Uma manhã dedicada ao acolhimento, à convivência e à valorização das histórias de vida. Foi com esse propósito que a Diretoria da Festa de Nazaré (DFN) realizou, neste sábado (19), a “Manhã dos Eleitos”, na Casa de Plácido, em Belém. A programação reuniu 80 idosos atendidos por quatro instituições: os abrigos João de Deus, São Vicente de Paulo e São José, além do Núcleo de Projetos Sociais (NUPS) da Basílica Santuário de Nazaré.
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Com o lema “Você é amado: sua vida tem valor pelas mãos de Maria”, a iniciativa combinou atividades culturais, momentos de convivência, cuidados de beleza, oficinas e evangelização. Para a organização, a proposta foi dedicar atenção a um público que muitas vezes enfrenta situações de solidão e afastamento da convivência familiar.
[[(com.atex.plugins.image-gallery.MainElement) ‘Manhã dos Eleitos’ reúne 80 idosos em manhã de acolhimento, fé e valorização da vida ]]
A programação começou às 8h com a recepção “Caminho das Rainhas”, formada por um corredor de acolhimento com música e pétalas de rosas. Em seguida, os participantes tiveram um café da manhã e participaram da dinâmica “Minha História Importa”, uma roda de conversa voltada às lembranças e experiências pessoais dos idosos.
(Foto: Carmem Helena | O Liberal)
Ao longo da manhã, foram realizadas oficinas de pintura de barquinhos de miriti, produção de cartazes do Círio, pintura de mantos, confecção de velas, além de atividades de alongamento e dança. Também houve corte de cabelo, cuidados de beleza, leitura bíblica e oração. A programação foi encerrada com um almoço de confraternização.
Para Sheila Bentes, membro da Diretoria de Arraial e Arrecadação da DFN e responsável pela organização da Manhã dos Eleitos, a iniciativa tem na evangelização um de seus principais objetivos.
Sheila Bentes. (Foto: Carmem Helena | O Liberal)
“A principal proposta é evangelizar sempre, que a gente nunca perca a nossa fé e, juntamente, evangelizar”, afirmou.
Segundo Sheila, a escolha do público idoso ocorreu a partir da percepção de que essa parcela da população pode acabar ficando em segundo plano nas ações sociais.
“São pessoas que muitas vezes ficam invisíveis. Crianças comovem, mas o idoso, com o tempo, vai sendo deixado de lado nas prioridades sociais. Quisemos inverter isso, mostrar que a vida deles ainda tem valor, ainda merece festa, ainda merece Círio”, explicou.
Escuta e acolhimento
Uma das novidades desta edição foi a presença da psicóloga Thais Nassar, integrada ao trabalho de acolhimento dos participantes. A proposta foi oferecer uma escuta individual e qualificada, respeitando os limites e o tempo de cada idoso.
“Foi essencial. A gente lida com pessoas que, no cotidiano, enfrentam solidão e ausência de convivência familiar, e isso deixa marcas emocionais que vão muito além de uma manhã de atividades”, destacou Sheila.
Para ela, acolher significa oferecer atenção genuína e reconhecer a importância da história de cada pessoa. “É escuta individual, atenção genuína, olhar nos olhos e dizer: ‘sua história importa’. Acolhimento, para mim, significa dar espaço para que a pessoa seja ouvida, sentida e respeitada no seu tempo”, afirmou.
(Foto: Carmem Helena)
A participação das quatro instituições também foi definida a partir da relação já estabelecida com a DFN. De acordo com Sheila, são entidades que atuam diariamente no cuidado com idosos e que abraçaram a proposta da programação.
Emoção diante da Imagem Peregrina
Entre os participantes estava Lélia Sebastiana, que vive há 28 anos no abrigo São Vicente de Paulo. Para ela, a experiência foi marcada pela emoção, especialmente pela proximidade com a Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Nazaré.
“Participar desse momento hoje está sendo muita alegria. Tudo me emocionou hoje aqui. Ficar perto da Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Nazaré representa tudo”, contou.
A presença da imagem também despertou lembranças da infância. Lélia recordou o período em que morava na Cidade Velha, próximo à Igreja da Sé.
(Foto: Carmem Helena | O Liberal)
“Vem a saudade do tempo de criança quando eu morava no bairro da Cidade Velha. A nossa casa era a segunda depois da Igreja da Sé”, relembrou.
Outra participante foi Nair Pantoja de Araújo, de 75 anos, que vive há dois anos e seis meses no São Vicente de Paulo. Para ela, a possibilidade de estar ao lado de outras pessoas que vivem uma realidade semelhante foi um dos motivos que tornaram a manhã especial.
“O que me fez participar hoje da ‘Manhã dos Eleitos’ foi a companhia das pessoas que estão na mesma situação que eu. Eu não me sinto abandonada. Eu tenho muitos problemas, mas eu me senti muito bem aqui”, relatou.
O momento que mais a emocionou também foi a chegada da imagem de Nossa Senhora de Nazaré. A cena trouxe de volta memórias de sua relação com a Basílica de Nazaré.
“Eu morava próxima à Igreja de Nossa Senhora de Nazaré, então eu passava todo dia lá. Todo dia eu entrava na igreja. Eu estava sempre próxima a ela porque eu ia para a missa”, contou.
(Foto: Carmem Helena | O Liberal)
Quase quatro décadas de história
A Manhã dos Eleitos tem origem em uma iniciativa realizada em 1987. Naquele ano, após o Círio, foi percebida a sobra de alimentos utilizados durante a programação. O então coordenador do Círio, Gleidson Dias de Figueiredo, decidiu destinar os alimentos à doação. Surgia, assim, a “Noite dos Eleitos”.
Em 2003, buscando ampliar o número de pessoas atendidas e facilitar a logística da ação, a Diretoria da Festa transferiu a programação para o período diurno. Nascia a atual “Manhã dos Eleitos”.
(Foto: Carmem Helena | O Liberal)
Ao longo de 39 anos, a iniciativa passou a incorporar novas atividades e formas de acolhimento, mantendo a proposta de unir solidariedade e fé.
“É bonito parar e olhar para trás. Tudo começou de um gesto simples. Dali nasceu a ‘Noite dos Eleitos’. Em 2003, por uma questão de espaço e para conseguir atender um número maior de pessoas, a Diretoria da Festa transformou a programação em evento diurno, e foi aí que passou a se chamar ‘Manhã dos Eleitos’”, explicou Sheila.
(Foto: Carmem Helena | O Liberal)
Para a organização, a trajetória representa a continuidade de uma ação que nasceu de um gesto de solidariedade e se transformou em tradição ligada ao Círio de Nazaré.
“É a prova de que um gesto pequeno, quando nasce do coração, pode virar tradição, pode virar cuidado que atravessa gerações. E mais do que uma data no calendário do Círio, esse projeto é um lembrete de que a fé também se pratica no gesto concreto de cuidar de quem mais precisa”, afirmou.
A próxima edição marcará quatro décadas de história. Segundo Sheila, a DFN ainda está nos primeiros passos do planejamento, mas a intenção é fazer da comemoração um momento especial, recuperando a trajetória do projeto junto aos idosos e às instituições parceiras e ampliando as ações de cuidado individual.
A programação deste sábado, portanto, também serviu como preparação para um marco que será celebrado em 2027: os 40 anos de uma iniciativa que, desde sua origem, associa a tradição do Círio à solidariedade e ao cuidado com pessoas atendidas por instituições sociais de Belém.
O Liberal