Magreza, músculos e definição: como a relação das mulheres com o corpo está mudando

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Durante décadas, a silhueta magra ocupou lugar de destaque entre os padrões de beleza feminina. Dietas restritivas, treinos voltados à queima de calorias e a busca por números menores na balança marcaram diferentes gerações.

Agora, porém, outro ideal ganha espaço nas redes sociais, nas academias e no imaginário da moda: o corpo forte, com músculos aparentes, maior definição e capacidade física. O corpo mudou, mas os hábitos são os mesmos? Entenda o que pode estar por trás

Saiba: Por que o corpo de uma mulher ainda vira assunto tão facilmente? A mudança acontece em um momento de popularização dos medicamentos para emagrecimento e de discussões sobre os impactos da perda de massa muscular, colocando em evidência uma questão que vai além da aparência: como construir um corpo saudável sem transformar a busca por resultados em mais uma cobrança estética?

Braços definidos, pernas musculosas, glúteos trabalhados e vídeos de mulheres levantando cargas cada vez maiores passaram a integrar o repertório de imagens associado ao universo fitness. A expressão strong is the new skinny — algo como "forte é o novo magro" — resume essa mudança de referência.

Em vez de concentrar a atenção exclusivamente no peso, parte das mulheres passou a valorizar a força, o condicionamento físico e a composição corporal. O movimento também dialoga com a popularização das chamadas canetas emagrecedoras.

À medida que os medicamentos utilizados no tratamento da obesidade ganharam visibilidade, a preservação da massa muscular passou a ocupar mais espaço nas conversas sobre emagrecimento. Afinal, perder peso não significa necessariamente reduzir apenas gordura corporal.

"Precisamos mudar a maneira como enxergamos o emagrecimento. Não basta observar o peso na balança, porque a composição corporal tem uma importância muito maior para a saúde.

Preservar a massa muscular é fundamental para manter a disposição, a autonomia e a qualidade de vida, especialmente à medida que a mulher envelhece. O objetivo não deve ser apenas ficar mais magra, mas construir um organismo saudável e preparado para as diferentes fases da vida", explica Marco Vilarinho, médico e fundador da MV Clinic Health & Care, em São Paulo.

O que muda quando o objetivo deixa de ser apenas emagrecer? A valorização da musculatura representa uma mudança importante na maneira de pensar o condicionamento físico.

A prática de exercícios de força, antes frequentemente associada a objetivos estéticos específicos, ganhou espaço entre mulheres interessadas em melhorar a resistência, preservar a autonomia e cuidar da saúde a longo prazo. Segundo Vilarinho, estratégias baseadas exclusivamente na restrição alimentar podem comprometer a composição corporal quando não levam em conta as necessidades individuais.

"O emagrecimento saudável exige uma avaliação clínica completa. É preciso investigar o metabolismo, a alimentação, o sono, possíveis deficiências nutricionais e as mudanças hormonais que acontecem ao longo da vida.

Quando o foco está apenas em perder quilos rapidamente, corremos o risco de deixar de lado fatores essenciais para a manutenção da saúde e da massa muscular", afirma. Nesse contexto, alimentação adequada e treinamento de força são aliados importantes.

A ingestão de proteínas, por exemplo, precisa ser compatível com as necessidades de cada pessoa, enquanto a musculação oferece estímulos para a manutenção e o desenvolvimento muscular. O uso de medicamentos, quando indicado, não substitui esses cuidados nem dispensa acompanhamento profissional.

Por que a musculatura ganha importância depois dos 40 anos? A discussão sobre força também tem relevância especial para mulheres que se aproximam da menopausa.

Durante a perimenopausa, as oscilações hormonais e o processo natural de envelhecimento podem influenciar a distribuição da gordura corporal e a manutenção da massa muscular. A saúde óssea também passa a exigir atenção.

"A partir dos 40 anos, muitas mulheres começam a perceber mudanças que não dependem apenas da alimentação. As oscilações de estrogênio e progesterona, associadas ao envelhecimento, podem influenciar a distribuição de gordura e a preservação da massa muscular.

Por isso, precisamos olhar para essa fase de maneira mais ampla, considerando saúde metabólica, hábitos de vida e as particularidades de cada paciente", destaca o médico. A musculação, nesse cenário, deixa de ser apenas uma ferramenta para modificar a aparência.

O fortalecimento muscular pode contribuir para a capacidade funcional, a manutenção da independência e a qualidade de vida ao longo dos anos. Isso não significa que todas as mulheres precisem perseguir o mesmo resultado ou seguir uma rotina idêntica de exercícios.

Quando o corpo forte vira mais uma cobrança estética Apesar dos benefícios associados à valorização da musculatura, a mudança de padrão também merece atenção.

Se antes a pressão recaía sobre a necessidade de ser extremamente magra, agora algumas mulheres podem sentir que precisam reunir características igualmente difíceis de conciliar: pouca gordura corporal, músculos definidos, cintura fina e um físico constantemente condicionado. A exigência também pode aparecer na alimentação e nos hábitos de treino.

Dietas hiperproteicas, suplementação sem orientação e exercícios em excesso são alguns dos caminhos adotados por quem tenta alcançar rapidamente a estética em evidência. Nesse processo, uma proposta inicialmente relacionada à saúde pode acabar reproduzindo a mesma lógica de cobrança dos padrões anteriores.

"Não podemos transformar a busca por força em outra forma de cobrança. Cada mulher possui uma composição corporal, uma realidade metabólica e necessidades diferentes.

O que funciona para uma pessoa pode não ser adequado para outra. A saúde precisa ser avaliada de maneira individualizada, sem a obrigação de reproduzir o corpo que está em evidência nas redes sociais", ressalta.

Outro aspecto importante é a relação com a balança. Mulheres que começam a praticar musculação podem apresentar mudanças na composição corporal sem observar uma redução expressiva no peso.

Isso acontece porque o desenvolvimento muscular e a diminuição da gordura não necessariamente provocam grandes alterações no número indicado pelo aparelho. Por essa razão, a evolução também pode ser observada por indicadores como força, condicionamento, disposição e qualidade de vida.

"O peso isoladamente não conta toda a história. Uma mulher pode estar mais forte, com melhor condicionamento e mais qualidade de vida sem necessariamente apresentar uma grande mudança na balança.

Precisamos valorizar esses ganhos e compreender que emagrecimento saudável não significa simplesmente pesar menos", pontua o especialista. Com a proximidade do verão, a discussão ganha outro componente: a conhecida pressa para modificar o corpo antes da temporada de praia.

O chamado Projeto Verão costuma estimular dietas restritivas e metas de curto prazo, mas a preocupação com a saúde muscular exige uma perspectiva diferente. "Meu objetivo é que a mulher não precise olhar para trás desejando voltar aos 20 anos, mas possa viver a melhor fase da sua vida agora, com saúde, maturidade, autonomia e disposição.

A longevidade não deve ser medida apenas pela aparência, mas pela capacidade de viver bem, com energia e qualidade de vida", conclui.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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