‘Mal-estar’ favorece a direita, diz chefe da Ipsos. “O sistema não está funcionando”

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Fonte da notícia: Brazil Journal Brazil Journal

A corrupção e a segurança pública são os temas decisivos da eleição deste domingo – e são assuntos em que Flávio Bolsonaro leva vantagem sobre Lula. A análise é do cientista social Clifford Young, um veterano das pesquisas eleitorais e chair da Ipsos Public Affairs, nos EUA. “É um momento em que as maiores preocupações dos eleitores, que são crime e corrupção, favorecem os candidatos de direita,” Young disse ao Brazil Journal. A base de dados da Ipsos com centenas de eleições ao redor do mundo mostra que os candidatos com melhor avaliação no tema predominante nas preocupações dos eleitores saem vitoriosos em 85% dos casos. Young viveu em São Paulo e é casado com uma brasileira. Atualmente é professor visitante da Texas A&M University, mas viaja com frequência ao Brasil. De acordo com ele, as pesquisas têm demonstrado um profundo mal-estar social dos eleitores e uma percepção de que o sistema não está funcionando – fatores que reforçam a tendência do voto anti-incumbente. Para o pesquisador, a onda de direita na América Latina – que poderá ser completada com a vitória de Flávio no domingo – não representa uma virada ideológica na região. “É um movimento muito mais anti-incumbente, tendo crime e corrupção como temas principais,” afirmou. “O Brasil e a América Latina não estão se tornando mais conservadores.” Na entrevista a seguir, Young comenta ainda por que as pesquisas eleitorais continuam subestimando os votos na direita. Em suas análises recentes, você afirma que as atuais preocupações do eleitor tendem a favorecer a oposição. Por que o Governo, com a máquina pública nas mãos, não é o favorito? O Brasil, como boa parte do mundo, vive um momento de alto grau de desconfiança na política. Em nossas pesquisas, as pessoas afirmam que o sistema está quebrado, não está funcionando e não cumpre o que promete. Essa é uma percepção que permeia toda a sociedade brasileira. Mas é algo que vemos também em outros países, a percepção de que o contrato social não está sendo cumprido. Em inglês, dizemos que há uma malaise. Em português, eu chamaria de pessimismo estrutural. É um momento em que as maiores preocupações, que são crime e corrupção, favorecem os candidatos de direita. Por quê? Não vou dizer que a direita vai necessariamente ganhar, mas a tendência é de a direita ser favorecida. Temos uma base de dados na Ipsos, com eleições de todo o mundo, que diz o seguinte: o candidato mais forte com relação ao principal tema ganha em 85% das vezes. No Brasil, esse tema é corrupção. No momento, é algo que favorece a direita. O Flávio, portanto, fica favorecido por causa disso. Tem os vetores a favor dele. O Lula é associado como o candidato da situação. Será uma eleição bastante apertada. Mas, nas atuais circunstâncias, eu preferiria ser o estrategista do Flávio. O Lula, claro, controla o Governo, tem o poder do incumbente. Está conseguindo mobilizar as pessoas e parece que tem conseguido reduzir a diferença entre alguns grupos de eleitores. Mesmo com notícias sobre suspeitas de corrupção envolvendo Flávio, esse é um tema que, na sua avaliação, favorece o candidato de oposição? Sim. Neste momento, se olharmos as pesquisas, Flávio tem uma vantagem no que diz respeito ao enfrentamento da corrupção. Na cabeça das pessoas, todo mundo está envolvido em corrupção de alguma maneira, então parece melhor trocar de Governo. É esse o raciocínio dos eleitores. Lula anunciou diversas medidas para conquistar indecisos e virar votos, como o aumento do Bolsa Família e o perdão de dívidas. Isso funciona na reta final, ou pode ser percebido como algo oportunista e eleitoreiro? Provavelmente, não vai ter grande efeito, mas pode ajudar a ganhar votos em determinados segmentos. Não estou na campanha, mas imagino que tenham sido medidas focadas em certos grupos, aqueles que estão em cima do muro ou que talvez não tenham votado no primeiro turno. Vai ser uma corrida vencida por centímetros. Estamos falando um ou dois pontos. O que Lula fez nas últimas semanas teve algum efeito. O desemprego no Brasil está baixo, a inflação está relativamente controlada. Não estamos em recessão. Qual a razão da percepção negativa das pessoas em relação à situação econômica? O Brasil não está ruim, mas não está ótimo. As pessoas estão enfrentando dificuldades para pagar as contas, precisam fazer manobras. O brasileiro vem sentindo isso há algum tempo. Houve um grande avanço da classe média, 20 anos atrás, mas desde então tem sido difícil para a maioria das pessoas. Há pessimismo com relação ao futuro, porque as pessoas não estão conseguindo progredir. A aprovação do Governo Lula está ao redor de 45%, enquanto a desaprovação passa de 50%. É um número, ainda assim, considerado suficiente para a reeleição de incumbentes, segundo os dados históricos da Ipsos. Por que esse nível de avaliação talvez não baste para Lula ganhar desta vez? Quando fazemos a previsão de eleição, usamos vários modelos. Esse é um deles. É uma ótima maneira de começar a pensar como será a eleição. A aprovação de Lula está um pouco abaixo dos 45%, pelas nossas pesquisas. Nessa altura, ele não é o franco favorito.  