Mapa do Crime revela endereços recordistas de roubos em São Paulo: rua boêmia em Pinheiros, estádio da Portuguesa e avenida alvo da gangue 'quebra-vidros' lideram; veja lista

 

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Já era madrugada quando Clodoaldo Oliveira, de 45 anos, parou o carro num semáforo na Avenida do Estado, no Centro de São Paulo. O professor de Educação Física — que voltava para casa com a namorada após jantar com amigos, em março do ano passado — lamentou quando viu o sinal vermelho: quem passa por ali sabe que a via, importante ligação entre o centro da capital e o Grande ABC, é conhecida pela atuação de ladrões.

Bastaram poucos segundos para que um homem se esgueirasse pela lateral do veículo e, usando uma barra de ferro, quebrasse o vidro do carona, cobrindo os dois de estilhaços. Aproveitando o susto, o assaltante enfiou o braço pela janela, pegou o celular de Clodoaldo e saiu em disparada. O professor ainda tentou persegui-lo, mas desistiu quando ele entrou num beco escuro.

— Depois, até chamei a polícia, mas eles disseram para eu não fazer o BO na delegacia, que não ia resolver nada e ia dar trabalho para eles — conta Clodoaldo.

Apesar de o professor não ter feito o registro do crime, outros 314 casos de roubos de celular na Avenida do Estado foram relatados à polícia em 2025, revela o Mapa do Crime de São Paulo, ferramenta interativa que O GLOBO lança hoje com dados inéditos de assaltos na maior cidade brasileira, com recortes por tipos, marcas e cores dos bens subtraídos. O número coloca a via no topo da lista de ruas da cidade com mais casos do tipo, após dois anos subindo posições no ranking — em 2023, era a oitava mais perigosa; em 2024, a quinta.

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Já a via mais perigosa para motoristas e motociclistas é a mesma: em 2025, segundo o Mapa do Crime, a Estrada do M'Boi Mirim contabilizou o maior número de roubos de carros e de motos entre todos os logradouros paulistanos — com 44 e 47 ocorrências, respectivamente. Nos dois anos anteriores, a via, que corta a Zona Sul, já liderava o ranking de ataques a motoristas. É a primeira vez desde 2023, no entanto, que ela figura também entre as dez vias com mais roubos de motocicletas.

Também fica na Zona Sul o logradouro mais perigoso para pedestres, a Estrada de Itapecerica, que registrou 212 roubos de rua — que englobam subtrações de carteiras, colares, alianças e relógios, entre outros bens. A via corta Campo Limpo e Capão Redondo, os dois distritos com mais ocorrências do gênero desde 2023, e têm fluxo intenso de pedestres, com muitas estações de metrô e pontos de ônibus.

Grafico 1 - Dia 1 - Mapa do Crime SP (v4)

Arte O GLOBO

Quando Clodoaldo foi roubado na Avenida do Estado, seu celular, um Samsung Galaxy A31, estava preso ao console do carro, mostrando um aplicativo de GPS. Com a tela desbloqueada, o ladrão teve acesso aos aplicativos bancários e de mensagens — e tentou aplicar golpes financeiros, que seriam bem sucedidos se o professor não tivesse conseguido alertar seus contatos. O caso de Clodoaldo não é isolado: uma investigação da polícia paulista revela que quadrilhas especializadas em fraudes bancárias fomentam a expansão da modalidade “quebra-vidros”, a mais temida pelos paulistanos hoje.

O inquérito foi desencadeado a partir do roubo do celular de um procurador do estado, que teve o vidro de seu carro quebrado em julho de 2025, no Viaduto do Glicério, que passa sobre a Avenida do Estado. Após o GPS acusar que o aparelho havia sido levado para um edifício no Centro, a polícia foi ao local e descobriu um apartamento que funcionava, ao mesmo tempo, como um “ninho” de aparelhos roubados e uma central de fraudes bancárias — onde foram apreendidos celulares, chips de telefonia e máquinas de cartão.

Com base nas quebras de sigilo dos receptadores, a polícia descobriu que eles encomendavam aos ladrões aparelhos com a tela desbloqueada. A demanda por celulares prontos para serem acessados levou os criminosos a mudarem o modo como praticavam os assaltos: ao invés de abordarem pedestres com facas ou armas, passaram a quebrar os vidros de carros e surpreender as vítimas com os aparelhos em uso.

