Susan Millner e Craig Dalton não existem. Os dois nomes foram inventados por pesquisadores de Harvard e misturados a uma lista de 12 pessoas reais ligadas ao desenvolvimento da inteligência artificial. Ainda assim, 53% dos homens entrevistados disseram reconhecer cada um deles. Entre as mulheres, a proporção foi de 40%. Na amostra total, os dois personagens fictícios foram reconhecidos por 46% dos participantes, a mesma proporção registrada por Mira Murati, ex-diretora de tecnologia da OpenAI, e pela cientista da computação Fei-Fei Li. Sam Altman, presidente executivo da OpenAI, foi reconhecido por 64%. Os resultados fazem parte do relatório “Are Women Being Left Out of AI?”, divulgado na quarta-feira (14) pelo Shorenstein Center, da Harvard Kennedy School. O trabalho investiga diferenças entre homens e mulheres no conhecimento, no uso e na percepção da inteligência artificial. A principal pesquisa ouviu 5.403 adultos dos 50 estados americanos e de Washington entre 10 e 16 de julho. A amostra, recrutada pela internet, foi ajustada para refletir características da população dos Estados Unidos. O relatório também analisou dados de navegação e 78.542 reportagens sobre inteligência artificial publicadas no país entre julho de 2025 e junho de 2026. Mais acertos e mais chutes Os homens acertaram mais perguntas factuais sobre inteligência artificial. Em uma bateria de 12 questões, registraram média de 7,1 respostas corretas, ante 6,3 entre as mulheres. A diferença diminuiu quando os pesquisadores olharam para os erros. Os homens deram, em média, duas respostas incorretas, contra 1,6 entre as mulheres. Elas compensaram a diferença recorrendo mais à opção “não sei”: média de quatro respostas, ante 2,9 entre os homens. Para os autores, o resultado indica que parte da distância registrada no conhecimento sobre IA pode estar relacionada a uma confiança maior, e por vezes excessiva, entre os homens. O reconhecimento dos dois personagens inventados reforçou essa interpretação. Laura Manley, diretora-executiva do Shorenstein Center e uma das autoras do relatório, disse à Wired que os homens demonstraram mais confiança e otimismo em relação à inteligência artificial. Em alguns casos, segundo ela, essa confiança avançou para a superestimação do próprio conhecimento. O levantamento também encontrou diferenças nas reações à tecnologia. Preocupação e receio foram os sentimentos predominantes nos dois grupos, mas apareceram com mais intensidade entre as mulheres. Os homens atribuíram notas mais altas a todas as emoções positivas avaliadas, entre elas curiosidade, entusiasmo, otimismo e empolgação. Mulheres usam menos IA e quase não aparecem no debate Na pesquisa, 29% das mulheres afirmaram nunca ter usado ferramentas de inteligência artificial, ante 22% dos homens. O uso regular foi relatado por 16% delas e 25% deles. A criação de fluxos de trabalho ou automações com IA apareceu entre 3% das mulheres e 5% dos homens. Os dados observados de navegação, porém, mostraram um retrato mais próximo entre os dois grupos. Não houve diferença estatisticamente significativa na proporção de homens e mulheres que haviam acessado alguma ferramenta de IA pelo computador. Entre aqueles que usaram a tecnologia, os homens dedicaram 4,6% do tempo de navegação a essas ferramentas, ante 2,9% entre as mulheres. No ambiente profissional, mulheres empregadas relataram com menor frequência acesso a treinamento, mentoria e incentivo para usar inteligência artificial. Nos dois grupos, esses três tipos de apoio apareceram associados a maior uso, confiança e percepção de valor da tecnologia. A diferença também chegou à cobertura jornalística. Em 78.542 reportagens americanas sobre IA, nomes de homens apareceram em manchetes 14,6 vezes mais do que nomes de mulheres. Eles responderam por 93,6% das menções a pessoas nos títulos analisados. Nos textos, os pesquisadores identificaram 124.004 pessoas citadas como especialistas ou autoridades. Homens representaram 70,1% dessas fontes, mulheres ficaram com 16,2% e, em 13,6% dos casos, o gênero não foi identificado. Isso significa que especialistas homens foram citados 4,3 vezes mais. Os nomes presentes nas manchetes foram revisados manualmente. Para classificar as fontes citadas nos textos, a equipe usou o modelo Claude Sonnet 5 em 63.585 reportagens cuja coleta e análise foram concluídas. Mesmo depois de retirar executivos, fundadores, autoridades e investidores, as mulheres representaram apenas 24,8% dos especialistas cujo gênero pôde ser identificado. A pesquisa se concentrou em participantes que se identificaram como homens ou mulheres porque os demais grupos não tinham amostras suficientes para comparações confiáveis. O trabalho foi financiado pela Pivotal, organização fundada por Melinda French Gates para apoiar iniciativas voltadas a mulheres e jovens. Mais Lidas
Mais da metade dos homens diz conhecer líderes de IA que não existem, mostra estudo de Harvard
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