Marcelo Gleiser: 'O sonhos transumanistas dos bilionários seriam cômicos se não fossem trágicos'
O físico e best-seller brasileiro Marcelo Gleiser desembarca nesta semana que vem no Brasil onde participará de várias apresentações no São Paulo Innovation Week. Na bagagem traz uma preocupação: o futuro da ciência sonhado pelas pessoas mais ricas e poderosas do mundo é ao mesmo tempo uma noção de realidade delirante e distópica.
"Os sonhos transumanistas dos bilionários que acham que vão viver para sempre seriam cômicos se não fossem trágicos", disse, criticando Peter Thiel, Jeff Bezos. Elon Musk e cia. limitada.
Para ele, é preocupante ver essas figuras do empresariado falando em coisas como colonização espacial e "upload de consciência" tomarem o lugar de sonhar o futuro científico da humanidade, um imaginário antes trabalhado mais por cientistas e escritores.
Em entrevista ao GLOBO, Gleiser fala sobre o que mais o encanta e o aflige nos tempos tempos em que astronautas ensaiam pousar na Lua outra vez, e bilionários planejam um 'colonialismo' espacial.
O que você preparou para sua apresentação em São Paulo?
Eu vou falar principalmente sobre a questão de o que é consciência diante da inteligência artificial e vou falar falar um pouco das fantasias transumanistas dos bilionários que acham que vão viver para sempre. Até que ponto isso é baseado em ciência? Quero alertar as pessoas do perigo do que eu chamo de escravidão digital, que você não cair vítima dos algoritmos que tentam basicamente te sugar para um buraco negro em que você entra naqueles algoritmos e passa horas ali fazendo um scrolling de um vídeo após o outro. Quanto mais você se aprofunda em um determinado assunto, mais vem esse assunto, então você começa a se isolar intelectualmente e socialmente.
Então vou falar um pouco sobre essas coisas, mas também muito sobre os perigos sociais e principalmente econômicos da dependência da inteligência artificial no mercado de trabalho. Vai ter uma coisa mais prática, uma coisa mais filosófica e depois uma coisa com relação a às ideias do Sam Altman, do Peter Thiel e dessa turma aí. Os sonhos transumanistas dos bilionários que acham que vão viver para sempre seriam cômicos se não fossem trágicos.
Cinquenta anos atrás, quem pensava o futuro da humanidade eram autores como Carl Sagan e Isaac Asimov. Esse imaginário foi capturado por esses empresários — incluindo Elon Musk e Jeff Bezos — que estão prometendo colonizar o espaço?
Pois é. Isso me preocupa muito, porque o que eles têm são propostas completamente diferentes das do Carl Sagan, que nunca disse que o futuro da humanidade era no espaço. Ele dizia que é possível viajar mais pelo espaço, mas a ideia de colonizar Marte não é uma coisa que ele defendia.
Muito pelo contrário, ele escreveu sobre o famoso Pálido Ponto Azul, em que conta da importância fundamental do nosso planeta, de como ele é diferente dos outros, de como a vida evoluiu aqui para estar adaptada a essa realidade.
Sair daqui para morar em outro planeta é uma coisa completamente absurda em termos técnicos e práticos. Num foguete, os astronautas saem levando com eles uma mini-atmosfera. Eles têm que levar um pedacinho da Terra com eles — ar, água, comida, gravidade — senão eles morrem.
Quando esses bilionários dizem que a humanidade vai colonizar o espaço, isso soa estranho, primeiro, porque não é a humanidade quem vai. Vamos supor que a gente faça uma colônia em Marte. Quantas pessoas vão ficar lá? Cem? Mil? Dez mil? Um milhão? E os outros oito bilhões?
O que acontece com essa turma que fica aqui? Então, tem uma coisa muito falsa com relação a isso, de achar que esse é o destino da humanidade, e também tem um viés religioso, além de 'colonialista'.Isso é uma forma de eles dizerem: 'Nós, que somos os novos deuses na Terra, vamos oferecer ao resto da humanidade um novo paraíso nos céus'. Eles se acham os profetas que vão definir qual é o futuro da humanidade porque eles têm poder aquisitivo para isso.
Isso é extremamente perigoso, porque os interesses deles não estão com o resto da humanidade. São interesses só deles. É isso que está por trás quando se fala de 'transumanismo': a ideia de que é possível para o ser humano estender a vida indefinidamente a partir da inserção de tecnologias no corpo humano. Eles propõem fazer isso, por exemplo, com a transição da nossa mente para uma máquina, o que nos tornaria imortais, de uma maneira até meio 'vampírica'. O Bryan Johnson, outro que diz querer viver para sempre, recebe transfusões de sangue do filho para ter um sangue 'mais jovem'.
E esses bilionários que já controlaram a atenção das pessoas, agora querem controlar o afeto, através da relação do ser humano com a inteligência artificial. Defendem a ideia de que você pode se apaixonar por um algoritmo. Já tem um monte de gente uma máquina que não tem nada de humano para fazer terapias ou para fazer companhia. É uma ideia extremamente perigosa.
Você tem algum entusiasmo com o programa Artemis para retorno à Lua? Não é é uma repetição anacrônica do programa Apollo, uma caricatura?
Eu tinha 10 anos quando o Neil Armstrong pousou na Lua, em julho de 1969. Vi pela televisão, e nunca mais esqueci daquele momento, porque foi uma coisa muito emocionante. Eu posso dizer que também fiquei emocionado com essa nova aventura da humanidade de tentar voltar para a Lua em 2028.
Esse primeiro voo tripulado agora foi para orbitar a Lua, como um teste, não para pousar, mas me emocionei ao ver a reação dos astronautas quando eles estavam contornando a Lua e viram o 'pôr da Terra', ou seja, a Terra se ocultando atrás da Lua.