Temos um outro modelo, como já falei, segundo o qual o candidato mais forte no tema de maior preocupação dos eleitores ganha, na média, em 85% das vezes. Os contratos dos mercados preditivos estão dando uma chance de 80% para Flávio. Vocês incorporam esses dados na avaliação? Usamos sim esses dados em nossos modelos, mas eles costumam funcionar bem apenas quando são mercados com um volume de apostas. Na eleição de 2024 nos EUA, eles conseguiram cravar com bastante precisão os resultados. Boa parte das pesquisas mostrava Lula na frente antes do primeiro turno. Por quê? Existe uma dificuldade de capturar o voto da direita? No primeiro turno é sempre mais complicado fazer pesquisa, há mais erros, porque existem muitos candidatos e há eleitores que trocam de voto constantemente. Acho que as pesquisas tiveram agora um bom desempenho, na comparação com eleições anteriores, mas ainda assim erraram quem ficaria na frente. Parte da explicação para isso foi uma questão de tendência. Havia um movimento de convergência bem óbvio, se olharmos os gráficos. Flávio foi se tornando mais conhecido, e foi beneficiado pela transferência de votos que iriam para outros candidatos de oposição. Mas a outra parte da explicação é que nós, da indústria de pesquisas, temos um problema com a direita, e não apenas no Brasil. As pesquisas costumam subestimar os votos de direita – algo em torno de 1,5% e 2%. Por que isso acontece? No Brasil, vimos nos grupos de pesquisas pessoas falando que não gostavam do Flávio, mas não votariam no PT de jeito nenhum. Não chega a ser um voto envergonhado, mas é um voto que muitas vezes não é declarado nas pesquisas. Além disso, há pessoas que realmente não acreditam no sistema, não querem participar de pesquisas. Mas votam na direita. É algo que vemos em diversos países. Trata-se de um segmento relativamente pequeno, mas difícil de captar. A América do Sul vive uma onda de direita ou uma onda anti-incumbente? É um movimento muito mais anti-incumbente, tendo crime e corrupção como temas principais. E isso tende a favorecer a direita.  Mas não é movimento ideológico, o Brasil e a América Latina não estão se tornando mais conservadores. No longo prazo, as tendências de valores mudam muito lentamente. A eleição é um pêndulo que vai e vem. Nesse momento, está indo contra quem está no poder – está indo contra a esquerda, porque as pessoas querem soluções para a corrupção e crime. A esquerda conseguiu, ao longo das últimas duas décadas, melhorar de fato a vida de muitas pessoas, com as políticas sociais. OK, resolveu a questão do arroz com feijão. Mas as pessoas querem andar na rua sem se preocupar, não querem um governante corrupto, não querem ficar quatro horas no transporte público, querem saúde e segurança. Governos de direita eleitos recentemente na América do Sul já estão enfrentando queda de popularidade, com a frustração da expectativa dos eleitores. É o caso do Chile, com José Antonio Kast, e também da Argentina, com Javier Milei. O que um novo governante precisa fazer para não ver a sua popularidade derreter rapidamente? O tempo de lua de mel dos eleitores com os novos governantes diminuiu em todo o mundo. Em sistemas presidencialistas, cai muito rapidamente. O que vemos são eleitores que perderam a paciência, acham que o Governo não está cumprindo o papel dele. Portanto, um novo governante precisa entender que terá menos de um ano para conseguir impor a sua agenda. Dentro desse período, não pode querer fazer muitas coisas. Trump, por exemplo, tentou fazer dez coisas ao mesmo tempo – e coisas conflitantes. Ele deveria ter focado em menos questões, como imigração, e pronto. Uma coisa importante é fazer o que prometeu. Se você falou que ia reduzir o custo de vida você não pode atacar o Irã. Cria dissonância. Nem estou fazendo o julgamento dos valores sobre as decisões, mas parece uma decisão dissonante para a população. É um momento muito difícil para os governantes – muito mais difícil do que em outros tempos. Mas essa é a nossa vida agora.

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