É uma lenda dos automóveis. O Citroën 2CV, o “fusquinha francês”, começou a ser projetado em 1937, antes da II Guerra, e só chegou ao mercado depois do conflito.
Apresentado ao público no Salão do Automóvel de Paris de 1948, conquistou os motoristas do país europeu por duas razões: era econômico e fácil de manter. As diretrizes para sua criação lembravam uma receita de cozinha: o carro deveria transportar quatro pessoas e 50 quilos de batatas a até 60 quilômetros por hora, com uma suspensão capaz de enfrentar estradas rurais sem quebrar os ovos que porventura estivessem a bordo.
Deu certo. Apesar da potência limitada, o modelo democratizou a mobilidade na França e ajudou a impulsionar a indústria.
Sua produção durou até 1990, quando a última unidade saiu da fábrica de Mangualde, em Portugal, com quase 4 milhões de carros ao longo da história. Os executivos da Citroën juraram jamais ressuscitar o modelo icônico, para mantê-lo na memória.
Mas promessas existem para ser descumpridas: a marca, hoje parte do grupo Stellantis, anunciou o retorno do Deux Chevaux, com roupagem tecnológica, em 2028. No Salão de Paris, no início do mês, a fabricante mostrou o 2CV Concept, que reinterpreta o clássico, agora elétrico.
O carro homenageia o passado em detalhes como os pedais com símbolos de animais, o cesto de piquenique e os porta-ovos nas portas. O preço inicial sugerido é de cerca de 15 000 euros, ou aproximadamente 90 000 reais, e a promessa é manter o ideal de facilidade de reparo, eficiência energética e conforto.
CROSSOVER – O novo 4 E-Tech, da Renault: decalcado do 4L, de 1961Divulgação/. Pressionadas a acelerar a transição ecológica, de olho no respeito ambiental, as montadoras descobriram um modo de casar o ontem e o amanhã, tendo a nostalgia como bateria de longa duração.
O salão parisiense serviu de palco para o lançamento de outros conceitos e modelos que ressuscitam ícones das ruas europeias. A Renault revelou o 4 E-Tech, que evoca o 4L, de 1961, com mais de 8 milhões de unidades vendidas.
A estratégia: embalar tecnologia de ponta em formatos familiares para suavizar o impacto da eletrificação em massa, colocando um freio no medo do novo, que sempre existe. Continua após a publicidade
Do outro lado do Atlântico, porém, a fórmula esbarra em limites econômicos mais profundos. A Volkswagen apostou alto na volta de sua lendária Kombi, batizada nos Estados Unidos de Microbus e transformada na ID.
Buzz. Construída sobre uma plataforma elétrica e oferecida com até três fileiras de bancos, a van alemã traz mimos como teto solar panorâmico com vidro inteligente eletrocrômico e console removível.
Contudo, com preços nos Estados Unidos que partem de cerca de 60 000 dólares e passam de 71 000 nas versões mais caras, o modelo registra vendas fracas. Com autonomia modesta, de cerca de 375 quilômetros, a ID.
Buzz expõe o dilema das grandes marcas: transformar um ícone historicamente barato em veículo de nicho, com preço de utilitário de luxo. É uma receita que costuma afastar o público de massa.
Enquanto a gigante alemã tropeça na escala industrial, a oficina californiana Kindred Motorworks mostra que há um mercado lucrativo na eletrificação artesanal para ressuscitar a Kombi. Em vez de criar um carro do zero, a empresa americana pega veículos das décadas de 1950 e 1960 e os converte na versão Deluxe de 23 janelas, preservando o teto de lona e o para-brisa bipartido Safari.
Sob a lataria vintage, o motor original refrigerado a ar dá lugar a um motor elétrico mais potente e a uma bateria com 320 quilômetros de autonomia. Com freios a disco nas quatro rodas, suspensão independente, cabine revestida de couro e mesa de bambu, o Kindred Electric VW Bus custa 249 000 dólares.
Não se trata de mobilidade urbana, mas de um item de colecionador, que elimina os solavancos, os ruídos e os vazamentos de óleo da experiência retrô. Continua após a publicidade
SÍMBOLO – O modelo Kindred Electric: a Kombi renascidaDivulgação/. Seja pela via da produção em massa de baixo custo, seja pela do luxo restomod (clássico restaurado com mecânica moderna), a renascença elétrica dos clássicos revela que o apelo estético do século XX se tornou um ativo estratégico para o século XXI.
As montadoras descobriram que, para vender o futuro da mobilidade, às vezes é preciso espelhar as memórias do que vivemos. Resta saber se o consumidor, diante da escolha entre o pragmatismo acessível dos franceses e os preços salgados das peruas elétricas americanas, considerará que a nostalgia sobre rodas vale o preço da etiqueta.
Continua após a publicidade Publicado em VEJA de 30 de outubro de 2026, edição nº 3019
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