e condições de vida no centro da campanha.
A pesquisadora também ressaltou que uma eventual vitória eleitoral precisará ser acompanhada por mudanças econômicas capazes de responder às expectativas da população. Para ela, a reindustrialização, a geração de empregos com melhores condições de trabalho e o planejamento estatal deverão ocupar um lugar central em um próximo mandato.
Na avaliação de Marina, o Brasil dispõe de universidades, recursos naturais e capacidade produtiva para avançar nessa direção, mas precisará transformar essas condições em políticas de desenvolvimento. Ao relacionar a disputa eleitoral às mudanças ocorridas na economia e na organização do trabalho, a cientista política concluiu que Lula procura construir uma resposta à extrema direita diferente daquela baseada na conciliação com o mercado financeiro.
O resultado eleitoral dessa aposta permanece incerto, mas, segundo ela, o presidente já demonstrou compreender que as condições políticas que marcaram sua primeira vitória, em 2002, não são mais as mesmas. “O Lula não é aquele Lula de 2002”, sintetizou Marina.
“Ele entendeu que o mundo mudou e está agindo de acordo com isso.”
Brasil 247