Após os crimes, os aparelhos eram levados imediatamente ao QG do bando para que começasse a fase do desfalque financeiro. Já os assaltantes eram pagos com uma porcentagem do valor retirado das contas das vítimas. Num caso em que os criminosos conseguiram transferir R$ 19.800, o ladrão ficou com R$ 9.360 — e ainda reclamou do valor, queria a metade do total. Ao todo, a quadrilha causou um prejuízo de quase R$ 1 milhão a pelo menos 25 vítimas identificadas — 19 delas foram roubadas por criminosos que quebraram o vidro de seus carros. Em outubro do ano passado, seis dos integrantes da quadrilha viraram réus na Justiça de SP.

Grafico 2 - Dia 1 - Mapa do Crime SP (v5)

Arte O GLOBO

A atuação das gangues “quebra-vidros” mudou a dinâmica de roubos de celular pela cidade: no topo da lista de ruas com mais ocorrências, vias conhecidas pelo fluxo de pedestres no Centro deram lugar a logradouros com tráfego intenso de veículos em outras regiões. É o caso da Avenida Paulista, que liderava o ranking de casos em 2023, foi vice-líder em 2024 e despencou para a décima colocação em 2025. Por outro lado, uma via localizada na periferia com perfil semelhante à Avenida do Estado, com congestionamentos quilométricos em boa parte do dia, chegou pela primeira vez entre as cinco com mais casos em 2025: a Estrada do M’Boi Mirim, na Zona Sul, com 201 ocorrências.

A atuação das gangues “quebra-vidros” também mudou o padrão de horários de roubos de celular. Pouco mais de um quinto do total de casos registrados na Avenida do Estado em 2025 aconteceu num intervalo de apenas três horas, entre as 18h e 21h, horário da volta para casa — e de congestionamentos quilométricos, que, segundo a polícia, facilitam o trabalho desses criminosos. Já em 2023, o pico de casos na via recordista, a Paulista, acontecia entre 20h e 23h, quando o fluxo de pessoas pela via diminuía.


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Os dados do Mapa do Crime também escancaram como a criminalidade se concentra em poucos nacos de São Paulo. No caso dos roubos de celular, um quarto de todas as ocorrências de 2025 aconteceu em apenas 3,7% da área total da capital — que engloba o Centro expandido, poucos quarteirões em Pinheiros e um corredor na Zona Sul entre os distritos do Capão Redondo, Campo Limpo e Jardim Herculano.

Um reduto boêmio é o ponto de maior concentração de roubos de celular no ano passado: o triângulo formado pelas ruas Álvaro Anes, Cunha Gago e Edson Dias, na região apelidada de Baixo Pinheiros, que abriga quase uma dezena de bares lotados aos finais de semana, está na circunferência com 100 metros de raio com o maior número de ocorrências de toda a cidade, 132 ao todo.

O endereço exato que registrou mais subtrações de aparelhos pelo segundo ano seguido foi o do Terminal Rodoviário do Tietê (Avenida Cruzeiro do Sul, 1800), por onde passam diariamente 90 mil pessoas que chegam e deixam São Paulo, com 48 casos. O segundo colocado é o Estádio do Canindé, casa da Portuguesa, conhecido por abrigar shows e eventos universitários, que registrou 46 roubos.

Os roubos de carro e moto seguem um padrão parecido: os pontos quentes das duas modalidades ficam predominantemente na Zona Sul. No caso dos ataques a motoristas, os quatro endereços que concentram mais casos em raios de 500 metros ficam todos num mesmo distrito da região, o Jardim Herculano, num corredor que começa na Avenida dos Funcionários Públicos até a Estrada do M'Boi Mirim.

O endereço recordista de ocorrências é o Hospital Municipal de Parelheiros (Rua Euzébio Coghi, 841), no extremo Sul, onde oito casos foram registrados. Já quando os alvos são motociclistas, sete dos dez pontos com maior número de casos também ficam na Zona Sul. O recorde fica na circunferência com raio de 500 metros nos arredores do encontro da Estrada Pirajussara Valo Velho com a Avenida Carlos Lacerda, no Capão Redondo.

Os principais focos de roubos de rua na cidade seguem no Centro Histórico, mesmo com a queda nos registros da região. O raio de 100m no entorno do encontro da Rua São Bento com a Praça do Patriarca é o mais perigoso de São Paulo para esse tipo de crime, com 64 registros em 2025. Ao longo dos anos, os pontos recordistas migraram apenas alguns quarteirões: em 2024, a maior concentração foi na Avenida São João, na altura do Largo do Paissandú, e no ano anterior foi na Praça da Sé

Procurada, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) informa que trata o combate ao roubo do tipo “quebra vidro” como prioridade. Segundo a pasta, a atuação envolve “policiamento ostensivo direcionado em eixos viários críticos, análise de padrões de horário e local”, além de ações voltadas à identificação de autores reincidentes e à repressão da receptação, “especialmente quando os aparelhos são usados para golpes financeiros”, diz a secretaria (veja posicionamento completo ao fim da reportagem).

