Sem diesel e com luz 24h: Amazônia troca diesel por energia solar

 

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A Amazônia brasileira abriga uma imensa diversidade de fauna e flora e desempenha papel essencial para o equilíbrio climático global, ao funcionar como um grande reservatório de dióxido de carbono. O país também possui a matriz elétrica mais limpa entre os integrantes do G20, graças à forte presença de hidrelétricas, muitas delas localizadas na própria região amazônica.

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Apesar disso, muitas comunidades da Amazônia não estão conectadas ao sistema elétrico nacional. Em áreas remotas, sem acesso por estradas, a construção e manutenção de linhas de transmissão são difíceis. Por isso, essas localidades dependem de geradores movidos a diesel, altamente poluentes, para ter acesso à eletricidade.

O combustível, transportado por barcos, abastece cerca de 160 usinas térmicas locais e milhares de geradores espalhados pela floresta. Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o governo brasileiro gasta cerca de US$ 2,4 bilhões por ano em subsídios para sustentar esse modelo.

Agora, painéis solares e baterias de lítio começam a transformar esse cenário, complementando ou até substituindo totalmente o diesel.

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— Antes dependíamos de diesel e lamparinas. Hoje temos energia elétrica 24 horas por dia, sem barulho e sem fumaça — afirma Waldemir da Silva, líder da comunidade indígena Três Unidos, com cerca de 40 famílias, localizada na foz do rio Cuieiras, a cerca de 72 quilômetros de Manaus (AM) e acessível apenas por barco.

A mudança é impulsionada por uma combinação de políticas públicas, queda nos custos das tecnologias e iniciativas filantrópicas voltadas à implantação de microredes.

O Ministério de Minas e Energia planeja integrar sistemas solares e baterias a usinas a diesel em toda a Amazônia. Em 2024, foram aprovados 29 projetos que devem atender 650 mil pessoas e evitar a emissão de 800 mil toneladas de gases de efeito estufa até 2036. A economia com subsídios pode chegar a US$ 171 milhões.

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A diferença de emissões entre o sistema interligado nacional e os sistemas isolados evidencia o impacto ambiental. Enquanto a rede principal emitiu cerca de 0,04 tonelada de CO₂ por megawatt-hora em 2025, os sistemas isolados chegaram a 0,67. Na prática, a geração de energia em sistemas isolados é quase 17 vezes mais poluente que a da rede nacional.

Na cidade de Tefé, com 74 mil habitantes, a empresa Aggreko implementa um dos maiores sistemas híbridos da região, combinando energia solar e armazenamento em baterias a uma usina a diesel existente. A tecnologia inclui cerca de 122 MWh em baterias fornecidas pela Huawei, com previsão de operação nos próximos dois anos.

Já em Maués, com cerca de 61 mil habitantes, a fabricante brasileira UCB Power instalou um sistema híbrido menor.

— Ao combinar solar com armazenamento em uma usina térmica, é possível gerar competitividade, criar valor e obter retorno alinhado às expectativas de investidores — afirma o diretor de operações da empresa, Antonio Maldonado.

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Fora das cidades, cerca de 1,2 milhão de pessoas vivem em comunidades indígenas e ribeirinhas no interior da floresta. Nessas regiões, os geradores são usados por poucas horas ao dia para economizar combustível, cujo custo aumentou com as recentes tensões globais.

Esse era o caso de Três Unidos, onde a energia vinha de um gerador a diesel intermitente. Um programa federal havia distribuído kits solares, mas com capacidade limitada, insuficiente para atividades como refrigeração.

Sem poder armazenar alimentos, os moradores dependiam de gelo, o que elevava os custos.

— Todo o nosso lucro ia para comprar gelo — conta Neurilene Kambeba, dona de um restaurante e uma pousada na comunidade.

Em dezembro, a localidade recebeu uma microrede com painéis solares e baterias, garantindo energia contínua. O consumo de diesel caiu cerca de 1.800 litros por mês. A ocupação da pousada aumentou 70%, já que turistas passaram a ter acesso a ventilação durante toda a noite.

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O sistema foi financiado pelo governo alemão, em parceria com a Fundação Amazônia Sustentável (FAS), e conta com 320 painéis solares e 120 baterias. A gestão é comunitária, com moradores treinados para operar e manter a estrutura.

Outras comunidades também foram beneficiadas. Em Santa Helena do Inglês, uma microrede já permite até a produção local de gelo, reduzindo custos para pescadores. Em Tumbira, o sistema abastece escola, posto de saúde e sistema de água.

Especialistas apontam, no entanto, que a expansão dessas soluções ainda depende de novos modelos de financiamento. Grandes projetos conseguem atrair investimento público e privado, enquanto pequenas soluções domésticas contam com programas governamentais, mas as microredes ficam no meio desse caminho e ainda dependem de doações e projetos-piloto.

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— Precisamos tornar essa tecnologia mais acessível para comunidades menores, que não têm capacidade de investimento — afirma Markus Vlasits, diretor da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia.

Para moradores locais, o impacto vai além da eletricidade.

— Se todas as comunidades tivessem energia solar, seria uma solução limpa que fortalece a sustentabilidade — afirma Roberto de Mendonça, morador de Tumbira. — A energia traz qualidade de vida, progresso, renda e educação. Traz tudo