Maior consumo da energia de Itaipu pelo Paraguai ameaça elevar preços no Brasil 

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

247 – O crescimento acelerado da demanda por eletricidade no Paraguai deve reduzir a quantidade de energia da hidrelétrica de Itaipu disponível ao Brasil e provocar uma elevação dos preços no mercado brasileiro, especialmente nos horários de maior consumo. A pressão tende a se intensificar a partir de 2027, com o aumento da necessidade de acionamento de usinas termelétricas para compensar a menor oferta hidrelétrica.

A avaliação, segundo a agência Reuters, consta de um relatório do Itaú BBA. Segundo o estudo, o avanço do consumo paraguaio, impulsionado por atividades como mineração de criptomoedas e operação de centros de processamento de dados, conhecidos como data centers, está modificando a distribuição da energia produzida pela usina binacional.

Pelas projeções do banco, a geração termelétrica brasileira poderá aumentar aproximadamente 11% ao ano entre 2027 e 2029 em decorrência da menor disponibilidade de energia de Itaipu. O estudo também estima uma elevação de R$ 40 a R$ 59 por megawatt-hora (MWh) no preço marginal médio da eletricidade.

Consumo paraguaio cresce e reduz oferta ao Brasil O Tratado de Itaipu estabelece que Brasil e Paraguai têm direito, cada um, à metade da energia produzida pela hidrelétrica, cuja capacidade instalada é de 14 gigawatts (GW).

A parcela não utilizada por um dos países pode ser adquirida pelo outro. Historicamente, o Brasil consome integralmente sua metade da produção e também adquire o excedente paraguaio, uma vez que a demanda por eletricidade no país vizinho sempre foi significativamente menor.

Essa configuração, entretanto, está mudando. De acordo com o Itaú BBA, a demanda energética do Paraguai registrou crescimento anual entre 12% e 18% de 2023 a 2025, alcançando carga média de 3,3 GW no último ano.

Desde 2021, a expansão média anual foi de aproximadamente 12%. Praticamente toda a eletricidade consumida no Paraguai é fornecida por Itaipu, embora essa participação possa variar conforme as decisões comerciais e operacionais da Administração Nacional de Eletricidade (Ande), estatal responsável pelo setor elétrico paraguaio.

A expansão de atividades intensivas em eletricidade, como data centers e mineração de criptomoedas, está entre os fatores que explicam o aumento da demanda. Horário de pico agrava pressão sobre sistema brasileiro

Um dos principais problemas identificados pelo banco é a coincidência entre os horários de maior consumo de eletricidade nos dois países. Entre abril e setembro, o pico de demanda paraguaio ocorre às 18h, justamente quando o Sistema Interligado Nacional (SIN) brasileiro também enfrenta maior necessidade de geração para atender ao consumo líquido de energia.

Os analistas Fillipe Andrade, Lucas Guimarães e Lorena Fernandez destacam que essa coincidência pode reduzir a contribuição de Itaipu ao abastecimento brasileiro em um dos momentos mais críticos do dia. “Entre abril e setembro, o pico de carga do Paraguai ocorre às 18h, coincidindo com o pico de carga líquida do SIN (sistema brasileiro).

A demanda da Ande nesse horário deverá crescer de 4,0 GW em 2026 para 4,7 GW em 2029, reduzindo a energia de Itaipu disponível para o Brasil justamente no momento em que o sistema mais necessita dela”, afirmam os especialistas no relatório. A menor disponibilidade de geração hidrelétrica nesse período poderá exigir o acionamento adicional de termelétricas, cuja produção costuma apresentar custos mais elevados.

O Itaú BBA avalia que esse cenário tende a favorecer empresas com capacidade de geração termelétrica, como a Eneva, além de companhias hidrelétricas que mantêm parte de sua produção sem contratos de venda de longo prazo para aproveitar períodos de preços mais altos. Entre as empresas que podem se beneficiar dessa dinâmica estão Axia, Copel, Auren e Engie, segundo o banco.

Mudança prevista para 2027 deve evidenciar impacto nos preços O relatório aponta que os efeitos do aumento da demanda paraguaia deverão ficar mais evidentes a partir de 2027, quando o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) passará a utilizar uma nova metodologia para projetar o consumo da Ande na programação mensal da operação elétrica brasileira.

Atualmente, o mecanismo de previsão não acompanha adequadamente a aceleração da demanda registrada no Paraguai nos últimos anos. Com a atualização, a expectativa é que as projeções operacionais passem a refletir com maior precisão a quantidade de energia de Itaipu efetivamente disponível ao Brasil.

A mudança poderá tornar mais explícita a necessidade de complementar o abastecimento com outras fontes de geração, sobretudo nos horários em que a demanda dos dois países coincide. Distribuidoras alertam para risco de falta de contratos

Além da pressão sobre os preços, a ampliação do consumo paraguaio também preocupa as distribuidoras brasileiras que possuem cotas de energia de Itaipu destinadas ao atendimento de seus consumidores. A Associação Brasileira de Distribuidoras de Energia Elétrica (Abradee) encaminhou uma carta à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) alertando para o risco de subcontratação dessas empresas em 2027.

O problema poderá ocorrer caso o volume efetivamente utilizado pela Ande supere a quantidade previamente descontada das cotas brasileiras. Nessa situação, as distribuidoras poderão dispor de menos energia contratada do que o necessário para atender seus mercados.

Para compensar a diferença, as empresas teriam de recorrer à aquisição de eletricidade no mercado de curto prazo, ficando expostas às oscilações de preços. Na correspondência enviada à Aneel, a Abradee solicitou que a agência reguladora e o governo federal definam de maneira “tempestiva” o volume de energia destinado à Ande que deverá ser abatido das cotas brasileiras de Itaipu para 2027.

A associação também pediu que, caso seja identificada uma alteração significativa em relação aos volumes de 2026, as distribuidoras tenham autorização para revisar suas necessidades de contratação antes do leilão de compra de energia previsto para 13 de novembro.

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