Segundo a pasta, desde 2023 as polícias civil e militar prenderam mais de 50 mil suspeitos desse tipo de crime e afirma que os roubos de celular apresentaram queda de 20% no primeiro bimestre de 2026, enquanto os roubos em geral caíram 28,6% “atingindo os menores patamares dos últimos 25 anos”. A SSP também afirma que acompanha a dinâmica criminal de pontos críticos em ocorrências de roubos e que usa os dados georreferenciados para identificar hotspots e acompanhar a evolução desses locais ao longo do tempo e “orientar tanto o policiamento preventivo da Polícia Militar quanto a priorização investigativa da Polícia Civil”.

A prefeitura de São Paulo informa que a Guarda Civil Metropolitana tem intensificado as ações de patrulhamento em eixos viários da região central com objetivo de coibir modalidades como o “quebra-vidro”.

O que é o Mapa do Crime de São Paulo?

O Mapa do Crime de São Paulo foi produzido a partir de microdados de 330 mil boletins de ocorrência disponibilizados pela Secretaria da Segurança Pública (SSP) do estado. Ao contrário do Rio, São Paulo torna públicas as coordenadas e os nomes das ruas das ocorrências. O levantamento cobre roubos ocorridos entre 2023 e 2025. Diferentemente do governo paulista, O GLOBO usou a data do fato — e não a do registro na polícia. Assim, um roubo ocorrido em 31 de dezembro e registrado no dia seguinte é contabilizado no ano correto. Erros de grafia e inconsistências nos dados foram corrigidos com auxílio de inteligência artificial.

Disponível no site do jornal, com acesso pelo computador, celular ou tablet, a ferramenta permite navegar por uma compilação inédita de dados de roubos na capital, com filtros sobre tipos, marcas e cores dos bens subtraídos.

Para usá-la, busque o endereço da sua casa, do trabalho ou de qualquer outro ponto da cidade e escolha um dos quatro tipos de crime disponíveis: roubo de celular, de carro, de moto e de rua — esse último inclui carteiras, colares, alianças e relógios levados de pedestres. Cada ponto no mapa corresponde a uma ocorrência e, ao ser clicado, mostra detalhes do crime e dados sobre a rua: total de casos em 2025, série histórica dos últimos três anos, bens mais roubados ali e um mapa de calor com horários e dias de maior incidência. Também é possível refinar as buscas por tipo, marca e cor do bem roubado — para descobrir, por exemplo, quantos HB20 brancos foram roubados em determinada via — ou navegar por um ranking de ruas.

Posicionamento da SSP

A Secretaria da Segurança Pública monitora de forma permanente as variações das modalidades de roubo de celular, incluindo o chamado “quebra vidro”, que tende a se concentrar em vias com retenção de veículos, grande fluxo e possibilidade de evasão rápida. Esse tipo de crime é tratado como prioridade, devido ao impacto direto na sensação de segurança da população.

A atuação envolve policiamento ostensivo direcionado em eixos viários críticos, análise de padrões de horário e local, além de ações investigativas voltadas à identificação de autores reincidentes e à repressão da receptação, especialmente quando os aparelhos são usados para golpes financeiros. Desde 2023, as polícias Civil e Militar já prenderam mais de 50 mil suspeitos nesse contexto, enquanto os indicadores criminais apresentam queda relevante.

No primeiro bimestre deste ano, os roubos de celulares diminuíram 20% na capital paulista, enquanto os roubos em geral caíram 28,7% no mesmo período, atingindo os menores patamares dos últimos 25 anos.

A análise da mancha criminal é uma ferramenta central no planejamento operacional. A SSP utiliza dados georreferenciados dos boletins de ocorrência para identificar hotspots, acompanhar sua evolução ao longo do tempo e orientar tanto o policiamento preventivo da Polícia Militar quanto a priorização investigativa da Polícia Civil.

Essa abordagem permite ajustes dinâmicos na alocação de recursos conforme o comportamento dos indicadores. A atuação integrada entre as polícias Civil e Militar possibilita respostas mais rápidas e focadas, tanto na prevenção quanto na repressão qualificada, com prioridade para a identificação de autores reincidentes e a desarticulação de cadeias criminosas.

*Estagiária sob a supervisão de Rafael Soares