Essa viagem provocou neles o mesmo efeito que outros astronautas relataram ao ver a Terra como um todo, algo que só dá para fazer a partir de uma certa distância no espaço. Isso impactou eles emocionalmente e espiritualmente. Até hoje só doze pessoas tinham passado por essa experiência, no programa Apollo, e agora temos mais quatro.
Deixando um certo 'colonialismo' de lado, eu acho que a gente tem muito a aprender com a exploração espacial que Artemis promove. Mas obviamente, esses bilionários não estão querendo aprender, eles estão querendo vender: pensam em mineração espacial, turismo espacial, bases militares espacias...
O que encanta na Artemis é esse lado, digamos, mais poético, de ir para o espaço e olhar para a Terra de uma outra maneira, talvez inspiradora, que nos mostra quão frágil é esse nosso planeta.
Seu estudo mais recente fala em buscar novas maneiras de achar planetas que abrigam vida, em outros sistemas estelares. Vai ser possível finalmente fazer isso com os telescópios mais modernos?
Para saber se existe vida nesses planetas, a gente tem que olhar para as atmosferas deles e comparar a composição química com a atmosfera da Terra. O que eu e meus coautores apresentamos em dois ou três artigos recentes é uma metodologia para fazer essa comparação de forma mais rápida, é quase que um algoritmo para identificar planetas candidatos a ter vida. Isso vai ser importante quando tivermos uma mostragem de, talvez, mil exoplanetas com uma leitura precisa da composição química da atmosfera, como a que o Telescópio Espacial James Webb está começando a fazer de forma mais crível. Em 2030 vamos ter também o Extremely Large Telescope (ELT), no Chile, para isso.
Quando um exoplaneta passa na frente de uma estrela, parte da luz dela é absorvida pela atmosfera dele, e o padrão de absorção depende da composição química ali. Assim, é possível saber que gases a atmosfera daquele planeta tem.
Se você olha para um planeta e vê que ele tem massa parecida com a da Terra, está orbitando uma estrela parecida com o nosso Sol, tem gás carbônico, metano e ozônio, é porque provavelmente existe vida nele. Isso é a assinatura de uma atmosfera fora de equilíbrio, e nós sabemos que a vida força a composição química da atmosfera a ficar fora de equilíbrio.
Responder a essa pergunta um dia será incrível, porque qualquer resposta sobre se existe vida fora da Terra será fantástica. Se a resposta for 'não', significa que a Terra é o único planeta com vida no universo conhecido. Isso é ao mesmo tempo incrível e assustador. Se a resposta for 'sim', também é algo fantástico, e você começa a pensar, que vida seria essa.
Seus livros sempre mostraram sua preocupação em entender os limites da ciência. A incerteza que existe na ciência, porém, hoje é usada por alguns grupos que a atacam, como como o movimento antivacina, os terraplanistas e outros que espalham desinformação. A defesa enfática de uma ciência mais humilde acabou sendo um tiro pela culatra?
Essa é uma pergunta complexa, porque nos deixa mesmo divididos. Por um lado, como cientista, passei a vida inteira mostrando para as pessoas o quão maravilhosa e poderosa é a ciência. Só que a gente não pode usar a ciência como definição de verdade, porque a ciência é um processo. É um processo que está sempre se refinando, no qual a gente vai aprendendo cada vez mais sobre o mundo. E quando aprendemos mais, surgem novas perguntas que a gente não poderia ter antecipado.
Atribuir à ciência o poder de determinar a verdade é justamente o que está por trás do domínio das tecnologias na vida moderna. Os bilionários querem viver pra sempre porque acham que a ciência pode promover isso. Mas é uma besteira: ninguém vai viver pra sempre.
É preciso equilibrar as duas coisas. Em termos de aferição de como o mundo funciona e de criação de tecnologias, é óbvio que a ciência é a nossa linguagem mais poderosa. Ela é a nossa metodologia mais poderosa. Se não fosse, a gente não teria mandado pessoas para a Lua nem teria desenvolvido vacinas. Isso tudo tem que ser celebrado.
O meu medo é que aquilo que eu chamo de 'cientismo': achar que a ciência pode responder a todas as questões que existem e resolver todos os problemas da humanidade. Um exemplo é um discurso que está se proliferando quando se fala que não precisamos nos preocupar com aquecimento global porque podemos desenvolver tecnologias de sequestro de carbono. É a crença de que 'a ciência sempre encontra uma saída'.
Essa mentalidade faz com que a humanidade deixe de promover as políticas de proteção ambiental e as tecnologias para energias alternativas ao petróleo, dando a falsa esperança de que ciência pode resolver esse problema só com tecnologia.
Esse 'cientismo' não é uma crença, de certa forma, mística?
Sim. Um lado desse pensamento é o de querer transformar a ciência em Deus. Se a ciência conquistar a morte, o ser humano então ficaria equiparado a um deus imortal. Mary Shelley escreveu Frankenstein há 200 anos justamente para alertar as pessoas do exagero de acharmos que a ciência pode resolver tudo. Meu medo é que esse tipo de falsa promessa enfraqueça a ciência em vez de fortalecê-la. Meu medo é que as pessoas achem que as soluções tecnológicas são as únicas soluções possíveis para os problemas da humanidade.
Existe um problema ideológico sobre como a gente deve lidar com o planeta, e eu prefiro abrir o jogo agora e arcar com as consequências dessa minha postura, que não é só minha, porque que tem um movimento que está crescendo nessa direção. Basicamente é uma tentativa de reumanizar a ciência em vez de endeusa-la.
